
Foto: Fernanda Luz
O espetáculo brinca com o duplo sentido de “borda”: o limite que divide e o ato de bordar. De que forma essa dualidade aparece no palco?
A palavra “borda” vem do verbo “bordar”, que significa enriquecer, realçar, elaborar. Pode também significar fronteira, limite, periferia. Em sentido figurado, pode ser imaginar, fantasiar. Cada intérprete imaginou uma dança para essa peça que, paradoxalmente, se revela uma obra coletiva. Somente juntos os intérpretes podem realizar esse trabalho.
Num mundo cada vez mais erguido por muros, como a dança pode criar, no palco, um território acolhedor e sem donos?
Não acredito que a dança, por si só, possa fazer isso, nem no palco nem fora dele. São as nossas ações como cidadãos que podem se contrapor às barreiras presentes no Brasil e no mundo. Racismo, misoginia e outras formas de violência não serão transformadas apenas pela arte, mas talvez a arte possa abrir espaços de sensibilidade e reflexão.

A dança relaciona o “bordar” com a capacidade de fantasiar: qual o papel da imaginação e do sonho neste trabalho para encarar os desafios do presente?
Talvez a imaginação e o sonho não possam, por si só, responder aos desafios do presente, mas podem criar um momento de suspensão, um espaço de respiro. Um lugar onde corpos diversos podem coexistir, experimentar outras relações e imaginar, ainda que por um instante, um mundo menos marcado pelos muros e mais atravessado pelos encontros.
Lia Rodrigues é criadora do espetáculo Borda e fundadora da Lia Rodrigues Companhia de Danças.
Criada pela Lia Rodrigues Companhia de Danças, a coreografia nasceu no Centro de Artes da Maré, no Rio de Janeiro (RJ), e foi tecida paciente e laboriosamente como um lugar poroso de alteridades fluidas – um bordado no qual as margens se movem, flutuam e dançam. Em português, a palavra “borda” vem do verbo bordar, que significa enriquecer, realçar, elaborar. Também pode se referir à fronteira, margem, barreira, linha de demarcação – aquilo que separa. Há, em cena, bordada nos espaços intermediários dos nove corpos que dançam, a ideia de fronteiras geográficas e políticas, às vezes materializadas em muros, arames farpados, portões ou postos de controle. Em muitos casos, essas fronteiras marcam zonas de oposição e podem distinguir grupos e povos, humanos e não humanos, e estabelecer territórios. Quem tem permissão para atravessar?
Ficha técnica
Criação: Lia Rodrigues
Em colaboração com: Leonardo Nunes, Valentina Fittipaldi, Andrey da Silva, David Abreu, Raquel Alexandre, Daline Ribeiro, João Alves, Cayo Almeida e Vitor de Abreu
Assistente de criação: Amália Lima
Dramaturgia: Silvia Soter
Colaboração artística e imagens: Sammi Landweer
Design de iluminação: Nicolas Boudier
Assistentes de iluminação: Magali Foubert e Baptistine Méral
Diretor técnico/Brasil: Jimmy Wong
Assistente técnico: Matheus Espessoto
Trilha sonora: Miguel Bevilacqua (a partir de gravação da Missão de Pesquisas Folclóricas idealizada pelo escritor e intelectual Mário de Andrade (1938)/ Trecho de “Amor Amor Amor”, domínio público, repertório do “Cavalo Marinho”, interpretada por Luiz Paixão.)
Mixagem e masterização: Ronaldo Gonçalves
Produção/difusão: Colette de Turville
Assistente de produção: Astrid Toledo
Produção Brasil: Corpo Rastreado – Gabi Gonçalves e Leo Devitto
Secretária/administração: Gloria Laureano
Apoio logístico Centro de Artes da Maré: Sendy Silva
Professores: Amália Lima, Leonardo Nunes, Valentina Fittipaldi e Andrey Silva
Figurinos: Lia Rodrigues Companhia de Danças
Estagiária: Cecília Carvalhosa
Costureira: Antônia Jardilino de Paiva
Agradecimentos: Thérèse Barbanel, Corpo Rastreado, Inês Assumpção, Luiz Assumpção, Diana Nassif, equipe do Centro de Artes da Maré e Jacques Segueilla
Dedicado a Max Nassif Earp
Produção: Lia Rodrigues Companhia de Danças
Coprodução: Kunstenfestivaldesarts – Bruxelles / Maison de la danse / Pôle européen de création, en soutien à la Bienal de Lyon / Chaillot – Théâtre National de la Danse – Paris / CENTQUATRE-PARIS / Festival d’Automne à Paris / Wiener Festwochen – Wien / La Bâtie – Festival de Genève – Comédie de Genève / Romaeuropa – Rome / PACT Zollverein – Essen / One Dance Festival – Plovdiv / Theater Freiburg / Muffatwerk – Münich / Passages Transfestival – Metz / Festival Perspectives – Saarbrücken / Le Parvis scène nationale Tarbes – Pyrénées / Tanz im August / HAU Hebbel am Ufer – Berlin / Théâtre Garonne, scène européenne – Toulouse / Le Lieu Unique, Scène nationale de Nantes (en résidence à La Libre Usine)
Com o apoio de Fondation Ammodo, Redes da Maré e Centro de Artes da Maré
Lia Rodrigues é artista associada do teatro CENTQUATRE-PARIS e da Maison de la danse – Pôle européen de création, em parceria com a Biennale de la danse de Lyon, na França.
O espetáculo Borda foi apresentado nos dias 8 e 9/09 às 15h, no Teatro Municipal Braz Cubas, em Santos.
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