Escrever a história com Ana Maria Gonçalves

29/10/2026

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Primeira mulher negra a integrar a Academia Brasileira de Letras, escritora fala sobre processo criativo, influências na escrita e a luta contra diversas formas de discriminação (foto: Tânia Rêgo/ Agência Brasil)

Leia a edição de novembro de 2026 na íntegra

POR LÚCIA NASCIMENTO

Era o mês de janeiro do já distante ano de 2001. Dentro de uma livraria, uma mulher de 30 anos procura guias de viagem quando vários livros, como peças de dominó, caem da prateleira. Ela consegue agarrar apenas um deles com as mãos: era Bahia de todos os santos: guia de ruas e mistérios, do escritor baiano Jorge Amado (1912-2001).

A escritora mineira Ana Maria Gonçalves descreve essa como a cena que alterou os rumos de sua vida. Depois de anos trabalhando como publicitária e cansada da profissão, ela entendeu esse momento como um chamado: precisava visitar a Bahia. O que ela não teria como saber era que lá, na Ilha de Itaparica, descobriria em antigos papéis, encontrados na casa de uma moradora da ilha, a fagulha para escrever Um defeito de cor (2006).

O romance, lançado há 20 anos pela editora Record e vencedor do Prêmio Casa de las Américas, é considerado hoje um dos mais importantes para entender a história do Brasil. A obra narra a saga de Kehinde, uma mulher africana sequestrada na infância, escravizada no Brasil e que já idosa sai em busca de um filho perdido.

Nesta Entrevista, a autora revela a importância da pesquisa para seus processos criativos e como a escrita possibilitou que se entendesse como mulher negra. Também conta sobre novos projetos, a posse na Academia Brasileira de Letras (ABL), há um ano, e a infância com a mãe em Ibiá, cidade do interior mineiro onde nasceu.

Em 2026, o romance Um defeito de cor completa 20 anos. Hoje, temas como raça e gênero são mais debatidos em toda a sociedade. Como a escrita do livro se mesclou ao processo de se entender como mulher negra?
Eu sou filha de mãe negra e pai branco. Como boa parte da população brasileira, tenho essa origem mestiça. Por conta do racismo, dos tabus em torno do tema e até por eu ter a pele um pouco mais clara, demorou muito tempo para eu me entender como pessoa negra. As pessoas de pele retinta não têm essa possibilidade, porque geralmente as crianças sofrem racismo assim que entram na escola. Ali elas já entendem quem são, de onde vêm. Um defeito de cor foi o livro que escrevi enquanto tentava me entender como mulher negra no Brasil, enquanto tentava entender o racismo e o machismo que eu sofria. Para você ter ideia, antes de eu escrever o romance não havia conversa sobre racismo na minha família.

O que é possível ler através de um corpo?
Tudo. Eu costumo dizer que não ando só. Quando chego em um lugar, eu chego com muita informação: se sou mulher, homem ou uma pessoa não binária, a cor da minha pele, o meu cabelo, como estou vestida, como atuo naquele ambiente. Por isso acho tão difícil conversar com pessoas que dizem não enxergar cor ou gênero. Essa informação é falsa. Eu faço questão que meu corpo informe de onde ele vem, o que ele vem fazer no lugar onde está e as histórias que carrega com ele. A poeta e ensaísta Leda Maria Martins tem um trabalho muito interessante ao falar do corpo negro, que ela pensa como um corpo-tela, um corpo com muita história já escrita. A jornalista maranhense Rosane Borges também tem uma definição de lugar de fala extremamente interessante. Ela diz que lugar de fala é o que você faz com a experiência de viver em um corpo. É o que você fala sobre essa experiência. Não significa que só mulheres possam escrever personagens mulheres ou que só pessoas negras possam escrever personagens negros, mas quando eu escrevo a Kehinde [protagonista de Um defeito de cor], uma personagem negra, eu escrevo a partir da experiência que esse corpo negro é capaz de vivenciar ou que seria capaz de vivenciar se tivesse vivido na época em que a história do romance acontece. É um corpo que informa tanto para fora quanto para dentro. Ele me informa a partir de onde eu posso falar.

