Ano novo, ano todo

05/01/2026

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Diversidade de datas e de festejos marca rituais de virada de ano em diferentes povos e culturas, como o Ano Novo Chinês que também é festejado na cidade de São Paulo, no bairro da Liberdade (foto: Paulo Pinto/EBC)

Leia a edição de Janeiro/26 da Revista E na íntegra.

POR MARINA PEREIRA

A época que marca a passagem de Ano Novo como costumamos celebrar foi criada em 46 a.C., por um decreto do líder romano Júlio César, que fixou 1º de janeiro em referência ao mês do antigo deus romano Jano, considerado o protetor das entradas e saídas, dos inícios e dos finais. Essa celebração se manteve com a transição para o calendário gregoriano, utilizado até hoje.

O simbolismo que envolve o início de um novo ciclo também permeia outras culturas que celebram essa passagem de tempo em datas diferentes ao longo do ano. Para os povos Guarani Mbyá, o Ara Pyaú (“tempo novo”, no idioma guarani), que acontece entre agosto e outubro, está relacionado à passagem cíclica da natureza e a um momento de renovação espiritual. Já o Diwali, conhecido como Festival das Luzes nas comunidades hindus, é festejado entre outubro e novembro, marcando a vitória da luz sobre a escuridão. Conheça cinco culturas que comemoram o rito anual de passagem de ciclo de maneiras distintas e em datas diferentes.

Ano Novo Chinês
Celebração mais importante das culturas asiáticas, o Ano Novo Chinês, também conhecido como Festival da Primavera ou Ano Novo Lunar, ocorre durante os meses de janeiro e fevereiro em países como China, Vietnã, Japão, Malásia, Filipinas, Indonésia e Taiwan. Seu significado está ligado à família, purificação, sorte e renovação espiritual. As festividades duram 15 dias e obedecem aos ciclos da lua, encerrando com o Festival das Lanternas. Cada novo ano é regido por um dos 12 animais do zodíaco chinês que influenciam a energia de cada período. Segundo o calendário chinês, 2026 será o ano do Cavalo, símbolo de movimento, coragem, entusiasmo e energia expansiva. “Entre os principais rituais estão a limpeza da casa para expulsar o mau agouro; um grande jantar de reunião familiar, considerada a noite mais importante do ano; oferendas aos ancestrais; decorações na cor vermelha, além de fogos de artifício e danças tradicionais, como a do Leão e do Dragão que, segundo a lenda, eram utilizadas como estratégia para derrotar o monstro Nian, uma criatura que atacava aldeias no inverno e que temia o vermelho, o barulho e a luz”, relata Shifu Luis Mello, um dos mestres do Templo Lohan, com sede em São Paulo e um dos espaços que realizam o Ano Novo Chinês na cidade. 

Templo Lohan
Rua Conselheiro Furtado, 445, Liberdade, São Paulo-SP 
templolohan.com

Entre agosto e outubro, celebra-se o Ara Pyaú, que na língua guarani significa “tempo novo” (foto: Leandro Karaí Mirim / Acervo MCI).

Ano Novo Guarani Mbyá
O calendário guarani está ligado à trajetória da lua e segue as transformações da natureza. Enquanto o conceito de tempo no calendário gregoriano é linear, para os Guarani ele é cíclico, regido pelas mudanças físicas e espirituais. Ara Pyaú, na língua guarani, significa “tempo novo” e simboliza um novo ciclo da natureza, um período de fortalecimento e renascimento. Durante esse processo são realizadas colheitas de milho, batata, mandioca, feijão, amendoim, respeitando os ciclos da lua. Realizam-se também ritos religiosos como os batizados de crianças com erva mate e a indicação de nomes sagrados, batismo dos alimentos e consagração das sementes. As comemorações ocorrem entre agosto e outubro, com rituais de música e dança. “No começo de agosto iniciamos a cerimônia do Ara Pyaú fazendo comidas tradicionais, sagradas. É uma forma de celebrar nossos ancestrais”, explica Irene Jaxuka Mirim, da aldeia Tekoá Yvy Porã, na Vila Jaraguá, zona Oeste da cidade, membro do Conselho Indígena Aty Mirim (gestor parceiro do Museu das Culturas Indígenas). Em São Paulo, o Museu e aldeias como a Tekoá Yvy Porã promovem vivências abertas ao público durante a celebração.

Aldeia Tekoá Ivy Porã
Estr. Turística do Jaraguá, Vila Jaraguá. São Paulo-SP
instagram.com/yvyporajaragua/

O Festival das Luzes, ou Ano Novo Hindu, simboliza o triunfo da luz sobre as trevas, e é festejado entre outubro e novembro (foto: Ramakrishna Vedanta Ashrama/Divulgação).

