São Paulo da negritude

30/10/2026

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Conheça cinco logradouros da capital paulista – entre ruas, avenida e praça – que fazem referência a personalidades e à história negra (foto: Nilton Fukuda)

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POR ADRIANA TERRA

No século 18, a rua Quinze de Novembro, no Centro de São Paulo, tinha outro nome. Caminho da antiga Igreja do Rosário dos Homens Pretos, ela se chamava rua do Rosário, mudando em 1846 para rua da Imperatriz, em homenagem à esposa de Dom Pedro II (1825–1891). Com a Proclamação da República, ganhou a alcunha atual, mas essa trajetória ilustra como um nome pode revelar presenças, esquecimentos e formas de poder. “Quando falamos sobre nome estamos reivindicando memória e também ideias de cidade”, pontua a turismóloga e pesquisadora Isabella Santos, fundadora da iniciativa Sampa Negra.

Professor do curso de Gestão de Políticas Públicas da Universidade de São Paulo, Martin Jayo explica que inicialmente as ruas da capital eram nomeadas por seus usos cotidianos e referências geográficas, como no caso do Rosário. “Esses nomes vão sendo trocados por homenagens políticas que projetam alguns elementos escolhidos, em geral homens brancos, heterossexuais, de elite”, diz. A história, entretanto, segue em disputa e hoje se reivindicam outras homenagens, como na rua do Samba, da Barra Funda, e na praça Dona Micaela Vieira, da Penha, apresentadas neste Almanaque.

Rua do samba
Alô, alô, gente bamba! Berço do primeiro cordão carnavalesco paulistano, origem do Camisa Verde e Branco, a Barra Funda teve a rua João de Barros renomeada em julho para rua do Samba, a partir de um projeto da legislatura municipal junto a sambistas e movimentos do bairro. O nome faz referência ao evento que ocorria ali na década de 1980, articulado pela família de Inocêncio Tobias, fundador da agremiação, numa época em que a via recebia artistas como Beth Carvalho (1946-2019) e Alcione. “Quando hoje o próprio Estado reconhece, é importante, porque foram muitas décadas para consolidar e configurar esse território”, diz o sambista e pesquisador Tadeu Kaçula. Ele lembra, no entanto, que, no mesmo dia da instalação da placa que rebatizou a rua, o Cruz da Esperança, clube negro de 1958, foi demolido, a 3 km dali. “Temos um enorme desafio de disputar os espaços, não só do ponto de vista simbólico.”

Berço da tradicional escola de samba Camisa Verde e Branco, a rua da Barra Funda ganhou novo nome em julho deste ano (foto: Nilton Fukuda).

Avenida Rebouças
Via importante da cidade, a Rebouças lembra desde 1916 a família dos irmãos André (1838-1898) e Antônio (1839-1874), engenheiros do século 19 responsáveis por obras como a estrada de ferro que liga Curitiba ao litoral paranaense e o plano de abastecimento de água do Rio de Janeiro de 1870, origem do Sistema Acari. Homens negros em um Brasil escravocrata, filhos de um advogado e político, nasceram na cidade baiana de Cachoeira e mudaram-se para o Rio ainda jovens. Não utilizavam mão de obra escravizada em seus projetos e tiveram importante papel na luta abolicionista, em especial André. Conectando a avenida Rebouças com a Doutor Arnaldo, um túnel celebra outra personalidade negra, lembra o professor Martin Jayo: Noite Ilustrada, pseudônimo do cantor e violonista mineiro Mário de Souza Marques Filho (1928-2003), famoso pela interpretação de “Volta por cima”, de Paulo Vanzolini.

Uma das principais vias de ligação entre diferentes regiões de São Paulo, a Avenida Rebouças foi batizada em homenagem a dois irmãos abolicionistas (foto: Nilton Fukuda).

Rua Luís Gama
No Cambuci, entre a rua da Mooca e a rua do Lavapés, a rua Luís Gama foi aberta em 1882 e assim nomeada a partir de um abaixo-assinado recebido por vereadores em 1884. Homem negro nascido livre em 1830, em Salvador, o advogado abolicionista era filho de Luiza Mahin, outra personagem central na luta pelo fim da escravidão no Brasil. Autodidata, ele aprendeu a advogar e, legalmente, libertou mais de 500 pessoas escravizadas. Em 1931, Gama foi a primeira pessoa negra a ganhar estátua na capital paulista: um busto no Largo do Arouche, onde desde 1991 ocorre a Caminhada Luís Gama, contando a sua trajetória. Ações como essa são importantes como forma de difusão da história, gerando também pertencimento. “O que significa para as pessoas passarem todos os dias em uma rua chamada Luís Gama? É preciso falar sobre o nome”, diz a turismóloga e pesquisadora Isabella Santos.

Ao passarem pela rua Luís Gama, cidadãos do Cambuci e bairros próximos são instigados a saber mais sobre a história do advogado abolicionista (foto: Nilton Fukuda).

Praça Dona Micaela Vieira
Nascida em 1840, Micaela Vieira foi uma parteira notória da Penha. “Ela era muito conhecida, tem relatos nos jornais que falam também dela ter sido doceira”, conta a historiadora Patrícia Freire, integrante do Ururay, coletivo que atua com cultura e patrimônio na região. Em 2018 o grupo criou um bloco para “chamar a atenção dessa memória”, o Cordão Carnavalesco Dona Micaela Vieira. Em seu terceiro cortejo, receberam um público especial: os descendentes da parteira. “Fala-se muito do penhense italiano, branco, e aí a gente tem uma família negra também centenária e presente no bairro”, destaca Patrícia. “Pensando na organização da cidade em que ruas com nomes indígenas, por exemplo, vão sendo cada vez mais tomadas por famílias endinheiradas, a Micaela vira uma ilha em torno de tantos nomes de bandeirantes e famílias com influência”, diz a pedagoga Vanessa Nery, do Ururay.

O Cordão Carnavalesco Dona Micaela Vieira mantém viva a memória de habitantes negros do bairro da Penha, na zona Leste (foto: Douglas de Campos).

Rua Treze de Maio
Uma das principais vias do Bixiga, na Bela Vista, a Treze de Maio antes se chamava Celeste, tendo seu nome alterado em 1916, a partir das celebrações da população negra que migraram de uma capela no Largo São Manuel (atual praça 14 Bis), demolida, para a rua que hoje lembra a data da abolição da escravatura. Outra via do bairro nascido do Quilombo do Saracura guarda essa memória: a Abolição. Desde o início dos anos 2000, o bloco afro feminino Ilú Obá de Min realiza, no dia 13 de maio, um cortejo partindo da escadaria da praça Dom Orione, demarcando o Bixiga como território negro e denunciando o processo brasileiro inconcluso de abolição. Assim como o cordão na Penha e a caminhada Luiz Gama, é uma forma de educação histórica e patrimonial crítica a partir de um nome de rua, feita não pelo poder público, mas pela própria população organizada.

O bloco afro feminino Ilú Obá de Min realiza anualmente um cortejo no dia 13 de maio, convidando à reflexão sobre o real significado da data (foto: Eliária Andrade).

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