Um defeito de cor foi o livro que escrevi enquanto tentava me entender como mulher negra no Brasil,
enquanto tentava entender o racismo e o machismo que eu sofria

O quanto da Kehinde existe na Ana Maria Gonçalves e o quanto da Ana Maria Gonçalves está na Kehinde?
Elas estão tão misturadas… Eu comecei a escrever muito nova, com pouco mais de 29 anos, então talvez eu tenha projetado na personagem muito do que queria para mim. Uma das características que atravessa as duas é o desejo de envelhecer se bancando. Muitos leitores julgam a Kehinde, outros tantos adoram a personagem. Muitos se perguntam por que a Kehinde tomou as decisões que tomou. Ela fez um pacto de sobrevivência muito cedo, um pacto de viver a qualquer custo, independentemente do que precisasse fazer. Eu também estou entendendo o quão importante é bancar minhas próprias escolhas. Dizer não para algumas coisas, porque eu quero ter tempo para ficar com a minha família, com os meus livros e com a minha escrita. Bancar as minhas escolhas é algo que projetei na Kehinde e hoje ela me ensina de volta.

Você está escrevendo um novo livro, que tem como tema a menopausa. Como é trabalhar com esse assunto que por tanto tempo foi silenciado pela sociedade?
A Toni Morrison (1931-2019) [escritora estadunidense laureada com o Nobel de Literatura em 1993] escreveu o Amada (1987), um dos seus romances mais reconhecidos, porque esse era o livro que ela queria ter lido, mas não encontrou. Se pensarmos na questão racial, Um defeito de cor é esse livro para mim: o livro que eu não encontrei para ler, então fui pesquisar sobre o assunto e o escrevi. Sobre a menopausa, a questão é a mesma. Esse é um assunto sobre o qual a gente não fala. Eu nunca tinha conversado com a minha mãe, com as minhas avós, com as minhas tias sobre esse período. Durante a pandemia de covid-19, eu entrei na perimenopausa [fase de transição do corpo que antecede a menopausa] sem entender o que estava acontecendo. Eu não sabia se os sintomas no meu corpo eram pelas variações hormonais, se eram causados pela situação da pandemia, se eram por eu ter parado de fumar na mesma época: eu não dormia direito, sentia calores, meu cabelo começou a cair, eu engordei, comecei a esquecer muitas coisas e via minha estabilidade emocional desregulada. O que estava acontecendo comigo? Então comecei a estudar. Eu queria entender a menopausa a partir de um ponto de vista que não fosse o dos médicos e ginecologistas brancos. Comecei escrevendo um diário, depois parei de escrever porque eu não estava feliz com o rumo dele, não acrescentava nada às informações já disponíveis. Voltei às pesquisas e descobri que outras fêmeas do reino animal, como as orcas, passam pela menopausa. É um processo evolutivo, ou seja, os animais cujas fêmeas param de reproduzir na metade da vida são animais que geralmente vivem mais. E entender a menopausa como um processo evolutivo é libertador. Nas orcas, por exemplo, os grupos maiores costumam ser liderados pelas mais velhas, que param de ter filhos no momento em que as filhas começam a engravidar. A partir desse momento, o tempo, a energia e a experiência delas são colocados à disposição do grupo. Agora estou escrevendo a partir desse viés, que eu chamo de matriarcado.

Quando você está escrevendo, como é seu processo criativo? Você sempre parte de uma pesquisa?
Sim, eu sempre começo pela pesquisa. É um processo que eu adoro. E escrevo sobre coisas que me incomodam. Às vezes, só a pesquisa já me satisfaz. Nesses casos, não tenho motivo para escrever, já que não há nada a acrescentar àquilo, então redireciono o tempo para outras curiosidades minhas, que são muitas.

Atualmente se debate muito sobre o que é literatura. Há debates acalorados que questionam forma e conteúdo, como se fossem dois elementos independentes. Como você entende a literatura hoje?
Eu me baseio na minha formação como leitora. Eu me orgulho muito da leitora que sou. E as obras que eu escrevo são as que eu quero ler. Sempre li de tudo: desde aqueles livros de banca de jornal até obras do russo [Liev] Tolstói (1828-1910) e do Guimarães Rosa (1908-1967). Sobre o que é literatura, eu tento não entrar nesse debate. Não é que não seja interessante, mas muitas vezes os críticos falam apenas para os seus pares ou para os leitores de um ou outro livro. Como escritora, meu trabalho está feito quando publico uma obra.

