Impulso de criar

29/10/2026

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Artistas populares traduzem em formas e cores um Brasil plural (foto: Everton Ballardin)

Leia a edição de novembro de 2026 na íntegra

POR DIEGO OLIVARES

De onde vem a força que move o entalhe fino em um bloco de madeira, a modelagem paciente da cerâmica vermelha ou as tintas vívidas que cobrem superfícies de chapa, papelão e tela? Na arte brasileira, ela brota da experiência vivida, do olhar atento ao cotidiano e da necessidade de dar forma à própria existência e à memória coletiva de uma região.

Compreender essa produção exige olhar para as referências que sustentam a imaginação de seus criadores. Longe das correntes formais de ensino, eles se nutrem dos saberes orais, das tradições comunitárias, dos mitos, do imaginário religioso e do cotidiano de suas regiões. “Você tem ali décadas de vivência e de aprendizado. Ou seja, essas pessoas estiveram decantando esses repertórios antes mesmo de se aventurarem na madeira, na cerâmica, no pincel, tintas e assim por diante. O tempo vai passando, a produção pode ser modificada esteticamente, mas essa linha narrativa do que eles querem comunicar se mantém a mesma”, analisa Renan Quevedo, pesquisador e curador da exposição Eu sou o Brasil: artistas populares, em cartaz no Sesc Marília, a partir do dia 14 deste mês [leia mais no box País de artistas].

Técnica e suporte, no universo popular, estão intimamente ligados à disponibilidade e à intimidade com os recursos do território, como a madeira que se transforma em esculturas, carrancas e matriz para a xilogravura; e a argila e a cerâmica que dão vida a figuras humanas, utensílios e cenas de feiras.

As temáticas que atravessam a arte popular refletem um Brasil multifacetado. O cotidiano das vilas, do sertão e das periferias, o trabalho rural, os pequenos ofícios urbanos, a lida na pesca e no comércio. Também pautam essa arte as celebrações coletivas, como o bumba meu boi, as congadas e as festas religiosas, revelando a vocação da cultura popular para o

rito e para a festa. Há também espaço para representações da fauna e da flora do país, ora traduzidas por um olhar documental, ora por uma imaginação fabulosa. Animais nativos, plantas e paisagens mesclam-se a criaturas mitológicas e figuras do imaginário fantástico.

“São artistas que começaram a produzir a partir de impulsos que têm em relação à vida, aos sonhos, às insatisfações, às manifestações culturais que acontecem nesses territórios e acabam nos presenteando com obras que partem de um repertório muito específico. Cada um deles fala a partir do seu ponto de vista sobre a vida”, destaca Quevedo.

As criações desses autores geram identificação imediata em pessoas espalhadas por todo o Brasil. Alguns desses autodidatas, como o pernambucano J. Borges (1935-2024), famoso por seu trabalho com xilogravuras para cordéis, cruzam fronteiras e chegam ao público internacional. Nessa pluralidade temática e geográfica, a arte popular afirma-se como pilar da identidade brasileira, com seu mosaico de vivências, crenças e sotaques.

Sem título (1991), de Maria Lira Marques (foto: Everton Ballardin).
Esculturas em madeira da coleção Ex-voto, autorias desconhecidas (foto: Everton Ballardin).
Ponto de encontro (1983), de Agostinho Batista de Freitas (1927-1997).
Palhaços (2000), de Véio.
Briga da onça com a serpente (sem data), de J. Borges (1935-2024).
Detalhe de Insetos (sem data), de Berbela.
Lagoa Rodrigo de Freitas (2000), de Waldomiro de Deus.
Passando a carpideira (1998), de Ranchinho (1923-2003).

À direita: detalhe de Fazenda de Cabriúna (1989), de José Antônio da Silva (1909-1996).

para ver no sesc / gráfica

País de artistas
Exposição que marca a inauguração do Sesc Marília celebra a diversidade presente na cultura popular brasileira

Obra Festa de Reis (2005), feita em madeira pelo escultor cearense Manuel Graciano (1926-2014), é uma das 48 atrações do acervo que integram o evento (foto: Everton Ballardin)

Um passeio pela pluralidade da cultura brasileira, a partir do olhar de 27 artistas autodidatas, é a proposta da exposição Eu sou o Brasil: artistas populares, que marca, neste mês, a inauguração do Sesc Marília. As 48 obras apresentadas fazem parte do Acervo Sesc de Arte, e originalmente estão expostas em diversas unidades de todo o estado, como Bertioga, no litoral, Ribeirão Preto e Franca, no interior, e Bom Retiro, na capital. São pinturas, esculturas, xilogravuras e objetos que, colocados lado a lado, formam um vasto panorama da identidade do país, composta por indivíduos de diferentes experiências, crenças e costumes, de norte a sul

O recorte foi pensado a partir de quatro eixos temáticos: fauna e flora, cotidiano, ofícios e festas. Dentro de cada um deles, podem ser apreciados diferentes recortes de cenários que representam o território nacional, abordando desde a relação com a natureza e os animais, até a industrialização dos centros urbanos e das cidades rurais, passando pela vocação para a celebração. Entre os artistas, estão nomes como a pintora paranaense Suene Oliveira Santos, que reproduz com seus traços o colorido das comemorações populares, o escultor alagoano Jasson, conhecido por suas carrancas, e o artista plástico pernambucano Berbela, que cria esculturas de insetos em tamanho real, a partir da reciclagem de descartes plásticos e metálicos da comunidade de Paraisópolis, em São Paulo.

Aberta ao público pela primeira vez em 2025 no Sesc Santo Amaro, a exposição chega a Marília com novidades no catálogo. A principal adição é o conjunto de “geringonças” de Mestre Molina (1917-1998), bancadas repletas de figuras artesanais que ganham movimento por meio de motores e engrenagens. Além disso, a expografia foi desenhada para ocupar a área de entrada da unidade, integrando as peças ao fluxo natural dos visitantes. “A gente percebe que é muito difícil passar ileso por essas obras”, conta o curador Renan Quevedo. “Esse poder de encantamento e envolvimento é certamente um dos grandes potenciais da cultura popular brasileira.”

Marília
Eu sou o Brasil: artistas populares
Terça a sexta, 13h30 às 21h. Sábados, domingos e feriados, 10h30 às 18h. De 14/11 até 30/5. Grátis.

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