
Leia a edição de Abril/26 da Revista E na íntegra.
POR PAULA FÁBRIO
ILUSTRAÇÕES LAURA ATHAYDE
Minha querida menina,
Espero que esta carta a encontre bem, mesmo às vésperas de uma nova guerra. Porém, como li em alguns livros e vi em certos filmes, a vida teima em prosseguir perante grandes catástrofes. Talvez estejamos vivendo algo semelhante à cena na qual a orquestra toca enquanto o Titanic afunda. E se tudo estiver afundando ao nosso redor, é bom que se diga o que há para se dizer, e quanto antes, melhor.
Sendo assim, minha querida, preciso compartilhar com você uma descoberta recente. Sou uma pessoa de Humanas e acabo de compreender que a matemática é uma coisa engraçada. Veja só: quando você nasceu, eu era vinte e cinco vezes mais velha que você. Naquela época, enquanto você ainda estava no berço do hospital, eu pensava em me casar, construir uma casa de tijolos aparentes em algum interior do Brasil e ter um filho cujo nome seria Vinicius, ou Vitor, ou Henrique. Naqueles anos, o mundo era tão bonito como agora, e intratável na mesma medida. Entretanto, as calotas de gelo não derretiam como hoje, e o Perito Moreno até crescia. De minha parte, eu tinha alegria para tudo e uma esperança inexplicável no futuro. No entanto, também tinha medo do desconhecido e alguma dúvida se eu seria capaz de caminhar pelo mundo, nesse tracejado incerto que é a vida da gente.
Em meados da década de noventa — quando você veio à luz e o seu avô paterno anunciou com um sorriso raro nos lábios que você havia nascido bonita, contrariando a lógica dos bebês cara de joelho —, naquele tempo havia vagas em abundância para se estacionar o carro nas ruas de São Paulo, embora o ar da cidade já contivesse monóxido de carbono em quantidades impensáveis; salvo engano, você veio ao mundo mais ou menos na mesma época em que os catalisadores tornaram-se itens obrigatórios nos veículos nacionais. Note bem: isso não é um simples dado jornalístico ou científico, é para você saber que nem tudo está sempre perdido. A humanidade joga um jogo perigoso consigo mesma, com frequência dá dois passos pra trás e um pequeno salto pra frente, e assim caminha em círculos malucos.
Mas voltando aos anos noventa, aquele era um mundo curioso: a gente comprava ingresso na bilheteria do cinema poucos minutos antes da sessão e, assim que as portas se abriam, corríamos feito patos em busca de um bom lugar, porque as poltronas não eram marcadas. Todavia, eu não saberia dizer se preferia isso a comprar um tíquete pelo celular usando inteligência artificial. E naquela época, muito embora houvesse guerra e invasões do outro lado do oceano, não imaginávamos que o mesmo pudesse acontecer com algum país vizinho ao nosso. Antes que você me conteste, sim, eu sei, havia Cuba e o embargo. E a herança de um colonialismo que esperávamos curar brevemente, com a inocência larga e a memória estreita da juventude. Entretanto, o grande problema da minha geração era a aids. Enquanto você aprendia a andar, eu vi um amigo morrer com as tais feridas no rosto e os gânglios do pescoço maiores que duas laranjas-pera. Alguns conhecidos não quiseram carregar o caixão, com medo do contágio. O medo, assim como a matemática e o tempo, por assim dizer, também é uma abstração, mas os gânglios, esses eram palpáveis. E a vida deu alguns saltos depois disso. A minha, a sua, a do planeta. Houve a virada do milênio e um bug que não ocorreu. De repente eu deixei de ser tão mais velha que você.

Agora eu tinha trinta e cinco, e você, dez anos de idade. Seus avós já haviam morrido, seus pais estavam separados, e eu parei de falar com meu irmão (seu pai). A você, a você coube ser forte. Seu pai, meu irmão, tinha defeitos conhecidos por toda a família. Mais do que podíamos suportar. Então tive uma coragem súbita e mudei-me de endereço e telefone, sem avisar a ninguém. Na ocasião desse rompimento familiar, o país até estava bem, inflação controlada e longe do mapa da fome, apesar das Torres Gêmeas já terem desabado nos Estados Unidos e, com elas, parte da economia ocidental. Já haviam descoberto o pré-sal? Creio que não. Naquela época, pensei que nunca mais iríamos nos ver. E a nave seguiu, ligeira. Depois, acredite, a gente faz tanto aniversário que chega aos cinquenta e cinco anos num instante. Confesso, julguei, mais de uma vez, que você poderia ter saído ao seu pai. Sempre fui um pouco pessimista, é verdade. Todavia, quase sempre nossas preocupações se mostram infundadas.
