Que Lugar é Esse? – 2ª Edição

22/08/2026

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“Que Lugar É Esse?” resgata a história de Ribeirão Preto com nova série de postais no ano em que a cidade completa 170 anos 

Da primeira Igreja ainda em pé à estação de trem que conduziu Ribeirão Preto à expansão econômica e demográfica, passando por treze patrimônios culturais e ecológicos, postais contam histórias “escritas” por ribeirão-pretanos de várias épocas

O que define um prédio histórico? O tempo das paredes ou a memória que ele carrega? Um patrimônio é porta aberta para múltiplas épocas, registro escrito a várias mãos. Mãos ilustres, perpetuadas nos livros, e muitas outras desconhecidas do público em geral e, portanto, de si. Afro-brasileiros, indígenas, imigrantes e descendentes desconhecem sua participação na história de cada prédio tombado, que ainda resta em pé e jamais foi visitado pela maioria. Em 2026, no alto dos Ribeirão Preto completa 170 anos, o Sesc lança a segunda série do projeto Que Lugar É Esse?, que estimula a visitação e o acesso a espaços públicos que guardam a nossa memória. 

Turismólogo e responsável pela programação do departamento de Turismo Social do Sesc de Ribeirão Preto, Vitor Hugo Vieira explica que o projeto Que Lugar É Esse? tem por objetivo criar um vínculo de pertencimento, revelando uma cidade inédita para grande parte da população, ao estimular o conhecimento e a visitação aos prédios tombados por meio da distribuição de cartões-postais. “Ao inteirar-se da história e descobrir-se participante dela, a pessoa se apodera com clareza da expressão patrimônio público, compreendendo que aquele prédio também é seu”, explicou. 

Nesta segunda etapa do projeto, 13 patrimônios históricos – todos pontos turísticos — serão evidenciados. Os postais devem ficar prontos até agosto, quando começam a ser distribuídos aos participantes das atividades do departamento de Turismo Social do Sesc. Diferentemente da primeira etapa, a maioria deles fica fora da região central e alguns necessitam de restauração. 

“Nem por isso deixam de merecer destaque, ao contrário. É preciso que as pessoas valorizem a história desses locais, independentemente de estarem em perfeito estado, até para estimularem sua restauração”, comenta Vitor. 

É o caso do Museu Histórico “Plínio Travassos dos Santos” e do Museu do Café  “Cel. Francisco Schmidt”. Juntos, eles reúnem cerca de 6.000 objetos: moedas romanas de 2.000 anos; móveis da Companhia Mogiana feitos para receber D. Pedro II; a banheira em mármore de Henrique Dumont; máquinas de beneficiar café; carros de boi e fotografias dos tempos da glória cafeeira. Um acervo que reconstitui o cotidiano de afro-brasileiros escravizados, imigrantes e barões. 

Depois de passar pelo governo estadual e pela USP, os museus voltaram às mãos da prefeitura e seguem fechados desde 2016, vítimas do abandono de três esferas públicas. A prefeitura de Ribeirão Preto informou que a Reserva Técnica está pronta e que a próxima etapa será a catalogação e o transporte do acervo para esta reserva, para garantir sua conservação enquanto os prédios são restaurados. As restaurações, no entanto, seguem sem data definida para acontecer.

Estação Barracão: protagonismo

Sob os cuidados do DNIT, a Estação Barracão também necessita de restauro. 

Diretamente ligada à expansão econômica e demográfica da cidade, ela integrava a antiga Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, que escoava a produção do café para o porto de Santos, o que permitiu a ampliação da cafeicultura local e dotou Ribeirão Preto de sua vocação para sede da Região Metropolitana. Na estação, desembarcavam a maioria dos imigrantes e brasileiros de outras partes, que traziam mão de obra e novos ofícios.

