Arquitetura, memórias e uso público de um prédio histórico centenário

26/07/2022

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Pensar a importância de um conjunto arquitetônico que completa 100 anos de existência a partir de seus elementos construtivos e arquitetônicos, do contexto social, cultural e econômico em que foi construído, do seu valor histórico e simbólico, do espaço como resultante de ações e trabalho humano, da identidade social que representa, das funções que exerceu em sucessivos períodos, das transformações por que passou ao longo do tempo, das memórias que preserva em suas paredes e instalações, do uso que se faz do espaço, dos encontros e convívios que esse lugar possibilita.

Estas e muitas outras reflexões foram partilhadas no encontro “100 anos de histórias e arquitetura”, realizado pelo Sesc São Paulo na unidade de Registro, instalada desde 2016 no conjunto arquitetônico KKKK, tombado como patrimônio histórico-cultural do Vale do Ribeira.

O evento marcou o início da programação especial que o Sesc Registro realiza para celebrar as histórias, afetos e memórias vinculadas ao prédio e ao território do Vale do Ribeira.

As comemorações também buscam refletir sobre o presente e o futuro que está sendo construído no espaço.

Em mensagem transmitida por vídeo ao público que prestigiou o encontro na Área de Convivência do Sesc Registro, o diretor regional do Sesc São Paulo, Danilo Santos de Miranda, ressaltou a importância do prédio como marco da imigração japonesa no Brasil, um momento muito especial da história do país e que trouxe “elementos fundamentais da cultura e da história do Japão para o Brasil, estabelecendo uma relação tão profícua e frutífera que permanece até hoje”. Uma construção, continuou Miranda, que simboliza o vínculo profundo que se criou com a cultura japonesa no país, com sua maneira de agir, de produzir, criar riqueza e se desenvolver.

O diretor destacou o fato de uma construção histórica e simbólica ter dado lugar à presença do Sesc na cidade de Registro, a primeira unidade do Vale do Ribeira.

“O KKKK hoje é o Sesc Registro”, afirmou. É o prédio símbolo de um período histórico que se transforma em uma nova realidade ao sediar o Sesc, uma instituição que oferece a toda população atividades artísticas, culturais, esportivas, educacionais e de lazer. “Para nós é uma grande satisfação poder realizar os programas do Sesc nesse prédio, cumprindo nossa missão institucional de proporcionar bem-estar social e qualidade de vida para toda comunidade de Registro e do Vale do Ribeira”.

O diretor regional do Sesc São Paulo comentou que, em breve, será construído um novo prédio da unidade, em terreno localizado ao lado da Praça Beira Rio. “O antigo prédio do KKKK continuará sendo utilizado e teremos o complemento de uma nova área, onde será desenvolvida, sobretudo, a parte esportiva”.

Com a nova construção, a unidade do Sesc Registro estará completa e dotada com espaços cênicos multiuso, consultórios odontológicos e piscinas. O novo espaço será ligado ao prédio centenário por uma passarela margeando o rio Ribeira.

Espaço do concreto, do efêmero e do trabalho

Os arquitetos convidados para o encontro Akemi Hijioka, docente do IFSP-Câmpus de Registro, Hugo Segawa, professor da FAU-USP, e Marcelo Ferraz, sócio-proprietário do escritório Brasil Arquitetura, apresentaram aos participantes as diferentes fases e contextos relacionados ao conjunto arquitetônico do KKKK, construído em Registro entre os anos de 1919 e 1922 pela Companhia Ultramarina de Desenvolvimento, de cujo nome em japonês (Kaigai Kogyo Kabushiki Kaisha) deriva a sigla KKKK pela qual o prédio é conhecido.

Os arquitetos relataram o processo que antecedeu e resultou na construção do prédio e o posterior período de tombamento e restauração, até chegar à fase atual em que se transforma no Sesc Registro. Nas apresentações, eles contaram sobre as vivências pessoal e profissional em relação ao KKKK, o valor histórico e simbólico que atribuem ao espaço e a expectativa que têm sobre o seu futuro.

