A história do rock continua a ser escrita por diferentes gerações 

13/08/2026

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Desde que se consolidou como expressão musical e cultural, na década de 1950, o rock atravessa gerações por meio de sucessivas transformações. No Sesc Thermas do Rock, festival que ocorreu em Presidente Prudente, interior de São Paulo, esse percurso ganhou forma no encontro entre artistas que representam diferentes momentos da música brasileira – de Wanderléa e Tony Tornado a Tihuana e Terno Rei, passando por Krisiun e Toni Garrido – e em um público no qual convivem fãs antigos, novos ouvintes e famílias inteiras.  

Ao reunir essas trajetórias em uma mesma programação, o projeto favorece a troca de repertórios e mostra como a história do gênero pode continuar a ser construída. 

Isso porque, em seu percurso, o rock sempre incorporou influências, originou vertentes e estabeleceu relações com os contextos sociais, culturais e tecnológicos de cada período. Essa capacidade de renovação contribuiu para sua permanência na formação musical de diferentes gerações. 

A programação do festival coloca essas experiências em diálogo. Artistas de épocas distintas dividem o palco e apresentam ao público diferentes perspectivas sobre a história do gênero. O rock surge, assim, como uma produção cultural em movimento, alimentada pelas memórias de quem acompanhou parte dessa trajetória e pelas novas formas de criar, ouvir e compartilhar música. 

A formação dos próprios artistas ajuda a compreender essa circulação. O primeiro contato com o rock, muitas vezes mediado pelo convívio familiar, soma-se às possibilidades de acesso proporcionadas pela tecnologia vigente. São caminhos construídos entre referências herdadas, descobertas individuais e repertórios ampliados ao longo do tempo. 

O grupo de indie rock Terno Rei, nascido em 2010, em São Paulo, ilustra esse movimento. Os integrantes destacam as referências musicais compartilhadas no ambiente familiar, a influência da MTV durante a adolescência e, posteriormente, o papel da internet na ampliação de seus repertórios.  

“Eu comecei [a ouvir rock] bem criancinha, com 7 ou 8 anos, por meio da MTV. Eu gostava muito de Aerosmith e depois passei para Nirvana. Era uma época antes da internet e a molecada toda gostava muito daquelas músicas. E eu era um deles”, conta o vocalista Ale Sater.  

Enquanto isso, os guitarristas Bruno Paschoal e Greg Maya recordam os primeiros passos no rock ouvindo discos com os pais. “Minhas primeiras lembranças são no carro do meu pai, ele botava CD, eu ficava vendo as capas. Ele escutava muito Led Zeppelin, Beatles, Pink Floyd… essas coisas bem de pai, assim”, conta Greg.  

“Meu pai curtia rock progressivo, Jethro Tull, umas paradas diferentes. E depois veio a MTV, que me moldou muito na adolescência ao ver, de madrugada, clipes da Street Bulldogs e Garage Fuzz, e começar a descobrir umas bandas diferentes, nacionais inclusive”, relembra o baterista Luis Cardoso. 

Ao refletirem sobre o percurso da banda, associam sua permanência à produção artística constante e à circulação por festivais, reconhecidos como espaços de difusão da música e de aproximação do público com novos artistas. 

“Então, voltar a ter esse movimento de festivais com diferentes estilos e bandas que ainda não são tão conhecidas, e ver as pessoas interessadas em conhecer esses artistas ao vivo, e não só pela internet, é uma coisa que, nos dias de hoje, consideramos supervaliosa”, afirma Bruno Paschoal. 

O mesmo movimento aparece do outro lado do palco. Repertórios passam a integrar as relações familiares, são compartilhados entre pessoas de diferentes idades e encontram novos públicos. 

Na experiência da banda Tihuana, essa renovação tornou-se ainda mais evidente durante a turnê que celebra os 25 anos de seu primeiro disco. O resultado é um público em constante transformação, com pessoas de diferentes idades compartilhando a mesma trilha sonora. 

“A gente está revendo fãs que vêm falar com a gente e tinham 11, 14 anos quando nos ouviam, e agora estão ali com o filho no show”, conta o baixista Román Laurito.  

Para o vocalista Egypcio, esse movimento também é resultado da presença da banda na internet. “As redes sociais trouxeram novos fãs e cada show que uma galera nova nos ouve acaba renovando o nosso público.” 

A programação do Sesc Thermas do Rock também coloca lado a lado artistas que representam diferentes momentos da música brasileira. Saindo de Tihuana e Terno Rei, tem Wanderléa e Os Tornados, que apresentam perspectivas complementares sobre essa relação entre permanência e renovação.  

A cantora, representante do movimento da Jovem Guarda e agora com 82 anos, ressalta a importância da convivência entre artistas de épocas distintas proposta pelo festival. “É maravilhoso pensar no passado e no presente juntos. A juventude não conhece toda a turma que veio antes, e a gente reverencia essa novidade toda, porque tem muita gente maravilhosa precisando de espaço”, destaca. 

Enquanto isso, a parceria de Tony Tornado com o filho Lincoln mostra como a transmissão de referências também acontece dentro das famílias. Tony, um dos precursores da black music e da afirmação racial no país, hoje com 96 anos segue com energia nos palcos ao lado do filho, de 41 anos. “Eu estou passando o cetro para ele, porque estou parando, e o Lincoln é que vai dar continuidade a tudo isso”, diz Tony.  

“Quando eu paro para pensar que o meu colega de trabalho é meu ídolo e, junto a isso, é meu pai […] É muita representatividade para o meu povo, é muita representatividade musical. E aí é uma responsabilidade com uma grande mistura de prazer e de orgulho”, revela Lincoln. 

Aquilo que se observa no palco também se repete na plateia. Referências musicais compartilhadas entre gerações passam a integrar vivências familiares e criam outras formas de relação com o rock. 

A fisioterapeuta Sara Bernardo da Rocha conta que conheceu o gênero ainda na infância, ouvindo Pink Floyd e Beatles em casa com os pais. Hoje, frequenta o festival de Presidente Prudente ao lado da família, mantendo a música presente no cotidiano dos seus. 

“Hoje eu vim com meu marido, com a minha filha e com amigos. A minha filha está inserida nisso desde neném. A gente gosta de escutar música alta no carro e cantar junto. Sempre esteve tudo muito inserido em família”, destaca. 

Ao aproximar artistas e públicos de diferentes gerações, o Sesc Thermas do Rock mostra que a permanência do gênero está ligada à sua capacidade de adquirir novos sentidos a partir de outras experiências de criação, escuta e convivência. O festival revisita uma trajetória consolidada enquanto abre espaço para que ela siga adiante. É nesse encontro entre memória, descoberta e circulação de repertórios que a história do rock continua a ser escrita. 

Texto: Livia Muchiutti 
Edição de texto: Thiago Ferri 
Fotos: Gasalucinação, Maila Alves e Gustavo Castellon
Vídeo: Davison Alvares, Renan Cantuario e Roberto Maty 

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