Oito décadas depois, em 1982, dada a sua importância, a Estação Barracão foi o primeiro prédio tombado em Ribeirão Preto pelo patrimônio histórico e cultural do Estado de São Paulo (CONDEPHAAT). No mesmo ano, o órgão também tombou o Theatro Pedro II, que – assim como os demais prédios do Quarteirão Paulista – foi construído graças à riqueza do café, conquistada com ajuda da estrada de ferro e da Estação Barracão. Mas, ao contrário do Theatro, a estação até hoje não foi restaurada.  

“Ribeirão Preto só se tornou o que é por conta da ferrovia e deveria valorizar este fato”, afirmou o arquiteto, urbanista e restaurador Denis William Esteves. Ele é presidente do Instituto História do Trem, que desenvolveu um projeto para transformar o local em Museu Ferroviário. “Assim que a Estação Barracão for restaurada (e temos confiança de que será), transportaremos para lá os mais de 600 itens do acervo que já conseguimos reunir, todos eles ligados à história da Companhia Mogiana de Ribeirão Preto”, afirmou Denis. 

Ele conta que o projeto inclui uma ação chamada de “Trem Turístico”, que envolve a recuperação de trilhos e de uma locomotiva a vapor projetada em 1893 para um passeio turístico entre a Estação Barracão, no Ipiranga, até a Estação Mogiana, no Jardim Independência. 

Núcleo Antonio Prado: a primeira expansão da cidade

Arquiteta e urbanista, Mestre em Engenharia Urbana e Doutora em Ciências Sociais, Adriana Capretz Borges da Silva Manhas conta que a Estação Barracão foi inaugurada em 1900 no Núcleo Colonial Antonio Prado, criado anos antes, em 1886. Idealizado pelo governo imperial, o objetivo do núcleo era atrair e fixar imigrantes, facilitando seu acesso à terra e ao trabalho livre e assalariado – tanto para as lavouras de café como para as ocupações urbanas: construção civil, indústria, comércio e manufaturas. 

O núcleo era formado por 200 lotes, que funcionavam como pequenas chácaras. A proposta era que servisse, além de moradia dos imigrantes, também para abastecer a cidade com gêneros de subsistência, já que a maior parte das terras da região era destinada ao café. A área total do núcleo colonial era inúmeras vezes maior que o atual Quadrilátero Central, que praticamente resumia a parte urbana da cidade. Foi ele quem deu origem aos bairros do Ipiranga, Quintinos Facci I e II, Campos Elíseos, Sumarezinho, Jardim Paulistano e ao Jardim Novo Mundo.

Os lotes variavam de tamanho e preço conforme a proximidade com o Quadrilátero Central. Os que estavam mais próximos da sede do núcleo (hoje, Ipiranga), mediam o equivalente a um quarteirão atual, mas eram os mais caros, enquanto os lotes mais distantes eram do tamanho do atual Cemitério da Saudade (que era um dos lotes).

“A estação ganhou este nome porque atrás dela existia um barracão que se estendia até a atual praça Pedro Biagi, onde hoje está a EMEF Professor Alfeu Gasparini (outrora Praça Antonio Prado). Esse barracão era uma espécie de hospedaria para os imigrantes, onde os recém-chegados ficavam alojados num primeiro momento, esperando os carroções para serem levados para as fazendas da região (para trabalharem como colonos) ou aguardando a definição dos seus lotes no núcleo Antonio Prado”, contou Adriana, que é autora do livro “Campos Elíseos e Ipiranga: Memórias do Antigo Barracão”, obra lançada no aniversário de 150 anos de Ribeirão Preto.

“As pessoas da elite desembarcavam na estação central, onde hoje é a rodoviária”, conta Adriana. “Enquanto a Estação Barracão era o ponto de parada dos imigrantes e demais trabalhadores”, explicou a pesquisadora, que é professora de patrimônio cultural, história, memória e identidade na UFAL (Universidade Federal de Alagoas).

