
Leia a edição de Março/26 da Revista E na íntegra
Qual é o lugar do pensamento crítico sobre cinema num mundo em que informações e opiniões correm por telas em ritmo acelerado? A questão está posta não apenas para o público, mas, principalmente, entre os profissionais que se dedicam a refletir e propor interpretações a respeito das dezenas de filmes que chegam semanalmente às salas de exibição e aos catálogos de streaming. “A crítica não deve ser mera mediação ou publicidade programada, veículo da divulgação dos filmes à época do lançamento, mas um contraponto que resgata a temporalidade própria do cinema, convidando o espectador a um outro tipo de fruição, diferente do binge-watching [hábito de maratonar conteúdos audiovisuais] compulsivo e da necessidade de vinculação às trends do momento”, defende o escritor, pesquisador e roteirista Marcel Vieira, professor do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).
Num momento em que o cinema nacional surfa a boa onda do reconhecimento nas premiações internacionais, com direito a múltiplas nomeações ao
Oscar, incluindo duas indicações consecutivas na categoria principal de melhor filme, ganha importância a discussão sobre a qualidade do debate que começa assim que as luzes se acendem na sala escura. Enquanto isso, as redes sociais misturam e colocam num suposto pé de igualdade reações vindas de espectadores que partem de diferentes relações com o cinema, desde o consumidor ocasional até aqueles que fazem da análise embasada seu ofício, cultivado por anos de estudo e preparação. As fronteiras que separam espectador, produtor de conteúdo e crítico profissional nunca estiveram tão embaralhadas.
Como lembra a jornalista, crítica de cinema e apresentadora Barbara Demerov, “é preciso diferenciar análise de indicação. Uma crítica em vídeo de cinco minutos não se equivale a um story no Instagram comentando a estreia mais aguardada da semana. Sem entrar no mérito da relevância de cada formato, é nesse ponto que as figuras do crítico e do criador de conteúdo podem parecer semelhantes… Mas não são.” No mês em que o Brasil pode conquistar mais uma estatueta dourada em Hollywood, Marcel Vieira e Barbara Demerov analisam, neste Em Pauta, os desafios atuais da crítica de cinema diante do ritmo imposto pela internet, e reforçam a importância do tempo para a reflexão aprofundada sobre a produção audiovisual.
Tempo e território da crítica de cinema
Por Marcel Vieira
Em agosto de 2025, Aurora Bernardini, tradutora e professora de literatura da Universidade de São Paulo (USP), deu uma entrevista à Folha de S.Paulo que, mal sabia ela, se tornaria uma das mais debatidas no ano. Conhecida e respeitada nos círculos acadêmicos por seu trabalho com tradução de literatura russa e italiana, a autora fez na entrevista uma retrospectiva da sua trajetória intelectual, falou sobre o seu processo de tradução e, inadvertidamente, deu início à maior polêmica da crítica em 2025: segundo ela, autores e autoras que privilegiam o conteúdo, em detrimento da forma, podem até ser interessantes, mas não são literatura. Para exemplificar, citou autores consagrados e amados por seus públicos, como Annie Ernaux, Elena Ferrante e Itamar Vieira Júnior.
Nas semanas seguintes, foi enorme a quantidade de debates críticos que se armaram em jornais, revistas, sites e perfis de redes sociais. Nesses debates, duas principais perspectivas dominaram. Para uns, era necessário desancar a visão potencialmente elitista da autora, reafirmando a urgência da arte contemporânea em se abrir para o relato das múltiplas experiências subjetivas, sobretudo dos grupos subalternizados. Para outros, era importante apontar a fragilidade da crítica cultural hoje em produzir análises sobre a matéria estética capazes de ir além do interesse nas condições, circunstâncias e vivências pessoais que atravessam os processos de criação e suas obras.
Esse episódio serviu para apontar um dado relevante: a crítica, como fenômeno da cultura, não está morta. Ela está viva, sim, ainda que em transição nas suas formas de produção, circulação e consumo, às vezes dispersa em sua materialidade, porém capaz de iluminar contradições e mistérios por trás das obras de arte e trazer o debate estético, com suas complexidades e limitações, para o dia a dia das pessoas. No caso da crítica cinematográfica, percebemos semelhante processo, adensado ainda pelas transformações estruturais nas dinâmicas contemporâneas de produção, nos modos de fomento e distribuição dos filmes e, claro, nas formas de consumo trazidas pelas plataformas de streaming e pelas redes sociais.
