Não somos donos da teia da vida

25/11/2020

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Natureza Morta – Crédito: Denilson Baniwa

Por Daniel Munduruku*

Meu avô costumava dizer que tudo está interligado entre si e que nada escapa da trama da vida. Ele costumava me levar para uma abertura da floresta e deitava-se sob o céu e apontava para os pássaros em pleno voo e nos dizia que eles escreviam uma mensagem para nós. “Nenhum pássaro voa em vão. Eles trazem sempre uma mensagem do lugar onde todos nos encontraremos”, dizia ele num tom de simplicidade, simplicidade dos sábios.

Outras vezes nos colocava em contato com as estrelas e nos contava a origem delas, suas histórias. Fazia isso apontando para elas como um maestro que comanda uma orquestra. Meus irmãos, primos e eu ficávamos sempre enfeitiçados pela doçura das palavras que saiam de sua boca. Era um encantamento que nos enchia de alegria e de uma satisfação impossível de não ser notada.

Confesso que não entendia direito o que ele queria nos dizer, mas o acompanhava para todos os lugares só para ouvir a poesia presente em sua maneira simples de nos falar da vida.

Numa certa ocasião ele disse que cada coisa criada está em sintonia com o criador e que cada ser da natureza, inclusive o ser humano, precisa compreender que seu lugar na natureza não é ser o senhor, mas um parceiro, alguém que tem a missão de manter o mundo equilibrado, em perfeita harmonia para que o mundo nunca despenque de seu lugar. “Enquanto houver um único pajé sacudindo seu maracá, haverá sempre a certeza que o mundo estará salvo da destruição”. Assim nos falava nosso velho avô como se fôssemos – eu e meus irmãos, primos e amigos – capazes de entender a força de suas palavras e de sua visão esperançosa sobre a humanidade. Ele tinha uma convicção muito grande no poder transformador do ser humano. Isso ele deixava transparecer nos momentos de nos lembrar que somos partes da grande teia da vida.

Só bem mais tarde, homem adulto, conhecedor de muitas outras culturas, pude começar a compreender a enormidade daquele conhecimento saído da boca de um velho que nunca tinha sequer visitado a cidade ao longo de seus mais de 80 anos. Percebi, então, que meu avô era um homem com uma visão muito ampla da realidade e que nós éramos privilegiados por termos convivido com ele.

Essas lembranças sempre me vêm à mente quando penso na diversidade, na diferença étnica, social, na vida dos seres não-humanos que compartilham o mesmo espaço conosco. Penso nisso e me deparo com a compreensão de mundo dos povos tradicionais. É uma concepção onde tudo está em harmonia com tudo; tudo está em tudo e cada um é responsável por esta harmonia. É uma concepção que não exclui nada e não dá toda importância a um único elemento, pois todos são passageiros de uma mesma realidade, são, portanto, iguais. No entanto, não se pode pensar que esta igualdade signifique uniformidade. Todos esses elementos são diferentes entre si, tem uma personalidade própria, uma identidade própria.

Por meio de minhas leituras e viagens fui compreendendo, aos poucos, aquilo que o meu avô dizia sobre a sabedoria que existe em cada um e todos os seres do planeta. Descobri que não precisa ser xamã ou pajé para chacoalhar o maracá, basta colocar-se na atitude harmônica com o todo, como se estivéssemos seguindo o fluxo do rio, que não tem pressa… mas sabe aonde quer chegar. Foi assim que descobri os sábios orientais; os monges cristãos; as freiras de Madre Teresa; os mulçumanos; os evangélicos; os pajés da Sibéria, dos Estados Unidos; os Ainu do Japão, os Pigmeus; os educadores e mestres…descobri que todas essas pessoas, em qualquer parte do mundo, praticando suas ações, buscando o equilíbrio do universo, estão batendo seu maracá. Entendi, então, a lógica da teia. Entendi que cada um dos elementos vivos segura uma ponta do fio da vida e o que fere e machuca a Terra, machuca também a todos nós, os filhos da Terra.