Adriana ainda ressalta a importância da concentração de imigrantes italianos naquela região para que as primeiras indústrias da cidade fossem instaladas ali, como a Matarazzo e as primeiras cervejarias. “Muitos dos italianos já tinham experiência com o trabalho fabril, especialmente a fabricação de cerveja. Havia inclusive muitas pequenas fábricas – de macarrão, carroças, móveis e cervejas – abertas por estes imigrantes em seus lotes”, explica. 

Memórias de épocas e locais diversos

Um desenho em aquarela feito à mão pelo designer e ilustrador Denis Tchepelentyky revela parte de um patrimônio em um dos lados do postal. Do outro, um QR Code estimula a pessoa a descobrir Que Lugar É Esse?, levando-a a um texto da jornalista e escritora Flávia Lima, disponível permanentemente no portal do Sesc. Frutos de pesquisa em livros de história, os textos receberam consulta de historiadores, urbanistas e restauradores. Autoridades públicas também foram ouvidas sobre a situação dos prédios.

Além da Estação Barracão, são retratados em postais, nesta segunda edição, o Museu do Café, Museu Histórico, Santuário das Sete Capelas, Teatro de Arena, Bosque Municipal Fábio Barreto, Jardim Japonês, Igreja Santo Antônio, Parque Dr. Luís Carlos Raya, Parque Curupira, Parque Maurílio Biagi, Casa da Memória Italiana e Praça Luís de Camões.

“Um projeto que sem dúvida ajuda a dar visibilidade para a cidade porque diz respeito às pessoas. É a população que precisa conhecer os patrimônios. Somente com essa visibilidade eles fazem sentido”, disse a doutora em História Nainora Maria Barbosa de Freitas. “Projetos que atinjam um público maior, que deem a possibilidade de expansão do conhecimento do patrimônio público, são muito importantes”, afirmou Nainora, que é pesquisadora do Instituto Paulista de Cidades Criativas e Identidades Culturais e autora de diversas obras sobre o patrimônio da cidade, incluindo o artigo “A centenária capela Santo Antônio Pão dos Pobres”.

Patrimônio rico e diverso

Ribeirão Preto conta com um rico conjunto arquitetônico, paisagens e edifícios isolados, que representam vários períodos históricos e diferentes grupos sociais, indivíduos e famílias. Resultado da ausência de políticas públicas sólidas voltadas para a preservação, muito desse patrimônio se perdeu ao longo do tempo. A afirmação é da historiadora, fotógrafa e pesquisadora Tânia Cristina Registro.

“Esta ausência de políticas públicas é fruto, em grande parte, da falta de percepção e sensibilidade sobre a importância e valor dos bens culturais relacionados aos diversos e diferentes grupos e identidades”, considera Tânia. “Daí a importância deste projeto do Sesc, que dá pertencimento à população. A divulgação e o envolvimento que ele proporciona são essenciais para aproximar as pessoas das suas histórias. A aproximação, por meio do conhecimento e sensibilidade, pode gerar empatia e responsabilidade social, resultando na preservação da memória”, concluiu. 

Segundo Tânia, o patrimônio cultural de Ribeirão Preto é rico e diversificado, pois se relaciona a diferentes identidades culturais e períodos históricos. “Como exemplos, aponto os bens culturais e edifícios representativos dos primeiros habitantes da região: os sítios arqueológicos; entrantes mineiros; as casas de roças, elementos relacionados aos povos africanos que aqui chegaram como pessoas escravizadas, seus conhecimentos sobre tecnologias de metalurgia, arquitetura, culinária e religiosidade; os imigrantes asiáticos e europeus com suas contribuições para o nosso modo de viver e ver o mundo, para a nossa culinária e nossa construção civil”, enumera a historiadora.

Tânia foi conselheira do CONPPAC-RP e historiadora do Arquivo Público e Histórico de Ribeirão Preto por mais de 20 anos, período em que inventariou o patrimônio da cidade. Ela também é autora de artigos acadêmicos e livros sobre o patrimônio público de Ribeirão Preto e, há mais de dez anos, executa e elabora projetos de pesquisa histórica para diversas instituições de Ribeirão Preto e outros municípios paulistas.