Falar da crítica de cinema hoje, portanto, significa partir de um duplo pressuposto. De um lado, devemos insistir em sua importância como força que movimenta o circuito cultural mais amplo, articulando produtores, obras e espectadores em uma cadeia de compartilhamento de experiências e visões de mundo. De outro, precisamos reconhecer que as condições sociotécnicas para a produção, a circulação e o consumo da crítica se transformaram radicalmente nos últimos anos. Sem negar as novas formas discursivas em jogo, temos que reafirmar a importância do exercício crítico para a formação do olhar, da sensibilidade, da historicidade e da própria linguagem do cinema.
Um primeiro desafio que se impõe é o do tempo. A crítica, enquanto gênero discursivo, tem raízes na imprensa escrita, especialmente no jornal diário e nas revistas especializadas. Aqui, a rotina das publicações já delimita um tempo para a visualização do filme, a reflexão analítica, a escrita e a edição do texto, até que ele chegue impresso nas mãos dos leitores. Portanto, assim como o jornalismo, a crítica de cinema precisa hoje lidar com a urgência hiperacelerada da informação digital, em sua lógica de coleta e tratamento de dados de alcance e interação na internet.
Pois a crítica não deve ser mera mediação ou publicidade programada, veículo da divulgação dos filmes à época do lançamento, mas um contraponto que resgata a temporalidade própria do cinema, convidando o espectador a um outro tipo de fruição, diferente do binge-watching compulsivo e da necessidade de vinculação às trends do momento. Nesse sentido, a crítica deve equilibrar o olhar para o presente e a avaliação histórica, conectando um à outra para lançar luz sobre os movimentos que produzem e reproduzem certas práticas, linguagens e narrativas.
A crítica de cinema precisa hoje lidar com a urgência hiperacelerada da informação digital, em sua lógica de coleta e tratamento de dados de alcance e interação na internet
Isso ganha contornos ainda mais agudos com a multiplicidade de vozes que emergem das redes sociais, onde a crítica disputa espaço em um ambiente saturado de opiniões efêmeras e amadorismos passionais. As demandas de visibilidade e recomendação, regidas por algoritmos que privilegiam o engajamento imediato, impõem aos críticos uma performance constante, com a construção de personas, o timing das postagens e a adaptação retórica para formatos fragmentados, sob pena de invisibilidade em meio ao fluxo incessante de conteúdos. No entanto, essa pressão performativa é também uma potencialidade, ao abrir caminho para o uso transmidiático da reflexão crítica, atingindo públicos heterogêneos pela articulação de textos analíticos com ensaios em vídeo, podcasts e newsletters.
Outra dificuldade é escapar da lógica da polêmica constante que estrutura grande parte do debate nas redes, onde tudo precisa ser tomado como manifesto inflamado ou opinião inquestionável. Nessa arena, a crítica corre o risco de se reduzir, de um lado, à expressão individualizada do gosto (um “eu gostei / eu odiei” performático, calibrado para gerar engajamento rápido) e, de outro, a um retorno nostálgico à figura da voz autoritária e especializada, blindada contra qualquer interlocução. Sair dessa dicotomia exige assumir a crítica como espaço argumentativo aberto, explicitar critérios e métodos, incorporar a escuta e o dissenso como parte da escrita e explorar formatos que convidem à interação, em que a crítica não abre mão do rigor, mas se coloca como mediadora entre diferentes sensibilidades.
Por fim, pensar a crítica de cinema hoje é reconhecê-la como parte orgânica da cultura, peça indispensável na engrenagem que movimenta, fricciona e torna visíveis as disputas em torno das imagens em movimento. Longe de fornecer uma resposta definitiva à velha pergunta “o que é o cinema?” (para lembrar o título do livro seminal de André Bazin (1918-1958)), a crítica opera no terreno das incertezas, abrindo caminho para que “os cinemas” – em suas múltiplas formas, geografias, escalas e materialidades – se percebam como produtores e espectadores mais conscientes das condições materiais e simbólicas que sustentam sua existência. Nessa chave, a crítica de cinema funciona como uma lente, capaz de evidenciar detalhes e perspectivas que escapam ao olhar distraído, e como um espelho, no qual a cultura audiovisual se vê, se estranha, se contradiz e, quem sabe, encontra brechas para imaginar futuros mais diversos, complexos e originais.