Com base em pesquisas e documentos consultados em acervos de museus e bibliotecas no Japão, a professora Akemi Hijioka contou como se deu a construção da edificação no contexto da imigração japonesa no Vale do Ribeira, região escolhida como a ideal para se efetuar uma “imigração diferente, planejada para enviar os japoneses ao Brasil não como imigrantes, mas como agricultores independentes, ao contrário do que havia ocorrido em outras regiões de São Paulo”. E para apoiar o trabalho da nova colônia que se formava na região, o prédio da companhia KKKK foi erguido à margem do rio Ribeira de Iguape, com infraestrutura para beneficiar e comercializar a produção agrícola das famílias, além de sediar a parte de administração do processo de colonização.

Ela relatou vários episódios da fase construtiva do conjunto, detalhes que constam em registros oficiais feitos por antigos administradores da KKKK, destacando entre eles como se deu a vinda de todo maquinário para montar o engenho de arroz que funcionou no local durante várias décadas. Transportados de trem de São Paulo até Santos, os equipamentos foram então baldeados para outro trem e levados até a vila de Santo Antônio de Juquiá e, de lá, trazidos por barco pelo “caudaloso” rio Juquiá até o porto de Registro. De acordo com os relatos, o engenho de arroz funcionou sob a administração da companhia até 1937. Depois, o prédio teve outras administrações, ficando a fábrica ativa até 1960.

Para a professora Akemi Hijioka, o KKKK “foi um espaço do trabalho, das pessoas importantes que chegavam, das pessoas comuns que o usavam. Espaço do sagrado, do habitar, da brincadeira na palha de arroz, dos bolinhos de sanga para iscar o covo, dos passeios no calçadão, das revoadas de andorinhas sobre a chaminé e de várias outras memórias ao longo de sua existência. Foi o espaço do devir: viu o movimento dos vapores e das lanchas, das tensões e contradições, do concreto e do efêmero, mostrando sua natureza como espaço de criação e transformação”.

Patrimônio: além de paredes e tijolos, memórias

O arquiteto Hugo Segawa discorreu sobre outra fase do conjunto de prédios, quando já estavam em estado “sofrível” de conservação, após terem passado por um período de abandono e diversas adaptações e reformas que acabaram implicando na perda de algumas características originais. Junto com uma equipe de jovens arquitetos, Segawa esteve na região em 1982 para fazer o levantamento métrico-arquitetônico e o estudo histórico que instruíram o processo de tombamento do conjunto pelo Condephaat – ato que se concretizou oficialmente cinco anos depois.

Ele relacionou o tombamento do KKKK como patrimônio histórico com o processo de proteção ocorrido com outros dois bens culturais da imigração japonesa em São Paulo: o cemitério japonês na cidade de Álvares Machado e o Casarão do Chá, em Mogi das Cruzes. Diante dos estudos que justificaram a importância do tombamento dessas três edificações históricas foi iniciado também o exame de outras construções remanescentes da presença japonesa no estado de São Paulo, entre elas, dezenas de residências e outros imóveis localizados em Registro.

Segawa contou que, junto com outros pesquisadores, percorreu a região rural de Registro para realizar esses estudos, sempre guiados na incursão pelo professor, à época já aposentado, Dito Bacuri, que conhecia as famílias e o meio rural do município. O arquiteto mostrou alguns elementos construtivos observados nas casas visitadas em Registro, típicos da arquitetura japonesa, como as estruturas de “tesouras” apoiando as coberturas, a técnica construtiva da taipa de mão e os diversos instrumentos de carpintaria que os imigrantes usavam nas construções. Depois desse trabalho, o IPHAN desenvolveu estudos para o tombamento dos bens culturais da imigração japonesa no Vale do Ribeira, e que resultaram também no tombamento do prédio do KKKK, no ano de 2010.