Vitor Hugo Vieira lembra que é preciso aproveitar o potencial turístico existente a partir do rico patrimônio restante. “Em Ribeirão Preto, quando se fala em turismo, muitas pessoas pensam em eventos como Agrishow, Rodeio e João Rock. Mas temos outras vocações; somos uma cidade prestadora de serviços, por exemplo, e temos a rota do vinho, com duas vinícolas, a rota das cervejarias, temos os parques públicos e temos essa rica história cultural, com valiosos patrimônios públicos”, alerta. 

Segundo Vitor, “apesar de haver dois museus fechados, além da Estação Barracão, precisamos evidenciar o potencial desses equipamentos e dos demais equipamentos em funcionamento. As coisas não têm de estar todas perfeitas. Em cidades que vivem apenas do turismo, como em algumas capitais litorâneas, também não há perfeição”, incentiva. “O que, é claro, não exime o poder público de suas responsabilidades”, conclui. 

Design e ilustrações: Denis Tchepelentyky (denis-t.com)
Fotos: Vinícius Barros
Textos: Flávia Lima

Os 13 postais

Além de um mapa, o combo do projeto contará com 13 cartões-postais sobre os principais equipamentos da região central de Ribeirão Preto:

  1. Estação Barracão
  2. Santuário das Sete Capelas
  3. Basílica Abacial Santo Antônio de Pádua (Igreja Santo Antônio)
  4. Teatro de Arena “Jaime Zeiger”
  5. Bosque Municipal “Dr. Fábio Barreto”
  6. Jardim Japonês de Ribeirão Preto
  7. Museu Histórico “Plínio Travassos dos Santos”
  8. Museu do Café “Cel. Francisco Schmidt”
  9. Parque Municipal “Dr. Luís Carlos Raya”
  10. Parque Curupira (Parque Municipal Prefeito Luiz Roberto Jábali)
  11. Parque Ecológico Maurílio Biagi
  12. Museu Casa da Memória Italiana
  13. Praça Luís de Camões


Estação Barracão

De tijolos aparentes, à moda da arquitetura industrial inglesa característica das primeiras gares, a Estação Barracão é protagonista da história de Ribeirão Preto. Por ali desembarcavam modestos imigrantes europeus, sobretudo italianos, para recomeçar a vida. A maioria se instalava no entorno, imensa área batizada de Núcleo Colonial Antonio Prado que, naquele momento, já era chamado informalmente de Barracão de Cima (hoje, Ipiranga) e Barracão de Baixo (atual Campos Elíseos). Pelos trilhos que cortavam a região, a ferrovia escoava o café rumo ao porto de Santos. Na estação Barracão, inaugurada em 1900, chegava gente de várias partes do Brasil atraída pelas oficinas instaladas pelos trabalhadores estrangeiros: de curtumes a marcenarias, passando pela cervejaria artesanal, que desde então se faz presente na economia local. Instalado num complexo ferroviário de 20 mil m², o prédio hoje aguarda urgente restauro e, segundo projeto do Instituto de História do Trem de Ribeirão Preto, após a reforma, a Estação Barracão poderá ser transformada em Museu Ferroviário, exibindo um acervo de mais de 600 itens, hoje alojados em outro espaço: maquinários e equipamentos de grande porte; objetos menores, como móveis, telégrafos e documentos; e o chamado material rodante: locomotivas, vagões de carga e carros de passageiros que datam do século 19 até a década de 1970, quando a estação foi desativada. 