Marcel Vieira é escritor, pesquisador e roteirista. Professor do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Mestre e Doutor em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Pesquisa processos criativos no cinema e no audiovisual brasileiro, com foco no roteiro e na dramaturgia. Autor do romance Camaradas (Editora Patuá, 2018) e do livro de poemas um abismo quase (Editora Reformatório, 2021), vencedor do Prêmio Maraã de Poesia em 2020. Sutura (Mondru), seu novo romance, será lançado em 2026.
A crítica resiste
Por Barbara Demerov
“Um bom crítico tem que ter a sorte de estar vivo e escrevendo no momento de um grande cinema.” A frase, dita pelo documentarista e produtor João Moreira Salles no início do documentário Crítico (2007), de Kleber Mendonça Filho, elucida o tempo no qual vivemos hoje: uma época tão áurea quanto a da Retomada do cinema brasileiro, fase emblemática dos anos 1990 em que nossos filmes voltaram a circular e a atravessar as fronteiras de diversos países após a ditadura militar e a crise da Embrafilme. Um marco daquele período foi o clássico Central do Brasil (1999), drama dirigido por outro membro da família de João — seu irmão, Walter Salles —, que venceu o Urso de Ouro na Berlinale e o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro, além de ter sido indicado ao Oscar na mesma categoria.
Atualmente, temos dois grandes exemplos que acompanham o mesmo nível de prestígio: Ainda estou aqui (2024), também assinado por Walter Salles, e O agente secreto (2025), de Mendonça Filho. Ambos passaram por festivais internacionais e deixaram suas marcas (em Cannes, O agente secreto levou dois prêmios na competição principal: melhor diretor e melhor ator para Wagner Moura). Em território estadunidense, também fizeram bonito: Ainda estou aqui presenteou o Brasil com seu primeiro Oscar na categoria de melhor filme internacional e Moura recebeu um Globo de Ouro por sua atuação dramática (proeza que Fernanda Torres também conquistou em 2025, na mesma premiação). No momento em que escrevo este texto, ainda não se sabe se O agente secreto repetirá o feito do ano passado.
Com dois Oscar ou não, o cinema brasileiro nunca esteve tão em evidência nas mídias digitais. E é importante notar que, desde o Cinema da Retomada, a crítica também nunca esteve tão on-line em diferentes redes sociais — vídeos no YouTube, artigos em veículos tradicionais ou em newsletters pessoais e textos adaptados em carrosséis no Instagram ilustram bem esse cenário diversificado. Afinal, a visibilidade que estamos recebendo lá fora dá um belo gás para a produção de conteúdo. É bonito acompanhar o interesse crescente de quem repercute e de quem consome essa pauta, e chego até a ficar emocionada com as inúmeras reportagens (algumas de capa) que estampam jornais e revistas atualmente.
No entanto, a presença ampliada da crítica digital, embora tenha democratizado o debate e multiplicado a possibilidade de reflexão sobre produções audiovisuais a partir de diferentes vozes e pontos de vista, também trouxe consigo um efeito colateral de gosto amargo. Se a modernidade nos possibilita o acesso a informações rápidas, ela, de forma indireta, também faz com que o pensamento crítico seja transformado em produto instantâneo. Mas o tempo de cada uma dessas frentes é diferente. Sempre foi. Afinal, o tempo da análise e de sua elaboração não é o mesmo da postagem e do engajamento via likes e comentários. Porém, no imediatismo do dia a dia, esses tempos se fundem — e é justamente nesse descompasso que a crítica corre o risco de se esvaziar.