A sua mãe era uma grande leitora e vocês tinham muitos livros em casa durante a sua infância. Foi ela quem te apresentou à literatura?
A minha mãe sempre gostou de ler, mas enfrentou as dificuldades de ter nascido em uma cidade pequena do interior de Minas Gerais, onde não havia livraria. Quando eu nasci, Ibiá tinha cerca de dez, doze mil habitantes. Minha mãe comprava os livros com um caixeiro-viajante que passava lá uma vez por mês. Quando surgiu a revista do Círculo do Livro [clube de assinatura criado em 1973 e que se popularizou na década de 1980, até encerrar suas atividades em 1996], foi a nossa libertação. Eu cresci vendo a minha mãe ler e não tinha a menor ideia de que isso não era algo comum em outras famílias. Ela era costureira e, quando estava na época de o caixeiro-viajante passar, virava as noites costurando para ter dinheiro e comprar mais livros: ela queria ter obras suficientes para ler durante o mês inteiro, até a próxima chegada do caixeiro-viajante. Então a leitura sempre foi um hábito muito orgânico na minha casa. Eu gosto de dormir, eu gosto de comer, eu gosto de ler: a leitura era uma ação como qualquer outra dessas no meu dia. Hoje, minha mãe é minha leitora ideal. Em primeiro lugar, eu escrevo para mim, para satisfazer a minha curiosidade. Mas eu quero que aquilo que escrevo agrade à minha mãe.

A escritora Ana Maria Gonçalves na Academia Brasileira de Letras (foto: Dani Paiva)

No discurso de posse na ABL, você iniciou a fala pedindo bênção à sua mãe. Outras produções atuais de brasileiras e latino- -americanas também referenciaram suas matriarcas. Qual é a importância da retomada das ancestrais para a escrita contemporânea?
Na minha família, a gente pede bênção desde sempre. Eu via minha mãe pedindo bênção para os tios, para a avó dela. Se, ao ligar para a minha mãe e para o meu pai, a primeira coisa que eu falo não é “bênção, mãe”, “bênção, pai”, eles sabem que não sou eu. É um dos nossos códigos familiares. Estou acostumada a pedir bênção e achei que valia fazer o mesmo no discurso de posse da ABL. Exatamente porque foi a minha formação como leitora que me levou até ali. Honrar essa ancestralidade é uma questão primordial, resgatar essas matriarcas, as mais velhas e os mais velhos também. geração que começou a militar na internet e acha que não deve nada a ninguém. Já ouvi mulheres falando que não devem nada ao feminismo. Até mesmo mulheres na política já falaram isso, como se o voto não fosse uma conquista feminista, como se poder falar abertamente sobre tantos assuntos, abrir uma conta em banco, se matricular em uma universidade, como se tudo isso não fossem conquistas feministas. É preciso honrar as que vieram antes de nós e abriram os caminhos.

Hoje você ocupa um lugar bastante simbólico, que é essa cadeira na ABL. Desde a posse, em novembro de 2025, você já conseguiu caminhar com alguma das pautas que pretende trabalhar na academia?
Eu acho que, se não for para fazer diferença, nem saio de casa [risos]. O conceito de representatividade serviu durante muito tempo para a gente estar em determinados locais onde a gente nunca esteve, por exemplo, na Academia Brasileira de Letras. Mas, a partir do momento em que cheguei lá, me interessa produzir presença, para que eu seja a primeira e não a única. Desde a posse, eu crio espaços dentro da academia para um corpo de acadêmicos, de escritores e de pensadores que não estavam lá antes, porque não apareciam no radar das pessoas que já estão lá dentro. Outra ação: criei o Festival Machado de Assis, que teve sua primeira edição em 21 de junho de 2026, aniversário do escritor Machado de Assis (1839-1908). Por conta dessa movimentação, a prefeitura do Rio de Janeiro oficializou essa data como o dia de Machado de Assis. Ele foi o primeiro presidente da ABL, homem negro, escritor negro, que só há pouco tempo teve sua negritude explicitada. Ao levar escritores negros comigo, para dentro da academia, pessoas que me formaram e pessoas que me interessa escutar, está todo mundo lá dentro comigo. Com a presença de um corpo negro na ABL, os olhares mudam. Isso é fundamental.

