
Música, humor, cores, saudade, carros antigos e…cachorros
Por Duda Leite
O cineasta finladês é avesso à entrevistas. Porém, aceitou responder dez perguntas por e-mail, desde seu semi retiro em Portugal, e ainda elogiou as perguntas. Falamos sobre sua coleção de carros vintage, música boa, sua amizade com Jim Jarmusch, as cores de seus filmes, sua família de atores, seus cachorros, fábricas, portos e saudade. Leia abaixo a entrevista completa.
DUDA LEITE – Seu primeiro filme, “The Saimaa Gesture”, co-dirigido por seu irmão Mika, era um documentário sobre três bandas finlandesas. A música sempre esteve bastante presente nos seus filmes, especialmente o rock n roll, o blues e alguns covers finlandeses incríveis de canções norte-americanas. Seus personagens estão sempre ouvindo música. Você acha que a música deixa a vida mais suportável?
AKI KAURISMAKI – A música não pode te salvar, mas ela cura. Música boa. Música ruim é irritante e faz você detestar a humanidade. Eu uso todo tipo de música nos meus filmes: rock, tango, música clássica, o que for. Às vezes para preencher um diálogo inexistente. De qualquer forma, as pessoas falam demais.
DUDA – Você parece ter uma relação de amor e ódio com o cinema feito em Hollywood. Por um lado, você faz filmes completamente independentes que quebram todas as regras do cinema hollywoodiano. Por outro, você fez belas homenagens ao Cinema Noir como em “Ariel”, e “A Garota da Fábrica de Caixas de Fósforos”, e até às comédias românticas em “Folhas de Outono”. O que você mais gosta e mais detesta no cinema americano?
AKI – Eu amo os filmes da antiga Hollywood, que morreu em 1963. O que sobrou, é terrivelmente ruim, chato, e uma vergonha. São filmes infantis feitos para “adultos”. Todos os bons filmes feitos em Hollywood atualmente são independentes.
DUDA – Falando em cinema norte-americano, você tem uma alma gêmea nos Estados Unidos, o Jim Jarmusch. Você inclusive mostra um pôster do filme “Uma Noite Sobre a Terra” de Jarmusch, em “Nuvens Passageiras”. Como surgiu essa ligação com Jarmusch? Você enxerga alguma semelhança entre seus filmes?
AKI – Eu diria que Jim é um amigo. Não sei como ele se refere à mim. Nos conhecemos no final dos anos 1980, no festival Midnight Sun na Finlândia (que Aki organizava com seu irmão Mika). Também distribuímos seus primeiros 5 ou 6 filmes.
DUDA – Em “Ariel”, Taisto (Turo Pajala), diz que ele quer fugir para o Brasil ou para o México. Ele termina embarcando no navio Ariel para o México. Qual é sua relação com o Brasil? Você ainda acha que o Brasil seria um bom lugar para fugir?
AKI – Eu fugi para Portugal em 1989. O Brasil e o México são lugares míticos para os finlandeses. São lugares muito distantes e fora do alcance, com elementos mágicos como a Amazônia e Pancho Villa.
DUDA – Seus personagens estão sempre dirigindo carros vintage muito legais, tanto americanos como europeus, como Cadillacs entre outros. Qual é a sua relação com esses carros vintage?
AKI – Eu tenho um Cadillac 62 conversível, uma Pick Up Chevrolet 51, uma limousine Checker Taxi, de 1967, um Volga russo, e algumas motocicletas britânicas dos anos 1950. Parece que, em algum momento da vida, eu fui um colecionador.
DUDA – Falando sobre família: você criou uma família de colaboradores com seus atores, como Kati Outinen, Kari Väänänen, Elina Salo e Matti Pellonpää. O que trabalhar sempre com os mesmos atores traz para seu cinema?
AKI – Elina Salo e Matti Pellonpää já não estão mais neste mundo. Kati e muitos outros ainda estão. Gosto de trabalhar com bons atores. É bem mais fácil, e o resultado é automaticamente melhor do que se trabalhasse com atores ruins. Também é bom trabalhar com amigos.
DUDA – Você parece gostar de filmar fábricas, portos, canteiros de obras e máquinas obsoletas. Assim como na abertura de “A Garota da Fábrica de Caixas de Fósforos”, ou as docas em “Ariel” e “O Porto”’ . O que o intriga nesses ambientes?
AKI – Portos são poéticos, estão sempre cheios de “saudade”. As fábricas têm uma beleza mecânica, e um toque inerente da classe trabalhadora.
DUDA – Seus filmes têm uma paleta de cores bastante única. Como é seu trabalho com seus diretores de arte, e de fotografia, para chegar a este look tão reconhecível?
AKI – Eu mesmo escolho as cores das paredes, dos objetos, do figurino, e eu mesmo cuido do color grading. O branco é um pesadelo.
DUDA – Seus filmes são conhecidos por apresentar um humor bem seco, mesmo quando os personagens estão vivendo situações trágicas. Você acredita que o bom humor pode salvar vidas?
AKI – Como chorar não resolve nada, rir é o melhor remédio. Eu gosto muito de Charles Chaplin, que foi o primeiro a misturar tragédia com comédia. Antes do seu filme “O Garoto”, isso simplesmente não existia.
DUDA – Em seus filmes, há algumas excelentes atuações caninas, como Pietari, em “Nuvens Passageiras”, Täiti em “O Homem Sem Passado”, e Laika, em “O Porto”. Inclusive você já ganhou duas vezes o Palm Dog, em Cannes (que premia justamente a melhor atuação de um animal). Você gosta de cachorros? Qual o melhor ator cão com quem você já trabalhou?
AKI – Tirando o Pietari, todos os outros cachorros eram meus. Eu ainda tenho dois cachorros hoje em dia. Um deles atuou em “O Outro Lado da Esperança”, e o outro em “Folhas de Outono”. Eu mesmo sou um cachorro velho. Um cachorro velho e cansado…
Confira os filmes do cineasta na Retrospectiva Aki Kaurismaki.
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