Foi aí que entendi que a diversidade dos povos, das etnias, das raças, dos pensamentos é imprescindível para colorir a Teia, do mesmo modo que é preciso o sol e a água para dar forma ao arco-íris.

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Sei que trazer esse tipo de saber para os homens e mulheres modernos pode parecer antiquado e fora de moda. Sei que defender a circularidade do pensamento ancestral contra um mundo que pensa dentro de um quadrado e é alimentado pelo sistema econômico que precisa devorar tudo o que encontra à sua frente para se alimentar, tem alguma temeridade.

Os saberes ancestrais têm, no entanto, uma existência própria que vai além do tempo e dos sistemas políticos e econômicos. Por isso, se caracterizam por serem Saberes. Ou seja, são um modo próprio de compreender a existência; um modo próprio de lembrar às pessoas que as outras existências importam; um modo próprio de lembrar que existir é mais que consumir coisas, possuir riquezas, acumular bens; um modo de nos lembrar que a vida é passageira e que as riquezas estéticas que nos foram dadas de presentes formam um mosaico para colorir a paisagem existencial em que nos movemos. Detonar, destruir, delapidar, explorar, extirpar cada centímetro dessa beleza fere a nossa condição de humanos conscientes uma vez que nosso papel é subjetivar essa experiência de humanidade.

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Não creio que o mundo esteja no fim. Sequer penso em avaliar esta possibilidade. Sei que o mundo é movimento e é assim que ele se molda para continuar nos ensinando a sermos partes do que ele de fato é.

A natureza é cíclica para nos lembrar que também o somos. Desobedientes, fazemo-nos ouvidos moucos para nos colocarmos como rebeldes revolucionários. Por conta disso, criamos cidades, construímos pontes, barramos rios, cortamos árvores, caçamos beija-flor, ocupamos território, produzimos guerras, matamos pessoas; acumulamos riquezas para além do que podemos consumir; abandonamos crianças e maltratamos velhos; inventamos tecnologias e nos inventamos com agrotóxicos. Isso tudo fazemos por nos pensarmos rebeldes ou, o que é pior, deuses.

Observando atentamente, a Natureza acolhe, produz pureza, lança um ar respirável, mantém as riquezas biológicas, reproduz sistemas orgânicos, muda a cada estação para lembrar-nos sua circularidade. Impassível, porém nunca pacífica, a Grande-Mãe acredita na nossa capacidade regeneradora porque sabe que fomos criados com a mesma essência celular. Ela sabe que podemos mudar, porque é o que ela observa acontecendo quando percebe homens e mulheres se unindo em torno dos valores ancestrais; mulheres e homens que defendem a vida, todas as vidas; quando percebe que ainda há solidariedade entre humanos e, especialmente, quando vê que há homens e mulheres que nunca esqueceram de onde vieram e continuam uma luta silenciosa e solidária para manter a Teia-Vida equilibrada e o céu suspenso.

*Daniel Munduruku é escritor e professor paraense, pertencente ao povo indígena Munduruku. Autor de 54 livros publicados por diversas editoras no Brasil e no exterior, a maioria classificados como literatura infanto-juvenil e paradidáticos. É Graduado em Filosofia, História e Psicologia. Tem Mestrado em Antropologia Social pela USP – Universidade de São Paulo, Doutorado em Educação também pela USP e Pós-Doutorado em Literatura pela Universidade Federal de São Carlos – UFSCar.

Mais sobre os povos indígenas
Assista também ao Boteco da Diversidade: Guardiões da Floresta, do Sesc Pompeia, que teve participações dos artistas, ativistas e pesquisadores André Villas-Bôas, Cacique Raoni, Célia Xakriabá, Carlos Papá, Denilson Baniwa, Patrícia Yxapy, Roberta Carvalho e Uýra, sob os cantos sagrados dos Fulni-ô. A apresentação do vídeo fica por conta de Melina Barbosa:

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