A ciência por trás do meme

30/03/2019

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Dandara Magalhães e Michelle Modesto, do #MUSEUdeMEMES no Sesc Belenzinho | Foto: Junior Pacheco

Close nos olhos dela. A expressão é de confusão. Talvez, o instante que inaugura um certo entendimento. Se você troca mensagens pelo WhatsApp, Facebook, YouTube, Twitter ou Instagram, possivelmente já se deparou com as mechas loiras e o olhar misterioso de Nazaré Tedesco, a icônica vilã da novela Senhora do Destino (2004-2005), interpretada por Renata Sorrah. Tornada meme, especialmente em GIFs, a imagem com frequência é recuperada nas calçadas da internet, dentro e fora do país, servindo a diferentes propósitos.

No #MUSEUdeMEMES, da Universidade Federal Fluminense (UFF) é possível conhecer um pouco da trajetória da Nazaré Confusa e a gramática desse meme – ou sobre a Grávida de Taubaté, por exemplo. Mas, afinal, existe um campo de estudo (pra valer) em cima dos memes?

Minutos antes da oficina que aconteceu no último dia 19 de março, no Sesc Belenzinho – dentro da programação do FestA! – Festival de Aprender –, a EOnline conversou com as pesquisadoras Dandara Magalhães, 26 anos, e Michelle Modesto, 34 anos, para conhecer detalhes do trabalho desenvolvido por quem enxerga nos memes um importante fenômeno cultural do nosso tempo.

Dandara é mestranda no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFF, sob orientação do professor Viktor Chagas, e membro ativo do #MUSEUdeMEMES (coordenado por Chagas) desde 2014. Michelle é mestre em Comunicação pela UFRJ, professora universitária e voluntária no museu.

O que é um meme?

Michelle: “O conceito de meme começou lá com Richard Dawkins, um biólogo. E ele, a partir da ideia de evolucionismo, da biologia, pensou ‘ah, cultura funciona de uma maneira parecida: as ideias estão ali e, de repente, as melhores sobrevivem e as outras morrem’. E, a partir daí, ele combinou a ideia de gene com a ideia de mimese, que é cópia, imitação, e fundiu tudo, botou no liquidificador, bateu e saiu meme. O nome saiu daí. Mas isso ficou lá na ideia dele [na década de 1970]. No final da década de 90, início dos anos 2000, o pessoal começou a recuperar esse termo aplicando aos memes de internet. No entendimento original do Dawkins, meme não é só o que está na internet – até porque não tinha internet [como conhecemos na época] –, mas era a unidade mínima cultural que ia se renovando, se transformando, se copiando na cultura. Então, ele entendia Deus [por exemplo] como uma ideia que era um meme.”

Porque viralizou.

Michelle: “Na verdade, ele foi se reinventando. As pessoas foram se apropriando, entendendo de outras maneiras. Por isso o meme. A gente até entende que meme e viral são coisas diferentes. Quando a ideia não se transforma ao longo do processo, ela é entendida como um viral e não como um meme. O meme tem esse processo de reapropriação, replicação, transformação.”

Dandara: “Falando de Dawkins, é basicamente isso. Ele cria o meme como uma analogia ao gene. Da mesma forma que a gente herda, por exemplo, cor de cabelo, cor dos nosso olhos a partir de uma transmissão genética, o meme é uma transmissão cultural que a gente herda através da sociedade. Quando chega na internet, esse conceito muda um pouco. Apesar de ter ainda sua base biológica, ele muda um pouco porque a gente passa a entender os memes como grupos de conteúdos que fazem sentido quando são enxergados como grupos. Então, não existe um meme isolado. Existem vários memes que constroem o sentido daquilo.”

Michelle: “Eles funcionam como famílias. Por exemplo, o Chapolin Sincero. Não é uma imagem sozinha do Chapolin. É aquele grupo de imagens que foram usadas com um textinho em cima e toda aquela linguagem. Aí, sim, se tornou um meme.”

Dandara: “E a internet tem esse poder de você ressignificar, criar remixes. Então – e isso é muito próprio do meio –, o meme sobrevive a partir da capacidade dele de se adaptar.”

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Eventos no Facebook, bordões que circulam na internet, vídeos que são remixados ou que se tornam paródias, hashtags, comportamentos como a troca da foto do perfil ou a adição de um filtro apoiando alguma causa, a inclusão de um sobrenome particular (como na campanha em apoio aos Guarani-Kaiowá), um modelo frasal onde só algumas coisas são alteradas (keep calm and…) e auto-tunes (musicalização de falas) são alguns exemplos de memes comuns no ambiente digital.