Para Segawa, “o KKKK é exemplo da capacidade extraordinária da arquitetura de modificar o ambiente/espaço e termos sempre a esperança de que nunca vamos desperdiçar esse patrimônio, que não é apenas paredes e tijolos, mas uma memória. É a transformação de uma memória de trabalho, de um engenho, de galpões, de um edifício, de uma cidade que se ligava ao mundo pelo rio e não pela rodovia. Tudo aqui acontecia pelo rio. E um projeto que volta o olhar para o rio é uma leitura de memória, uma atitude da arquitetura de buscar entender o ambiente, o lugar, e é o que esse projeto relembra. É um grande exemplo do potencial de compreensão dos vários sentidos intangíveis que a arquitetura busca e que esse projeto traz”.

Arquitetura: abrigo da coletividade

A fase de restauração do prédio do KKKK foi apresentada pelo arquiteto Marcelo Ferraz, que em coautoria com Fernando Fanucci, sócio no escritório Brasil Arquitetura, assinou o projeto de restauro do conjunto. Ferraz conheceu o espaço no início da década de 1990 e ficou apaixonado pelo lugar, na época em estado precário de conservação. Com a ideia de que havia encontrado “um mini Sesc Pompeia” no local, o arquiteto e equipe voltaram a Registro algum tempo depois para realizar um levantamento e elaborar o projeto de transformação do prédio. Depois disso, disse ele, começou “uma verdadeira saga” em busca dos recursos necessários para concretizar a proposta de fazer do KKKK um centro cultural voltado ao rio Ribeira e aberto a toda a cidade.

Depois de “bater à porta” de vários governantes, o arquiteto encontrou apoio na gestão do governo Mário Covas, que alocou recursos para a restauração, visando a instalação de um centro de formação estadual de professores no local. Ainda não era totalmente o projeto sonhado pelo arquiteto, mas na restauração foi possível garantir um espaço para uma Área de Convivência e outro para abrigar o Museu da Imigração Japonesa. Ferraz lembrou do esforço que sua equipe e a comunidade japonesa fizeram para montar o Museu da Imigração e também para criar a coleção de obras de artistas nipo-brasileiros, cuja exposição fez parte da solenidade de inauguração do prédio restaurado, em 2002.

Marcelo Ferraz falou da satisfação que sentiu ao retornar a Registro, anos depois, para elaborar o projeto de implantação da primeira unidade do Sesc no Vale do Ribeira, inaugurada em 2016. Um sonho de todo arquiteto, ressaltou ele, lembrando da função que o espaço passou a exercer depois da chegada do Sesc São Paulo, o que para ele significou uma retomada da sua ideia original de fazer do KKKK um espaço cultural aberto para toda a cidade.

“O KKKK não poderia ter melhor destino do que ter o Sesc ocupando seu espaço, porque isso é garantia de vida longa ao patrimônio histórico. Com a qualidade do trabalho que desenvolve para as pessoas e com a manutenção que faz do conjunto arquitetônico, o Sesc vai além: ao mesmo tempo em que faz a justa homenagem à colônia japonesa pela preservação da memória, também traz para dentro desse espaço histórico os demais atores da geografia do Vale do Ribeira: os quilombolas, os caiçaras, os indígenas, os caipiras. Arquitetura pra gente é isso: é essa gente toda usando o prédio. Não é apenas o prédio em si, é o uso do espaço”, reforçou.

Na visão do arquiteto, o que foi feito no KKKK é um exemplo de ocupação de patrimônio histórico para muitos lugares do Brasil. “A memória aqui está nas paredes, nas instalações, mas com outro uso público. Agora é um centro de convivência, de encontro de pessoas, na beira do rio. O objetivo da arquitetura é o abrigo, o abrigo da coletividade. Isso é futuro”.

Também falando de futuro, a arquiteta Akemi Hijioka ressaltou que é importante “olhar para o prédio não apenas como um objeto físico, mas como materialização de ações e de sonhos, porque isso faz com que as pessoas se conectem com o lugar e se identifiquem com a memória que guarda”. E esse pertencimento, continua, é fundamental para garantir a preservação do espaço para mais 100 anos.

100 anos de histórias e arquitetura

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