
Leia a edição de Março/26 da Revista E na íntegra
POR LEONARDO PIANA
ILUSTRAÇÕES DE MARCELA NOVAES
Começou feito um relógio dentro do meu peito. E foi crescendo.
Criado a cinta de couro, poeira de terra vermelha e osso roído. O pai serviu um bife grande demais no meu prato, pedaço generoso, que pro pai homem que é homem gosta de comer carne, de beber sangue de bife grosso, cru, quase, escorrendo na borda da louça. E naquela roça onde morávamos, o pai, a mãe e eu, ainda havia vacas e galinhas pra serem comidas, porcos pra serem abatidos, com seus, mais que grunhidos, gritos. De dor e de morte. Pra mim, pareciam até gritos de gente. Uma vez cheguei perto pra escutar os porcos urrando, assistir à morte dos bichos, era sujo o modo como morriam. O sacrifício. Mas isso foi outro dia.
Não gosto mais de carne, eu disse.
É uma questão de tempo, o pai sorriu, cínico.
O relógio dentro do meu peito corria anunciando a morte que se aproxima de todas as coisas vivas, me fiz de bobo, ingênuo respondi que não queria comer mais nada morrendo daquele jeito triste de morrer, que nunca mais comeria, jurei pra sempre e por Deus, Nunca, Senhor Jesus, eu juro, pra todo sempre, amém.
O pai se abaixou diante de mim com a roupa manchada de sangue, o cheiro quente dele, e tomou minha mão de filho num gesto que parecia carinho, mas não era, não. Ele não era dessas coisas.
Vai aprender a gostar, ele disse, ajoelhado no chão.
A essa altura eu já estremecia lá dentro de medo do pai, vara verde que eu era, mal tinha brotado e já me botavam pra vergar à sombra do mundo, eu sabia do que ele era capaz. A essa altura eu já imaginava castigos e dores no corpo todo de, ai, tanto apanhar, cinta estalando na bunda, carne crua, e me vinham mortes e gritos de porcos como se fossem meus gritos de –
Homem, o pai disse, você vai aprender a ser homem. Eu quis chorar, com medo de ser como ele, o pai, jeca e xucro demais, e sobretudo com medo do que iria me ensinar. Mas engoli o choro, amava aquele homem, o único que poderia – estava fadado a isso, não estava? – amar.
Era noite, os vaga-lumes piscavam sobre o brejo, a mãe guardava as galinhas. Fui atrás da Espora, sempre depois das outras, galinha boboca, e a encontrei perambulando perto do açude, Querendo fugir, é? Coloquei a Espora pra dormir no galinheiro e dei boa-noite pra ela. Em casa, fiz os deveres de matemática, ainda que os moleques falassem que só fazia todas as lições quem era trouxa, que a professora nem olhava mesmo. Outro dia levei a Espora pra escola e eles fizeram piada, disseram que aquele era um nome idiota pra uma galinha. Os moleques falavam demais, não tinha problema.
No dia seguinte, antes de ir pra aula, o pai me chamou no terreiro, sacou o facão fino mas muito pesado, que só usava pra partir ao meio as jacas do pomar, e amolou na chaira tão rápido que dava espanto nos meus olhos de menino, o pai meio disfarçando, meio exibindo a rapidez dele, a prática de homem com faca. Me pediu pra segurar com cuidado. Passei o dedo pela lâmina pra sentir o corte, observei delicado a arma, palmas abertas, imensa pra mãos assim pequenas como eram as minhas, diferentes das mãos do pai, severas e enormes – mãos de homem.

É a sua vez de matar, o pai disse. Eu devia ter imaginado.
Prefiro morrer, respondi de pronto, sem pensar.
Não vi, eu juro, mas sei que o que se transformou no pai não foi só uma expressão dura, carranca esculpida de uma hora pra outra, de raiva pelo meu atrevimento. Sei disso, de uma angústia, cruel e desesperadora, que ele sabia disfarçar – como tantas outras coisas. O que doeu nele foi a pena brutal pelo que faria – tinha que fazer – em seguida.