Quando comecei minha carreira como crítica de cinema, em 2015, o Instagram era uma rede social totalmente focada em fotos. Os reels não existiam e o TikTok ainda nem era uma realidade próxima. Olhando para trás, percebo que não só eu, mas o mercado como um todo, operava num ritmo diferente. Hoje, vejo que a pressa tomou o lugar da paciência e há uma fronteira muito nebulosa relacionada ao que é ser jornalista, criador de conteúdo ou influenciador, o que só confunde mercado e profissionais.
Nesse cenário, a crítica de cinema, tradicionalmente ligada ao campo da reflexão, também começou a disputar espaço com conteúdos cada vez mais rápidos, como dicas, listas e recomendações instantâneas. A partir da pandemia, esse movimento se intensificou: a busca por entretenimento cresceu, assim como a demanda por respostas imediatas sobre o que assistir. O pensamento elaborado foi sendo empurrado para a margem, enquanto a urgência se tornou regra. Para se manter em evidência, ganha (em likes e reconhecimento) quem produz primeiro — no cinema, a corrida do conteúdo começa ainda entre os créditos do filme e a saída da sala de exibição.
A crítica segue existindo porque ainda há quem queira ir além da escolha do que assistir. O pensar cinema é um belo exercício que transcende a arte.
A partir dessa lógica e da ressignificação do consumo de conteúdo crítico, um movimento curiosíssimo começou a acontecer. Nos últimos anos, veículos tradicionais acabaram dedicando menos espaço à cobertura crítica dos diversos festivais de cinema que ocorrem em todo o país, enquanto veículos independentes se empenham cada vez mais na produção de vídeos e textos nesse tipo de evento tão importante para a análise fílmica. Isso, infelizmente, é reflexo da precarização do jornalismo e do crescimento do trabalho freelancer, enquanto a quantidade de repórteres nas redações diminui. Torna-se cada vez mais raro enviar um profissional para um festival, que dura em média uma semana, para que produza críticas diárias. Do ponto de vista operacional, o mesmo profissional pode produzir o dobro de conteúdo nesse meio tempo se estiver na redação. É por isso que os jornalistas independentes (que, em sua maior parte, bancam do próprio bolso todos os gastos desse tipo de cobertura) estão fazendo a palavra da crítica circular na internet e mantendo-a em evidência com respeito e talento.
Mais do que nunca, é preciso diferenciar análise de indicação. Uma crítica em vídeo de cinco minutos não se equivale a um story no Instagram comentando a estreia mais aguardada da semana. Sem entrar no mérito da relevância de cada formato, é nesse ponto que as figuras do crítico e do criador de conteúdo podem parecer semelhantes… Mas não são. É óbvio que críticos também produzem conteúdo para redes sociais e criadores de conteúdo exercem a crítica. Ainda assim, há uma distinção bem clara: a crítica propõe opinião e interpretação, enquanto a indicação se concentra na recomendação imediata do que assistir.
Reconhecer essa diferença é cada vez mais essencial para valorizar o papel da crítica, que envolve expandir nossas perspectivas, propor novas camadas de interpretação e treinar nosso olhar para além do óbvio. Felizmente, a crítica segue existindo porque ainda há quem queira ir além da escolha do que assistir. O pensar cinema é um belo exercício que transcende a arte. Afinal, filmes são perfeitamente capazes de conversar com quem somos, com quem fomos e até com quem queremos ser, como fizeram Ainda estou aqui, O agente secreto, e tantas outras produções nacionais recentes. Em uma sociedade moderna marcada pela velocidade, é bom desacelerar de vez em quando. E tenho certeza de que a crítica de cinema continuará cumprindo seu papel para quem considera a reflexão como algo fundamental.
Barbara Demerov é jornalista, crítica de cinema e apresentadora. Em 2015, criou o Cinematecando. Foi repórter e crítica do AdoroCinema entre 2018 e 2021, no qual cobriu lançamentos e festivais, como Berlinale, Olhar de Cinema e Mostra SP. De 2021 a 2024, assinou a coluna Filmes e Séries na revista VEJA São Paulo. Integra a ABRACCINE e é votante do Globo de Ouro. Apresenta o podcast 1 Livro, 1 Disco, 1 Filme ao lado de Diego Olivares. Foi apresentadora da transmissão do Oscar 2025 no Terra Brasil. Escreve para veículos como Folha de S.Paulo, Revista Velvet, Forbes Life e BRAVO!.
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