Caio Bonfim: vocação para o movimento

02/03/2026

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Atleta que conquistou a medalha de prata nas Olimpíadas de Paris 2024 reconhece o crescimento da popularidade da marcha atlética e o legado para as próximas gerações (foto: Alexandre Loureiro / COB)

Leia a edição de Março/26 da Revista E na íntegra

POR MARINA PEREIRA

Caio Bonfim, medalhista olímpico da marcha atlética, não vê problema em comparar a modalidade esportiva com uma caminhada rápida para ir ao banheiro. Ele reconhece, com bom humor, os desafios de ser um marchador. No início da carreira, enfrentou o preconceito de quem ainda não entendia muito bem
a modalidade, que é um meio-termo entre caminhada e corrida. 

O brasiliense de Sobradinho (DF) cresceu em uma família que vive e trabalha pelo esporte. Filho de duas referências do atletismo brasileiro, é treinado pelo pai, João Sena, corredor e treinador de atletismo; e por sua mãe, Gianette Sena Bonfim, uma marchadora aposentada, oito vezes campeã mundial.

Bonfim estreou na carreira olímpica em Londres 2012 e também participou das três Olimpíadas seguintes, ganhando a medalha de prata na última, em Paris 2024. O pódio mais recente foi do Mundial de Tóquio 2025, em setembro do ano passado, em que conquistou o segundo lugar na prova de 35 km. Tem planos de disputar as próximas Olimpíadas, em Los Angeles 2028.

Neste Encontros, ele reflete sobre a sua trajetória profissional ao lado da família, sobre a popularidade dessa modalidade esportiva, principalmente após a conquista da medalha olímpica, além do seu processo de trabalho, que envolve treinos diários. Casado e com três filhas, ainda relata o desafio de conciliar a rotina de atleta com a família, mas garante que a sua melhor versão é estar em movimento.

PRIMEIROS PASSOS
Sempre fui aquela criança inquieta. Dei trabalho na escola, tinha muita energia. Sou fruto de dois atletas. Foi nesse contexto do esporte que cresci. Cheguei a fazer karatê, natação e futebol, esporte pelo qual me apaixonei, e joguei dos 5 aos 16 anos. A minha formação esportiva, inclusive, veio do futebol, da formação de time, do coletivo. Joguei nas categorias de base do Brasiliense e do Gama, times profissionais do Distrito Federal. E usava o atletismo para melhorar meu condicionamento físico no futebol. Quando estava com 15 anos, fiz um teste de cooper [preparo físico que mede a resistência cardiovascular de um indivíduo a partir da distância máxima percorrida em doze minutos]. Fiz 3.800 metros em doze minutos de prova, um ótimo resultado. Queria chamar a atenção do meu pai, que me incentivou a fazer um teste na marcha atlética. Nessa brincadeira, comecei a me destacar. Tudo foi sempre muito orgânico na minha trajetória atlética. Desde o dia em que eu entrei numa quadra e me movimentei, eu falei: “Eu quero isso para minha vida”.

EM FAMÍLIA
Meus pais influenciaram totalmente minha vida profissional. Meu pai, João Sena, foi corredor. Se formou em Educação Física e se profissionalizou como treinador de atletismo, quando conheceu minha mãe, também atleta [Gianetti Sena Bonfim, oito vezes campeã brasileira da marcha atlética]. Eles fundaram um clube de atletismo em 1990, o Centro de Atletismo de Sobradinho – DF (CASO) [projeto social que trabalha com crianças e jovens em esportes de alto rendimento, e já formou atletas olímpicos como Gabriela Muniz, Max Batista e Elianay Barbosa], cidade onde moramos. Meu pai sempre treinou grandes atletas, eu sou o sexto atleta olímpico treinado por ele. Já treinou medalhista em Pan-americano, a primeira campeã brasileira da São Silvestre. Para mim, é um privilégio estar trabalhando com ele e eu, desde cedo, fui fazendo bons resultados. O meu pai é o cara da planilha, da organização, do treino. A minha mãe é a parte técnica, ou seja, orienta como vou fazer o movimento. Então, ela filma e me mostra para corrigir o que precisa. Ela vai para as competições, fica no posto de abastecimento, faz camping comigo. Na adolescência, essa relação foi difícil, porque sentia que precisava sempre provar que eu estava fazendo o que eu queria. E eles achavam que, se não estivessem ali, eu não faria direito. Acho que ali foi o momento mais desafiador.

MODALIDADE
A marcha atlética é a transição de uma caminhada para corrida. Se tornou muito popular na Europa, porque começou com grandes caminhadas de uma cidade para outra. Por isso que é uma marcha: uma caminhada de forma atlética. Basicamente, é caminhar rápido. Para isso acontecer, existem algumas regras. Não pode tirar os dois pés do chão ao mesmo tempo e, no primeiro contato com o solo, a perna tem que estar esticada. Os treinos são muito parecidos com os de quem faz 10 km, meia maratona e maratona. Para praticar essa modalidade, temos que nos aproximar do atletismo. Em qualquer lugar que tenha atletismo, é possível praticar um treino, pelo menos inicial, de marcha atlética. E ela tem esse poder de queimar mais caloria, tem menos impacto e não causa problema no quadril, ao contrário do que muitos pensam. Nos Estados Unidos, ela é popularmente conhecida não como esporte, mas como uma atividade física que queima caloria, chamada de pole walker, na Ásia é chamada de caminhada japonesa e na Europa, caminhada nórdica. É um esporte recomendado para cuidar da saúde.