Av. D. Pedro I, esquina com a Rua Rio Grande do Sul – Ribeirão Preto-SP

Santuário das Sete Capelas

No alto do Morro do São Bento, as sete capelas dispostas em semicírculo guardam em silêncio histórias de fé e cultura. A ideia nasceu em 1947 com Dom Casimiro Masetti, prior dos monges beneditinos olivetanos (ramo da ordem fundada em Siena, na Toscana), que quis recriar em Ribeirão Preto as sete igrejas de Bologna. As obras começaram em 1948 e duraram quase dez anos. Cada capela foi erguida em estilo próprio e doada por uma família ribeirão-pretana. Cada uma dedicada a um padroeiro diferente: Nossa Senhora das Graças, São Judas Tadeu, Nossa Senhora Aparecida, Santa Terezinha, São Jorge, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e a Capela da Penitência, com sua escadaria de 28 degraus inspirada na “Escada Santa” de Roma (a mesma, segundo a tradição, em que Jesus subiu para ser julgado por Pilatos). Muitos dos fiéis sobem os degraus de joelhos, em penitência ou sinal de devoção. A primeira imagem, a da Virgem da Medalha Milagrosa, foi doada pela prefeitura de Jardinópolis como gesto de fraternidade entre as cidades, dando ao santuário seu nome oficial: Nossa Senhora da Medalha Milagrosa. E, entre as sete, uma raridade: a única capela dedicada a São Jorge em Ribeirão Preto. O santuário fica ao lado do Mosteiro de São Bento e pertence aos monges beneditinos olivetanos. 

Via São Bento – Morro do São Bento, s/n – Jardim Mosteiro, Ribeirão Preto-SP
Funcionamento: de segunda a sábado das 7h às 16h; domingos e feriados das 7h às 13h.

Basílica Abacial Santo Antônio de Pádua (Igreja Santo Antônio)

As crianças da catequese levavam no alto os estandartes do padroeiro, abrindo a procissão que lançou a pedra fundamental da Igreja Santo Antônio de Pádua, em 18 de junho de 1922. Os monges olivetanos, que haviam chegado três anos antes para celebrar sua primeira missa numa igrejinha na Avenida Saudade, nº 202 — a capela Santo Antoninho Pão dos Pobres —, ergueram com as próprias mãos e o apoio de gente humilde do bairro uma igreja de estilo românico-lombardo com inspiração bizantina, nos moldes do templo monástico olivetano de Seregno, província de Milão. Sob orientação do engenheiro Cesare Fomenti, as obras duraram décadas, mas, em 1930, ainda sem acabamento, as portas foram abertas aos fiéis e a primeira missa se fez. O campanário de 53 metros de altura só ficou pronto em 1956, ao final das obras que deram origem a um templo monumental, de 57 metros de comprimento por 29 metros de largura. A paróquia, no entanto, foi instituída canonicamente em 1947 — quando, somente no primeiro ano, foram celebrados 404 batismos e mais de 65 mil comunhões. Cem anos após a chegada dos olivetanos, em 2019, o Vaticano elevou o templo à Basílica Menor, uma distinção reservada a menos de 80 igrejas no Brasil. A Basílica e a capela Santo Antoninho Pão dos Pobres, primeira construção religiosa erguida na cidade, onde os monges rezaram sua primeira missa, são faces da mesma história: o mesmo engenheiro as projetou e a mesma comunidade de fiéis as frequenta e mantém ainda hoje, ao lado dos monges que ainda entoam seus louvores diários em forma de cantos gregorianos.

Rua Paraíba, 747 – Campos Elíseos, Ribeirão Preto-SP

Teatro de Arena “Jaime Zeiger”

Construído numa meia-encosta do Parque Municipal Morro do São Bento, o Teatro de Arena “Jaime Zeiger” nasceu de uma obsessão de seu criador: a busca pelo som perfeito ao ar livre. Para obtê-la, o polonês que emprestou seu nome ao teatro pesquisou arenas de diversos países da Europa e do Oriente Médio antes de cravar o projeto numa topografia que favorecia sua acústica. Arquiteto, jornalista e professor, Jaime Zeiger chegou a Ribeirão Preto na década de 1950 e, no ano de 1969, já inaugurava o primeiro teatro de arena do interior paulista: 2.100 lugares em arquibancadas de cimento em formato de ferradura, uma concha acústica de quase 18 metros de largura e um fosso circular ao redor do palco, originalmente preenchido de água para ampliar a projeção do som. Por ali passaram Mercedes Sosa, Gilberto Gil, Vinícius de Moraes, João Gilberto, Cartola, Novos Baianos e Os Mutantes. A estreia, no entanto, foi de Antígona, obra-prima de Sófocles. Reinaugurado em março de 2024 após reforma geral, o teatro ganhou nova fachada assinada pela artista Bianca Habib, um presente do Sesc à cidade. Uma obra que une cultura e natureza, ao retratar os animais do bosque, que faz divisa com o Arena.