Ano Novo Hindu
Conhecido como Diwali ou Festival das Luzes, o Ano Novo Hindu é uma celebração que simboliza a vitória espiritual do dharma sobre o adarma, ou seja, da luz sobre as trevas, do bem sobre o mal e do conhecimento sobre a ignorância. Diwali significa uma fileira ou série de luzes: uma junção das palavras sânscritas “dipa” (luz, aquilo que ilumina) e “wali” (fileira ou extensão). Celebrado durante cinco dias, entre a segunda quinzena de outubro e a primeira quinzena de novembro, coincide com a lua nova (Amavácia), de acordo com o calendário lunar hindu, e serve como um lembrete para os seguidores do hinduísmo manterem seu dharma, a sua luz, na vida cotidiana. O primeiro dia é conhecido como Dhanteras ou Yama Deepam. Neste dia, os hindus limpam suas casas e instalam diversas lamparinas. As portas são decoradas com desenhos conhecidos como “rangoli”, feitos de pós coloridos, arroz e pétalas de flores. O auge do festival acontece no terceiro dia, quando essas lâmpadas são colocadas nos parapeitos de templos e casas, enquanto outras são colocadas à deriva em rios e córregos. Para o monge Swami Tapoyajnananda, da Ordem Ramakrishna do Centro Ramakrishna Vedanta Ashrama, “esse é um momento para refletir sobre a luz interior e buscar o crescimento espiritual”. Em São Paulo, templos hindus e centros culturais, como o Vedanta Ashrama, realizam apresentações e rituais ao longo do ano.

Centro Ramakrishna Vedanta Ashrama
Largo Senador Raul Cardoso, 204 e 146, Vila Clementino. São Paulo-SP
vedanta.org.br

Ano Novo Judaico 
Uma das datas mais importantes do calendário hebraico, o Ano Novo Judaico é a festa que marca a criação divina de Adão e Eva. Para os judeus, a festa de Rosh Hashaná, em tradução literal, “cabeça do ano”, é um tempo de renovação espiritual. “Celebrado nos dias 1º e 2 de Tishrê, o primeiro mês do calendário judaico, em geral em setembro, segundo a tradição rabínica, é o período em que judeus participam de serviços religiosos especiais nas sinagogas, recitam orações, ouvem o toque do shofar (instrumento de sopro feito do chifre de carneiro) e refletem sobre suas ações e relacionamentos no ano anterior”, detalha o Rabino Uri Lam, da Congregação Israelita de São Paulo Templo Beth-El. Nesse período, os costumes culinários são marcados principalmente por alimentos doces, como a maçã com mel, o Chalá Agulá, pão trançado, moldado em formato redondo; a romã, que simboliza fartura e fertilidade; a tâmara, que representa a doçura da vida que se almeja para o ano; e a cabeça de peixe, um símbolo da esperança no comando do próprio destino. Na capital paulista, a comunidade judaica celebra o Rosh Hashaná desde o início do século 20, em sinagogas e centros culturais, como o Clube A Hebraica. 

A Hebraica
Rua Hungria, 1000, Pinheiros. São Paulo-SP
ahebraica.org.br

Outra tradição do Shogatsu, o Ano Novo japonês, é socar o arroz (símbolo de bençãos e boa fortuna) no pilão (foto: Luci Judice Yizima).

Ano Novo Japonês
Celebrado também em 1° de janeiro, o Shogatsu, como é conhecido o Ano Novo japonês, é o feriado mais importante para a comunidade nipônica. As tradições desse dia incluem decorar a casa com elementos relacionados a práticas espirituais. O Kagami-mochi é uma decoração tradicional, normalmente colocada sobre a mesa de jantar. Composta por dois bolos feitos de arroz (mochi), um sobre o outro em um pedestal, com uma laranja de sabor azedo (daidai) no topo. Acredita-se que o arroz conserva o espírito puro, trazendo bênçãos e boa fortuna. Outro elemento é o Shimenawa, uma corda trançada feita de palha de arroz ou cânhamo, que serve para demarcar um espaço sagrado. Colocado nos portões das casas, outro elemento marcante é o Kadomatsu. Feito a partir da junção de galhos de pinheiro, talos de bambu e, muitas vezes, flores de ameixeira, destina- -se a dar as boas-vindas aos espíritos ancestrais, além de chamar longevidade, prosperidade e perseverança. Desde os anos 1910, comunidades japonesas no bairro da Liberdade organizam cerimônias, como o Motitsuki Matsuri, ou o Festival do Bolinho da Prosperidade. Realizado pela Associação Cultural e Assistencial da Liberdade (ACAL) desde 1976, o evento, que está na 52ª edição, expressa gratidão por todas as dádivas do ano que se encerra, e deseja saúde, paz e harmonia para o ano que se inicia. Como há o fuso horário, à meia-noite do dia 31/12 no Japão corresponde ao meio-dia de São Paulo, quando o Festival do Motitsuki celebra o Ano Novo na cidade.

Festival Motitsuki Matsuri
Praça da Liberdade África-Japão, Liberdade. São Paulo-SP
instagram.com/acal_liberdade_oficial/

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