Você já disse que se interessa muito pelo primeiro: o primeiro livro, a primeira peça, o primeiro filme. Você consegue continuar se proporcionando primeiras vezes até hoje? Tem algo que fez pela primeira vez nos últimos tempos?
Eu tento. Acho que viver é isso, é você continuar experimentando coisas novas. Há pouco tempo comecei a fazer aulas de Kemetic Yoga [uma prática ancestral de base africana inspirada nas posturas físicas, na respiração profunda e na filosofia do Kemet, o Antigo Egito]. Essa prática tem a ver com o Egito e com temas que estou pesquisando. O próprio Festival Machado de Assis foi uma novidade, porque eu nunca tinha produzido um festival. Eu também montei uma produtora, estou montando um instituto que pretende descobrir onde estão os arquivos da escravidão. Onde estão as fotos das pessoas escravizadas? Onde estão as pinturas? Existe muita coisa guardada em arquivos particulares pelo mundo inteiro. Eu tenho chamado esse projeto de álbum de família, porque as imagens dessas pessoas escravizadas da diáspora são o nosso álbum de família. Ali pode estar a foto do meu tataravô, da minha tataravó. No instituto, eu quero mapear esses arquivos, entender o que eles são e disponibilizar para todas as pessoas. Essas novidades são provocações para que eu não fique parada.

“Seria muito bom ver uma sociedade em que as pessoas que nunca tiveram escolha, por questões afetivas, geográficas, financeiras ou sociais, pudessem tomar as rédeas da vida e sentir o empoderamento e a transformação decorrentes disso.”

(foto: Michel Felix)

Como seria uma sociedade ideal para você?
A liberdade, para mim, é uma palavra que tem adquirido vários sentidos. Pensar em liberdade em um contexto de escravidão, pensar na liberdade de escolhas, de poder escolher o que você quer fazer, escolher as pessoas com as quais quer trabalhar, isso é algo precioso e interessante. Seria muito bom ver uma sociedade em que as pessoas que nunca tiveram escolha, por questões afetivas, geográficas, financeiras ou sociais, pudessem tomar as rédeas da vida e sentir o empoderamento e a transformação decorrentes disso, não só para a própria existência, mas para a das pessoas que estão em volta.

Nessa sociedade ideal, qual o papel das pessoas brancas?
Em primeiro lugar, as pessoas brancas são privilegiadas, queiram ou não esse privilégio, saibam disso ou não. Em uma sociedade em que o racismo impera, não tem como abrir mão, individualmente, do privilégio de não ser seguida em um supermercado, em um shopping. É um privilégio branco ocupar os melhores espaços, principalmente quando a ocupação desses espaços tem a ver com o networking que é feito entre brancos. Entender isso e usar o lugar desse privilégio para fazer com que outras pessoas acessem seus direitos é fundamental. As pessoas brancas podem usar o lugar de privilégio para fazer avançar as pautas de luta do feminismo e contra a homofobia, o racismo, a misoginia, a xenofobia. As pessoas brancas devem ocupar o lugar de privilégio para desmantelar o sistema.

Se o seu lar fosse um livro ou um autor, qual seria?
Que difícil. Alguns livros eu adoraria ter a possibilidade de ler muitas vezes pela primeira vez, esquecer para voltar a ler, sabe? Então talvez meu lar seja aí. Os escritos da Toni Morrison, não só de ficção, mas os ensaios dela… Eu queria ser a Toni Morrison quando eu crescesse. Viver dentro desse mundo que ela criou seria interessante.

Se você pudesse indicar um filme, um livro e uma música, quais seriam?
Acabei de assistir uma série nigeriana de animação pela qual fiquei apaixonada, ambientada em uma Lagos futurística. O nome é Iwájú [disponível no streaming Disney+]. Também acho que todo mundo deveria ler os livros da Leda Maria Martins e do sociólogo e jornalista Muniz Sodré. Todo mundo deveria ir a um show da Anelis Assumpção e visitar algum país da África. Eu estou apaixonada por Cabo Verde, com o coração doído ainda com o jogo da Copa do Mundo de futebol em que eles foram eliminados. Todo mundo deveria frequentar uma roda de samba uma vez na vida e conhecer Salvador, na Bahia. E deveria cantar Gilberto Gil e Liniker.

Se a Ana Maria Gonçalves de hoje pudesse escrever uma carta que só vai ser lida em seus últimos dias de vida, o que você gostaria de escrever para si mesma?
Se joga enquanto tiver tempo. É preciso entender que envelhecer não nos impede de fazer nada. Então acho que é isso: não deixar que o tempo limite as escolhas do que eu ainda quero fazer na vida.

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