Morro do São Bento, s/n – Jardim Mosteiro, Ribeirão Preto-SP

Bosque Municipal “Dr. Fábio Barreto”

Durante todo o tempo em que foi prefeito de Ribeirão Preto, por quase uma década, Fábio Barreto percorreu instituições e escreveu a chefes de Estado em busca de doações de plantas e animais para criar, na antiga Chácara Olympia, um refúgio de mata nativa. Em 1942, seu sonho se concretizou na forma do primeiro parque da cidade: zoológico, orquidário, aquário e parque botânico, tudo junto, num espaço de mais de 250 mil m² — cerca de 25 quarteirões de natureza no coração da cidade. Hoje, o Bosque Municipal “Dr. Fábio Barreto” preserva um fragmento de Mata Atlântica nativa, com árvores centenárias de perobas, jequitibás, ipês e jatobás, enquanto abriga mais de 700 animais de 180 espécies, vários deles ameaçados de extinção, como a arara-azul, o lobo-guará e o tamanduá-bandeira. No Aquário Municipal, estão 500 peixes de 56 espécies. Com entrada gratuita e quase 260 mil visitantes por ano, o bosque é, ao mesmo tempo, reserva ecológica, laboratório vivo e quintal coletivo de uma cidade que, por sorte, teve um prefeito obstinado.

Rua Liberdade, s/n – Campos Elíseos, Ribeirão Preto-SP

Jardim Japonês de Ribeirão Preto

No coração do Bosque, o Jardim Japonês é uma pausa. Lagos com carpas coloridas, pontes, pagodes, luminárias de pedra, uma réplica do Monte Fuji e uma casa de chá compõem, em 20 mil m², uma paisagem que parece ter sido transportada da Ásia. Mas que, de fato, nasceu do encontro de duas culturas. Inaugurado em 1969, o jardim foi um presente da colônia japonesa ribeirão-pretana à cidade que a acolheu no início do século 20. As plantas ornamentais foram doadas pelos primeiros imigrantes e, depois, por seus descendentes. Em 2008, no centenário da imigração japonesa no Brasil, o espaço foi revitalizado e ganhou cerejeiras e pinheiros-negros importados do Japão, além de um bonsai de 25 anos oferecido pelo artista plástico Shozo Mishima. Um levantamento científico da UNESP, no entanto, revelou que apenas metade das espécies do jardim, atualmente, são de origem asiática, como se a própria flora tivesse abraçado a mistura que forjou a identidade dos imigrantes em solo brasileiro. O jardim ainda se completa com o Mirante “Coronel Alfredo Condeixa Filho”. Lá do alto, a 45 metros de altura, a cidade inteira se revela com sua prole multicontinental. 

Rua Liberdade, s/n – Campos Elíseos, Ribeirão Preto-SP

Museu Histórico “Plínio Travassos dos Santos”

A antiga sede da Fazenda Monte Alegre, erguida em forma de “L” com varandas abertas para jardins centenários, guarda uma história que começa antes mesmo de se tornar museu. Fundada em 1874 e adquirida em 1890 pelo imigrante prussiano Francisco Schmidt, o “Rei do Café”, a propriedade testemunhou o apogeu e a derrocada da cafeicultura brasileira. Em 1951, a antiga casa grande virou lar definitivo do acervo reunido desde 1938 por Plínio Travassos dos Santos, o visionário professor, jornalista, historiador e escritor brasileiro que percorreu o país recolhendo peças para fundar o museu em Ribeirão Preto. Entre os mais de 6.000 objetos, há obras de arte, moedas romanas de 2.000 anos, móveis da Companhia Mogiana feitos para receber D. Pedro II e a banheira em mármore de Henrique Dumont, pai de Santos Dumont. Tombado pelo Condephaat e pelo Conppac, o Museu Histórico permanece fechado desde 2016 à espera de restauração.