Quando soube que meu irmão falecera, um gelo subiu pela minha coluna. Passaram-se vinte e cinco anos do rompimento, justamente o mesmo número de anos da minha idade quando você veio ao mundo. Vinte e cinco. Talvez seja um número auspicioso. Porque apesar da morte ser algo terrível, com ela chegou uma notícia capaz de mudar o rumo da minha vida: eu que estava sozinha no mundo, agora tinha uma sobrinha! Nunca é tarde para coisas boas acontecerem. Hoje eu tenho cinquenta e cinco anos. Você, trinta. Parece até que está me alcançando. Mas é como se toda essa conta não fizesse sentido algum e tudo começasse agora, do zero. Não deixa de ser uma artimanha matemática. Tudo do zero e eu tendo que lhe responder em atraso. Ou contar-lhe sobre coisas que você não se lembra de sua família por parte de pai. Dizer-lhe por exemplo que sua avó a amava tanto, a ponto de a carregar nos braços fracos e enfermos fazendo um esforço extraordinário, enquanto todos nós, sobretudo sua mãe, ficávamos sem respirar, com medo que você pudesse cair no chão. Seria tão bom poder lhe contar que seu avô passava tardes inteiras com você, perdendo incontáveis vezes no jogo da memória, apenas para ver o seu sorriso se abrir ao final de cada partida. Talvez fosse importante dizer que certa vez parei o carro num semáforo e lhe comprei de presente um boneco de pelúcia do Po, um personagem de desenho animado, do qual talvez você nem se lembre mais. Naquela ocasião, todos riram de mim, exceto você, que dormiu com o boneco enorme por noites a fio. Então vieram aqueles vinte e cinco anos em que eu não pude acompanhá-la até o ponto de ônibus para ir à escola, quando você atravessava sozinha aquele pontilhão ermo perto da sua casa enquanto sua mãe trabalhava. Aqueles vinte e cinco anos em que eu não vi você crescer e se tornar mais alta que eu. Não vi você ir aos shows de rock, pois eu estava no samba. E agora sinto uma vontade irreprimível de recuperar o tempo perdido. Mas talvez seja tarde para dizer tudo o que uma mulher de cinquenta e cinco anos pode falar para uma mulher de trinta.

Uma mulher de cinquenta e cinco é ávida por dar conselhos. E isso é um disparate, pois quando eu tinha a sua idade, não sabia ouvir nenhum tipo de recomendação, mas de alguma forma eu as guardava, as recomendações, pois a cada queda, eu recordava uma a uma as palavras antes proferidas, especialmente aquelas ditas por minha mãe. Por essa razão, não darei conselhos a você, direi a mim mesma o que eu gostaria de ter compreendido antes, algo como: menina, nunca permita que estraguem sua meiguice com cinismo barato; não deixe que a amargura alheia impregne o mais doce dos seus sentimentos; seja inteira com você mesma; não negocie o inegociável; viva o instante-já, sempre; pense que o mal pode lhe fortalecer; lembre-se da impermanência das coisas, da abstração do tempo; não calcule muito, apenas o necessário; sorria; não se obrigue a nada, tampouco permita que a sociedade a obrigue; seja inteira com a vida; chore; confie no passar do tempo e na clareza que isso nos traz; sempre que puder, assista ao pôr do sol com o coração limpo; cometa uma poesia de vez em quando; e um tanto de amor. Pois a vida pode ser tudo, mesmo sem garantias.
Portanto, não se demore.
Afetuosamente,
Sua tia.
Paula Fábrio é autora de Desnorteio (Patuá, 2012), que lhe rendeu o Prêmio São Paulo de Literatura. No gênero juvenil, sua obra No corredor dos cobogós (SM, 2019) foi distinguida com a láurea Orígenes Lessa de Melhor Livro Jovem, pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. O romance Casa de família (Companhia das Letras, 2024) integra as leituras obrigatórias da Fuvest (2032-2033).
Laura Athayde é quadrinista e desenhista. Seus trabalhos já circularam em diversas publicações nacionais e internacionais. Já foi agraciada com o Troféu HQ Mix e o Prêmio Angelo Agostini, além de ter sido finalista do Prêmio Jabuti de Ilustração e da Ilustrofest de Belgrado, na Sérvia. Natural de Manaus (AM), atualmente vive em Belo Horizonte (MG).
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