Milho sacolejando no interior do bornal, o pai encheu a mão e fez o som – Pi-pi-pi-pí – de convocação às galinhas, ali, em volta dele, bem no meio do terreiro. E eu quase previa o que viria depois, podia prever tudo, menos aquilo, o detalhe minúsculo que me faria gelar de repente o estômago: o pai agarrou a Espora, a minha galinha, a mais besta de todas, e de joelhos esticou a Espora contra o chão, o pescoço comprido da Espora se estendendo cada vez mais, a Espora se contorcendo, e os miolos, os olhos da Espora entre os dedos daquela mão primitiva e violenta dele, a outra prendendo ao chão com firmeza o corpo todo de galinha piando, tremendo, pedindo – Solta, solta – era a minha voz ou a voz da Espora, nem sabia mais.
Corta, foi a ordem firme do pai, direta como se fosse nada. Do meu rosto de menino não escorria – como escorre agora, tantos anos depois, ao contar esta história – nem baba nem ranho nem lágrima. Eu estava muito contido, tinha aprendido a conter tudo. Nem preciso dizer que o sol, no terreiro de secar café, mas que não secava nada fazia tempo, era um inferno queimando os pés das galinhas atrás do milho, a cabeça do pai debaixo do chapéu de palha, meus olhos e o coraçãozinho de galinha – quantos já tínhamos comido, àquela altura? – da Espora.
É isso que a gente faz pra matar a fome, o pai falou. E por a gente eu soube bem o que ele queria dizer: homens.
Não quero ser homem, eu disse, mas não devia ter dito, o arrependimento veio em seguida: num impulso o pai me tomou a faca das mãos, num impulso o pai cortou o ar em direção ao pescoço da Espora estendida contra a terra, debaixo do sol, e a Espora num impulso sem cabeça, morta e muito abatida entre tantas galinhas vivas.
Não era tanto, notei, o sangue que escorria do que tinha sobrado da Espora, o corpo gordo diante da pequenina bola que virou a cabeça dela. Era mais sangue o que escorria da minha própria mão, percebi depois de muitos verões – ou talvez tenha sido um segundo apenas, porque o tempo e o calor distorciam tudo. Olhei pra palma vermelha da minha mão, aberta pelo impulso do pai, e nunca mais esqueci. Uma lâmina sacada rápido, cabo de osso, o ar rasgado, sangue pingando no chão e depois escorrendo, eu vi tudo: o pai pesado, maciço, fatídico, no meio do terreiro, sendo muito, muito homem. E vi por último, antes de a vista turvar, o sangue na terra de repente ficando frio, o pai ficando mudo, o sol ficando escuro. Me lembrei dos meninos na escola me provocando, pra dizer o quanto eu era frouxo, os cotovelos deles dobrados balançando ao lado do corpo, asas fingidas – Po-po-pó – enquanto crescia, dentro do peito, o meu coração de galinha.

Leonardo Piana é escritor, poeta e servidor público. Formado em Comunicação Social pela Universidade de São Paulo (USP). É autor dos romances Sismógrafo (Edições Macondo, 2022) — que venceu o Prêmio Cidade de Belo Horizonte, foi finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura e teve os direitos vendidos para o cinema — e Tarde no planeta (Autêntica Contemporânea, 2025), que também ganhou, em 2025, o Prêmio Cidade de Belo Horizonte. Seu primeiro livro de poemas, Escalar cansa (Senac, 2025), recebeu o Prêmio Sesc de Literatura.
Marcela Novaes é artista visual e arte-educadora. É graduada em Artes Visuais pela Universidade Estadual de Londrina, e especialista e mestranda em Arte-Educação (Faculdade Rudolf Steiner e Unesp). Suas obras compõem coleções particulares e ilustram capas de livros, álbuns musicais e revistas. Também participa de exposições nacionais e internacionais.
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