Av. do Café, s/nº – Campus USP, Ribeirão Preto-SP

Museu do Café “Cel. Francisco Schmidt”

O nome é uma homenagem ao prussiano que foi um dos maiores cafeicultores do Brasil, mas o acervo é do povo. O prédio foi inaugurado em 1957, numa casa construída sob encomenda de Geremia Lunardelli, o Terceiro Rei do Café, especialmente para servir de sede ao museu. Localizado na antiga Fazenda Monte Alegre, a poucos passos do Museu Histórico, o local guarda a mais importante coleção sobre a história do café do estado de São Paulo: máquinas de beneficiar grãos, carros de boi, troles, fotografias do período áureo da cafeicultura e objetos que contam o cotidiano de escravizados, imigrantes e barões. Peças coletadas em toda a região e em estados como Rio de Janeiro e Minas Gerais compõem um painel humano e econômico de uma era que forjou Ribeirão Preto e o Brasil. Assim como o Museu Histórico, está fechado aguardando restauração. “Ribeirão Preto, terra do café” carrega a vergonha de mais de uma década de abandono da história de sua prosperidade, do ouro verde que fez brotar da terra o “orgulho de São Paulo e do Brasil”.

Av. do Café, s/nº – Campus USP, Ribeirão Preto-SP

Parque Municipal “Dr. Luís Carlos Raya”

O chão do Parque Raya já foi pedreira. Por décadas, trabalhadores extraíram dali o basalto que compõe a geologia e boa parte da construção de Ribeirão Preto. Em 2004, o solo escavado na zona sul da cidade deu lugar a lago, cachoeira, gramado e uma pista de caminhada, além de uma cascata artificial de 25 metros que é seu principal atrativo. A transformação de espaço privado num parque municipal de 40 mil m² é, ela mesma, uma metáfora adequada para o médico que dá nome ao lugar. O pediatra e professor Luís Carlos Raya foi Secretário Municipal da Saúde em três governos diferentes, pois a competência e o compromisso dele com a saúde pública eram maiores que qualquer fronteira partidária. Pronto para servir a todos, como o parque que carrega seu nome. Aos domingos, cerca de 5 mil ciclistas partem dali para o Parque Curupira pela Ciclofaixa de Lazer, num percurso de 6 km, provando que a cidade, quando bem cuidada, pode unir o que a distância e os obstáculos costumam separar.

Rua Severino Amaro dos Santos, s/n – Jardim Botânico, Ribeirão Preto-SP

Parque Curupira (Parque Municipal Prefeito Luiz Roberto Jábali)

São mais de 150 mil m² de mata tropical no coração da cidade, o equivalente a 15 quarteirões de árvores nativas reunidas numa área irregular, com declives que geraram excelentes mirantes e pistas para caminhada ou ciclismo, lagos e cachoeiras artificiais, que recebem uma rica fauna: macacos, quatis, tartarugas, peixes e aves de espécies variadas. O Parque Curupira, maior área de lazer da Região Metropolitana de Ribeirão Preto, nasceu de uma antiga pedreira de basalto – rocha formada por erupções vulcânicas de 130 milhões de anos –, que encerrou suas atividades nos anos 1970 e ficou abandonada por décadas, até 1995, quando começaram as tratativas entre a prefeitura e a empresa para transformar a área em parque municipal. Um dos lugares preferidos de quem vive ou visita a cidade, o Parque Curupira recebe, todos os dias, cerca de 2.000 pessoas.

