
A experiência de ir ao cinema, assim como muitos momentos aparentemente corriqueiros que vivemos todos os dias sem pensar no arranjo complexo que existe por trás deles, é um fruto do cuidado. Um cuidado feito por muitas mãos e cabeças que, no caso do cinema, necessariamente vem acompanhado de persistência, capricho e, quase sempre, de uma boa dose de obsessão.
Quem senta na poltrona de uma sala de cinema quase sempre esquece que o que está sendo projetado na telona, para além do monumental esforço dedicado à produção do filme, parte de um objeto que foi transportado até ali de outro lugar, seja um HD com arquivos digitais, pouco maior que um telefone celular, ou estojos com rolos duplos de filme pesando cerca de três quilos cada um — no caso da película, vale destacar que um longa-metragem com 2h de duração ocupa seis estojos grandes, pesando cerca de 18 quilos no total.
Há poucas salas de cinema atualmente em São Paulo preparadas para projetar filmes em película, e o CineSesc e a Cinemateca Brasileira são duas delas. As duas instituições, que coincidentemente completam 80 anos de atividades em 2026, se reúnem a partir de 10 de novembro em uma programação conjunta que celebra o cinema e o trabalho de preservação da memória audiovisual brasileira. As atividades passam pelo CineSesc, Cinemateca Brasileira, Sesc Santos e Sesc Digital, com sessões de cinema, oficina, palestras, mostra de filmes online e um passeio pela história dos edifícios e das regiões onde ficam o CineSesc e a Cinemateca Brasileira.
Visitamos a Cinemateca Brasileira no final de outubro para acompanhar os cuidados necessários com a preservação, o armazenamento e a disponibilização de filmes em película a outras salas de cinema, como é o caso de Garotas do ABC, longa de Carlos Reichenbach (1945-2012) que será projetado em película 35mm (o número é a medida da largura desse filme, ou seja, 3,5cm) no CineSesc, gratuitamente, às 20h do dia 10/11.
Ao entrarmos no Laboratório de Imagem e Som, um grande galpão branco localizado nos fundos da Cinemateca Brasileira, a primeira coisa que vemos em perspectiva é uma fileira de mesas enroladeiras, isto é, as superfícies onde os carretéis de filmes são enrolados e desenrolados para fins de inspeção da película, limpeza, restauração e preparação dos rolos para empréstimos.
Fomos recebidos pela revisora de filmes Leticia Yamada, que nos explica que os estojos com rolos ficam armazenados em outro local, o depósito de matrizes da Cinemateca, que possui temperatura e umidade controladas. “Nosso objetivo é que, armazenando esses filmes corretamente e em condições ideais, eles possam ‘viver’ o maior tempo possível”, afirma. Quando ocorre a solicitação de empréstimo de um filme, os estojos são retirados do depósito e levados até uma antecâmara, onde as películas passam por uma adaptação de temperatura.
Após algumas horas, já em temperatura ambiente, os rolos são levados para o Laboratório de Imagem e Som, onde são analisados em uma mesa enroladeira, carretel por carretel, para conferir se o material tem algum dano físico-químico que possa comprometer a exibição — muitas películas passam por um processo natural de acidificação quando guardadas, que pode deixar os fotogramas cristalizados e com um cheiro característico de vinagre.
Por fim, depois de devidamente prontos para a exibição, os estojos ficam sob os cuidados do departamento de Expedição, que é responsável pela logística do traslado desses materiais — envoltos em sacos brancos e acomodados em caixas. Todo aquele processo de análise dos fotogramas nas mesas enroladeiras — que podem ser movidas a manivelas ou motores — se repete quando os filmes voltam à Cinemateca, ou seja, o cuidado com essas preciosidades é redobrado por ali. Eis, afinal, a essência de uma cinemateca: preservar, restaurar, duplicar, catalogar e disponibilizar seu acervo de filmes — e também de materiais não-fílmicos, como livros, documentos e equipamentos — para outros exibidores e para o público.
Um processo de cuidado, por fim.
Por Fabio Rigobelo, jornalista, relações públicas e produtor de conteúdo, com passagens por veículos como Folha de S.Paulo, Portal R7 e Portal iG, e instituições como Galeria Millan, Museu de Arte Moderna de São Paulo, Theatro Municipal de São Paulo e Fundação Osesp.
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