POPULARIDADE
A marcha atlética nunca foi tão popular, mas acho que hoje as redes sociais têm ampliado essa abertura para o esporte. As mídias tradicionais antes escolhiam quais modalidades davam audiência. Agora, pelas redes sociais, o público está tendo acesso a todos os atletas que fazem provas, por exemplo. Durante as Olimpíadas de Paris 2024, a marcha atlética teve um espaço de destaque que me deixou muito feliz. Quando acabou a minha prova, minha esposa ia atualizando o meu feed do Instagram e o número de seguidores do meu perfil só ia aumentando. Eu pensei: “Caramba, tanta gente estava assistindo à marcha atlética mesmo!”. Então, acho que esses grandes resultados da época coincidiram com a popularidade do esporte. Claro que, quando algo assim viraliza, a gente ainda vê muita piada nas redes com a modalidade. Mas, os que gostam têm reconhecido esse resultado. Eu fico muito feliz de ter feito parte e ter contribuído para isso.

Para Caio Bonfim, a marcha atlética tem ganhado mais popularidade fora da mídia tradicional (foto: Gustavo Alves/ CBAt)

PROCESSO DE TRABALHO
Eu sempre falo que a paz é o princípio de um bom treino. É com esse pensamento que eu começo o dia. Em período competitivo, por exemplo, antes de Olimpíada ou Mundial, eu treino de domingo a domingo. Faço uma média de 22 a 25 km por dia. Segunda, quarta e sábado são os dias de longas distâncias, que chamamos de volume. Terça e quinta, fazemos um revezamento de treino. Tem trabalho de força, musculação, fisioterapia respiratória, fisioterapia condicional e osteopatia. Ter essa rede de apoio de profissionais me ajuda a dividir essa carga para que eu possa chegar lá pleno. O treinamento é pesado e é importante dividir com toda a equipe para que cada um, com a sua expertise, possa colaborar para bons resultados. Então, é uma vida pautada para isso. Eu estou com 34 anos, não sou mais o Caio de 20 anos, mas ainda tenho muita coisa para aprender. Eu tento sempre me permitir aprender e evoluir. Por isso que digo que meu forte é a segunda-feira, dia de recomeçar.

ALTO RENDIMENTO
Quando você começa a carreira, quer experimentar de tudo, se superar cada vez mais. Mas descobre que esse extraordinário não é sustentado todo dia. Quem pratica o esporte de alto rendimento vive desses desafios, de conflitos, de vitórias e de entender até onde é possível ir. Eu gosto sempre de dar um exemplo sobre a experiência na minha primeira Olimpíada (Londres, 2012). Eu comi uma maçã antes da prova e não falei com ninguém sobre isso, nem com o nutricionista, nem com o treinador. Comi a maçã por conta própria. E passei os últimos 10 km, dos 20 km de prova, vomitando essa maçã. Até brinco que só eu, a Branca de Neve e Adão e Eva que caímos no conto da maçã. Esse foi mais um processo de aprendizado, de entender o quão importante é seguir com o planejamento. Eu gosto de dar esse conselho. Foco é fazer o que está planejado. Fora disso, é neura.

JORNADA OLÍMPICA
Quando voltei da Olimpíada do Rio (2016) para Brasília, em quarto lugar, as pessoas começaram a me reconhecer. Ficavam buzinando e pedindo para tirar foto. Eu, podendo marchar sem me preocupar em ser xingado na rua, tive a sensação de que ganhei uma medalha que não estava na prateleira. Foi um reconhecimento para as próximas gerações, principalmente. Em Tóquio (2021), talvez tenha sido o momento mais desafiador da minha carreira. Eu estava muito bem treinado, era o 13º do mundo, mas perdi para muitos atletas de quem eu estava ganhando até então. Eu já tinha muito orgulho da minha trajetória, mas me perguntava se eu podia mais. E essa jornada cansa. Eu fui então procurar mais profissionais, dormir melhor, me alimentar melhor, obedecer melhor os profissionais que já trabalhavam comigo. E 2022 e 2023, foram anos incríveis. E, em Paris 2024, quando eu passei a linha de chegada, a sensação foi tão forte que demorou alguns dias para eu entender que era medalhista olímpico. 

ESPORTE NA ESCOLA
Infelizmente, a educação física na minha época era bola de futebol para os meninos e bola de queimada para as meninas. E hoje nem isso tem mais. Então, se tem um grande marchador, um grande jogador de vôlei ou basquete naquele espaço, talvez ele nunca descubra esse talento. Eu acho que projeto bom é o que dá oportunidade. E que o esporte tinha que estar mais presente nas escolas, públicas ou privadas, obrigatoriamente, para que as pessoas tenham oportunidades de se descobrir no esporte, assim como acontece com outras disciplinas. Em movimento, você consegue ter uma leitura do aluno diferente do que outros professores podem ter. 

O atleta Caio Bonfim esteve presente na reunião do Conselho Editorial da Revista E, no dia 29 de janeiro. A mediação do bate-papo foi de Mario Augusto Silveira, técnico da Gerência de Desenvolvimento Físico-Esportivo do Sesc São Paulo.

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