Av. Costábile Romano, s/n – Ribeirânia, Ribeirão Preto-SP

Parque Ecológico Maurílio Biagi

Às margens dos córregos Laureano e Ribeirão Preto, a dois passos da rodoviária, 70 mil m² de chão guardam memórias esquecidas pela maioria. No passado, a área que desde 1982 se transformou no Parque Maurílio Biagi era um antigo pátio de manobras para locomotivas. Nada mais justo que, hoje, guarde a Locomotiva nº 12 da Usina Amália, uma autêntica maria-fumaça Borsig de 1912. Restaurada, está em exposição permanente dentro do parque, numa miniestação ferroviária criada especialmente para ela. Mas o maior tesouro do lugar tem outro nome: Bassano Vaccarini. O artista deixou no parque, entre 1994 e 1997, um conjunto de quatro esculturas dedicadas à memória dos imigrantes, dos operários, dos indígenas e dos afro-brasileiros que construíram Ribeirão Preto. Arte e história dividem espaço com ciclovia, lago ornamental, academia ao ar livre e uma pista de skate profissional que faz a festa dos jovens, equipamentos que atraem cerca de 30 mil visitantes por mês.

Rua Felipe Camarão, 292 – Vila Tibério, Ribeirão Preto-SP

Museu Casa da Memória Italiana

Em frente à Catedral, na Rua Tibiriçá, um palacete resiste. Enquanto os vizinhos cederam à verticalização e deram espaço a prédios, ele ficou. Com sua fachada eclética (típica da arquitetura de então, cuja mistura de estilos agradava aos donos da época), com seus frisos florais, suas janelas de madeira e o mobiliário original ainda dentro. Construído entre 1923 e 1925 pelo arquiteto ítalo-brasileiro Arnaldo Maia Lello para uma família da elite cafeeira, o imóvel ganhou nova história em 1941, quando a família de imigrantes Pedro e Eugenia Biagi cruzou seu portão e o transformou em lar por sete décadas. Quando a última filha do casal faleceu, em 2012, a casa foi doada e tornou-se o Museu Casa da Memória Italiana. Preservando objetos, fotografias, documentos e a sua própria arquitetura como testemunho vivo da imigração italiana em Ribeirão Preto. Em 2025, quando completou cem anos, a casa foi tombada. Como o povo que representa, para sempre presente na história de Ribeirão Preto. 

Rua Tibiriçá, 776 – Centro, Ribeirão Preto-SP

Praça Luís de Camões

“Eu canto o peito ilustre lusitano”. A frase (algo como “Eu celebro a coragem e a grandeza do povo português”, na linguagem de hoje) é uma das mais conhecidas de Os Lusíadas e está gravada aos pés do busto de seu autor, Luís de Camões. O monumento homenageia a presença de imigrantes portugueses no período cafeeiro. Ali de cima, e bem no centro da praça que leva seu nome, o poeta observa os cães de todas as raças e tamanhos que, manhã e tarde, tomam conta do espaço com uma alegria que dispensa tradução. As conversas amenas dos tutores e os latidos preenchem o ar da praça que guarda as costas do palacete da antiga Sociedade Recreativa de Ribeirão Preto, a “Recra”, hoje nova sede do Sesc, que passa por reformas para ocupação posterior, assim como a praça, que tem ganhado novo viço com o plantio de gramados e manutenção diária pelo Sesc. Também usufruem da sombra das altas e bem copadas árvores, visitantes e funcionários do Hospital Beneficência Portuguesa, localizado em frente. Luís Vaz de Camões — o poeta que perdeu um olho em combate no Marrocos, naufragou na costa do Vietnã e ainda assim salvou os manuscritos d’Os Lusíadas nadando — merecia um lugar assim. Um lugar que descansa e, todos os dias, renasce com os primeiros latidos da manhã.

Rua Visconde de Inhaúma, 1134 – Centro, Ribeirão Preto-SP

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