Mas existem memes fora da internet?

Dandara: “A gente tem os memes pré-internet. Por exemplo, a candidatura do macaco Tião como prefeito do Rio de Janeiro, lançado pela galera do Casseta & Planeta no final dos anos 1980.  E as correntes. Tinha a corrente do bolo estragado, que era um bolo que chegava pra você, ele tinha uma cara de mofado, e aí vinha com uma receita. Você tinha que fazer o bolo e passar para uma amiga a receita. Essas coisas estão na nossa sociedade. A gente só adaptou isso e colocou no e-mail, depois colocou no Orkut, depois colocou no WhatsApp. As pessoas continuam compartilhando corrente. […] Eu acho que a gente tem muito o caminho inverso também: memes que nascem na internet e que passam a fazer parte da nossa vida sem a gente perceber. Você, provavelmente, fala ‘tenso’ ou ‘só que não’, entende?”

Os memes são instrumentos políticos, ferramentas de diversão ou um pouco de cada?

Michelle: “Os memes são um fenômeno cultural. Então, eles podem ter essa faceta política. É sempre bom lembrar que ela existe. Porque a gente acaba rindo tanto dos memes, que a gente esquece que tem o lado político em tudo. Todo discurso carrega um aspecto político. Em muitos casos o meme também pode servir como oportunidade de educação, de letramento ou proselitismo, uma oportunidade de passar alguma informação. A gente entende esses, especificamente, como persuasivos. E têm os que a gente entende como impulsionadores de movimentos sociais, que são os de ação popular.”

Dandara: “Muitas vezes, nascem, por exemplo, de hashtags. Por exemplo, #vemprarua, #elenão, #foratemer, #meuprimeiroassédio. Todas essas hashtags são memes. São memes que, muitas vezes, estão tratando de assuntos sérios. Às vezes, o meme consegue fazer os dois: ser sério e engraçado. Mas não tem como a gente desassociar política de produção coletiva, produção colaborativa, e da discussão pública.”

Para um fenômeno cultural ser reconhecido como meme ele precisa ser entendido pela sociedade como tal?

Michelle: “Não tem um limiar a partir do qual ele é considerado um meme. Na verdade, o que faz a gente entender algo como meme é o fato de estar se multiplicando, se replicando, se transformando, sendo reapropriado e seguindo um fluxo quase natural, quase orgânico.”

Dandara: “Mais do que a grande disseminação, que acontece com muitos memes, a gente pode falar do sentido que aquilo carrega. Se aquilo faz sentido em determinado grupo, mesmo que esse grupo seja pequeno, aquilo vai ser um meme. Você pode compartilhar um meme no seu grupo de família, que só vai fazer sentido para a sua família. [Por exemplo,] pegar a foto da sua avó dormindo e fazer um meme. Dentro do seu grupo, mesmo que pequeno, vai ser um meme porque ele produz sentido.”

Existe a possibilidade de os memes estarem prejudicando o debate público, simplificando-o demasiadamente? Nesse sentido, seria o meme um vilão?

Michelle: “O meme não é o vilão. O problema são as pessoas se deixarem levar por informações tão simplificadas. Eu acho que o meme seria ótimo para instigar a pessoa a buscar mais referências, mais informações. Agora, quando a pessoa pega, lê uma imagem dizendo “fulano fez isso” e compra aquilo, não é o meme que é o vilão. E acaba virando um instrumento perigoso porque [você vê o meme] quando está distraído, quando você está mexendo no celular. Você não para e pensa: “agora eu vou ler meus memes e avaliar criticamente cada um deles”. Você não faz isso. Você está lá no carro, no ônibus… Então, você recebe aquilo quase que subliminarmente. […] E, pela repetição, como as pessoas compartilham muito, aquilo vai martelando na sua cabeça e, de alguma maneira, assume um valor de verdade que vem pela repetição e pela desatenção. O meme não é o vilão, mas é importante as pessoas entenderem que não existe atalho pro conhecimento. Você não pode esperar que um fragmento de informação vá te passar o mesmo nível de profundidade de um texto inteiro, de um livro.”

Saiba também sobre o fenômeno das fake news nessa matéria aqui. E conheça mais sobre o #MUSEUdeMEMES e as pesquisas em desenvolvimento sobre o assunto aqui.

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