
Como transformar uma pesquisa histórica em imagens, cores, formas e narrativas capazes de atravessar a avenida? A trajetória de Rosa Magalhães (1947–2024) oferece algumas respostas. Artista visual, professora, pesquisadora, cenógrafa, figurinista e uma das mais importantes carnavalescas do Brasil, Rosa construiu uma obra marcada pela imaginação, pelo rigor da pesquisa e pelo diálogo entre diferentes linguagens artísticas.
Essa produção é o ponto de partida de Rosa Magalhães: Esplendor Caleidoscópio, exposição inédita no Sesc Pompeia, que convida o público a conhecer os caminhos percorridos pela artista na criação de seus universos visuais. Com curadoria de Leonardo Bora, pesquisa de Glaucea Helena de Britto e assistência de curadoria de Rodolfo Colombo, a mostra apresenta desenhos, croquis, aquarelas, figurinos, maquetes, objetos, registros de desfiles e obras de artistas contemporâneos.
Um dos destaques é o conjunto de aproximadamente 100 trabalhos originais da coleção de Rosa, preservada pela Rede de Bibliotecas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Os desenhos permitem acompanhar etapas do processo criativo e perceber como referências históricas, literárias e culturais se transformavam em fantasias, personagens e alegorias.
A exposição também aproxima o visitante dos bastidores da criação carnavalesca. Figurinos e elementos concebidos a partir dos desenhos de Rosa, em colaboração com artistas de diferentes gerações, apresentam soluções visuais destinadas a alas das baianas, bateria, comissão de frente, porta-bandeira e mestre-sala.

Entre as experiências propostas, parte dos adereços e figurinos poderá ser experimentada pelo público, em uma composição inspirada nas comissões de frente. Uma alegoria com mais de quatro metros de altura, criada especialmente para a exposição por Nicolas Gonçalves, também chama a atenção para a dimensão monumental desse trabalho.

Tecidos, plumas, purpurinas, adereços e outros materiais ajudam a recriar a atmosfera de um barracão de escola de samba, ambiente no qual diferentes profissionais e saberes se encontram para dar forma ao desfile. A proposta aproxima o público de um processo coletivo que costuma ficar fora do olhar de quem acompanha o espetáculo na avenida.
A ideia de travessia também orienta o percurso expositivo. Viagens, deslocamentos, encontros entre culturas e passagens por diferentes períodos históricos aparecem na obra de Rosa como elementos de construção de narrativas. A partir de desenhos da artista, quatro embarcações foram desenvolvidas por Sophia Chueke, Estter Domingos, Jovanna Souza e Raquel Martins, em diálogo com esse universo de referências.
A mostra estabelece ainda conexões com a produção artística contemporânea, por meio de trabalhos de João Cândido, Manoela Navas, Béa Machado e Rafa Bequia. No espaço educativo, uma instalação com bandeiras das escolas de samba pelas quais Rosa passou, no Rio de Janeiro e em São Paulo, amplia o olhar sobre sua trajetória e sua relação com a memória do Carnaval.
Em um campo historicamente marcado pela presença masculina nos postos de criação, Rosa Magalhães construiu uma trajetória que contribuiu para ampliar o reconhecimento da autoria feminina nas escolas de samba. Ao lado de nomes como Maria Augusta e Lícia Lacerda, integrou uma geração de mulheres que conquistou espaço e reconhecimento na criação dos desfiles.
Sua passagem por escolas como Império Serrano, Imperatriz Leopoldinense e Unidos de Vila Isabel resultou em enredos que marcaram a história do Carnaval carioca. Rosa tornou-se uma das maiores campeãs da era do Sambódromo, com oito títulos conquistados ao longo de sua carreira.
Formada pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde também lecionou, a artista desenvolveu trabalhos em diferentes campos da criação. Sua experiência como cenógrafa e figurinista passou pelo teatro, pela ópera e pelo audiovisual. Também participou de grandes produções, como as cerimônias de abertura dos Jogos Pan-Americanos de 2007 e de encerramento dos Jogos Olímpicos de 2016.
Ao apresentar esse percurso, Rosa Magalhães: Esplendor Caleidoscópio amplia a compreensão do Carnaval como linguagem artística. Um território de criação que articula artes visuais, literatura, música, dança, cenografia, figurino e performance, além de mobilizar conhecimentos, técnicas e experiências compartilhadas entre diferentes gerações.
Mais do que apresentar a trajetória de uma grande carnavalesca, a exposição permite conhecer o pensamento de uma artista que transformou pesquisa em imaginação e histórias em imagens. Um convite para olhar de perto o trabalho que antecede o desfile e descobrir quantas narrativas podem existir por trás de uma fantasia, de um adereço ou de uma alegoria.
Filha do escritor e acadêmico Raimundo Magalhães Júnior, integrante do júri do primeiro desfile das escolas de samba, em 1932, e membro da Academia Brasileira de Letras, e da autora teatral Lúcia Benedetti, Rosa Lúcia Benedetti Magalhães construiu uma trajetória marcante nas artes e no Carnaval brasileiro. Professora, artista plástica, figurinista e cenógrafa, a “mestra” Rosa Magalhães, maior vencedora da era do Sambódromo da Marquês de Sapucaí, transformou referências da história, da mitologia, da literatura e das múltiplas identidades brasileiras em desfiles de grande potência visual e rigor estético. Formada em Pintura pela Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro e em Cenografia pela Escola de Teatro da Uni-Rio, também desenvolveu uma sólida carreira acadêmica, como professora de Cenografia e Indumentária na Escola de Belas Artes da UFRJ e na Faculdade de Arquitetura Bennett. Ao longo de mais de 50 carnavais, conquistou sete títulos do Grupo Especial e deixou uma contribuição fundamental para a cultura brasileira. Rosa morreu em julho de 2024, aos 77 anos, e seu legado ganha novos olhares nesta exposição.
Doutor e mestre em Teoria Literária pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Leonardo Augusto Bora é professor e pesquisador, com estudos dedicados às narrativas de enredo de Rosa Magalhães. Atua como carnavalesco da Unidos de Vila Isabel, ao lado de Gabriel Haddad, com quem conquistou o título do Grupo Especial do Carnaval carioca em 2022, pela Acadêmicos do Grande Rio. Também desenvolve pesquisas e projetos que aproximam Carnaval, literatura e artes visuais.
Mestra em Artes e licenciada em Artes Plásticas pela Universidade de São Paulo (USP), Glaucea Helena de Britto é pesquisadora e curadora. Possui formação complementar em Estudos Afro-Latino-Americanos pela Universidade Harvard e em Direitos Humanos pela Organização das Nações Unidas (ONU). Foi pesquisadora do Museu Afro Brasil e atuou em projetos educativos e curatoriais em instituições culturais, entre elas o Museu de Arte de São Paulo (MASP) e o Sesc Vila Mariana, onde realizou a co-curadoria da exposição Lélia em nós: festas populares e amefricanidade.
Rodolfo Colombo integra a equipe de curadoria da exposição Rosa Magalhães: Esplendor Caleidoscópio como assistente de curadoria.
Rosa Magalhães: Esplendor Caleidoscópico
Abertura: 11 de novembro de 2026, às 19h
Período: de 12 de novembro de 2026 a 07 de março de 2027
De terça a sábado: das 10h às 21h
Domingos e feriados: das 10h às 18h
Sesc Pompeia – R. Clélia, 93 – Água Branca
Entrada gratuita
Agendamento de escolares: agendamento.pompeia@sescsp.org.br
A exposição possui recursos de acessibilidade.
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