
Durante o mês de agosto, as crianças do Programa Curumim participaram de uma experiência de construção coletiva que uniu educação ambiental, bioconstrução, ciência, história e os saberes do território. Em parceria com o Coletivo Odara, de Araraquara (SP), com a educadora ambiental Flávia Fina, do Sesc Franca e com os educadores de referência da unidade, as crianças construíram um Relógio do Sol, instalado no terraço da unidade.
A experiência dialoga diretamente com o tema que atravessa o Programa Curumim em 2026: Ritmos das Existências. Ao longo do ano, as crianças são convidadas a perceber que existem diferentes tempos e ritmos no mundo: o tempo humano, o tempo das plantas, dos animais, das pedras, das águas, do céu e dos elementos da natureza. Construir um relógio que depende justamente do movimento do Sol foi uma maneira de experimentar concretamente que o tempo não está apenas nos ponteiros de um relógio, mas também nas relações entre a Terra, o céu e tudo aquilo que existe.
Uma história de Franca contada pelo Sol
A construção também estabeleceu uma relação com uma importante memória da cidade.
O Relógio do Sol instalado no centro de Franca, na Praça Nossa Senhora da Conceição, foi construído pelo frei capuchinho francês Germano de Annecy e inaugurado em 11 de abril de 1887. O monumento é um dos símbolos históricos da cidade e possui uma característica singular: trata-se de um relógio solar vertical, capaz de indicar, além das horas, informações relacionadas às estações do ano.
Décadas depois, outra figura popular de Franca ajudaria a manter essa história viva. Jubileu Ferreira dos Santos, o Jubileu do Amendoim, conhecido na cidade por seu trabalho como vendedor de amendoins, também se tornou um construtor e divulgador de relógios de sol. Segundo relatos, ainda criança, ele aprendeu a observar as horas no relógio da praça e prometeu que, quando crescesse, faria um semelhante. Cumpriu a promessa e construiu diversas réplicas, além de ensinar outras pessoas a observar e compreender o funcionamento desses instrumentos.
Assim, o relógio construído pelas crianças do Curumim também se insere nessa história de pessoas que aprenderam a olhar para o céu para compreender o tempo.
A terra como matéria e memória
Para construir o relógio, as crianças participaram de todas as etapas do processo. A estrutura foi desenvolvida a partir de uma técnica de construção com terra, utilizando materiais coletados em diferentes lugares.
As terras apresentavam diferentes cores, texturas e características. Juntas, elas passaram a representar também a diversidade de origens que compõe uma construção coletiva.
As crianças participaram da peneiragem, da separação dos materiais, da preparação e mistura da terra e da etapa de pilagem.
De maneira simples, a pilagem consiste em colocar a terra preparada em uma estrutura e compactá-la aos poucos, utilizando um pilão. A força aplicada comprime a terra, retirando espaços vazios e tornando o material mais firme e resistente. É uma técnica tradicional de construção com terra que transforma um material simples, encontrado no próprio território, em estrutura.
Nesse processo, a criança não apenas observa a construção: ela coloca a mão na terra, experimenta, mede, mistura, compara, erra, refaz e constrói.
Afinal, como funciona um Relógio do Sol?
O funcionamento é simples e, ao mesmo tempo, revela uma relação profunda entre a Terra e o céu.
O Relógio do Sol utiliza a sombra produzida pelo Sol para indicar a passagem das horas. Uma haste, chamada gnômon, projeta sua sombra sobre uma superfície marcada. Conforme o Sol aparentemente se desloca pelo céu ao longo do dia, a sombra muda de posição e indica diferentes horários.
Dessa forma, o relógio construído pelas crianças transforma o próprio movimento do céu em instrumento de medição do tempo.
É uma outra maneira de perguntar: que horas são?
Não olhando para uma tela ou para os ponteiros de um relógio, mas olhando para o Sol, para a sombra e para o movimento da Terra.
Mais do que construir um objeto, as crianças participaram da construção de um marco para o Sesc Franca. O Relógio do Sol passa a integrar o espaço da unidade como uma obra construída coletivamente pelas crianças do Programa Curumim, em diálogo com educadores, com o Coletivo Odara e com os saberes da bioconstrução.
A experiência também materializa princípios importantes do programa: protagonismo, autonomia, convivência, cuidado com o ambiente e construção coletiva do conhecimento.
Cada criança participou de uma parte do processo, mas o resultado pertence a todas. Assim como as diferentes terras utilizadas na construção, cada gesto, cada mão e cada saber se encontraram para formar uma mesma estrutura.
O relógio também permanece como convite para que outras crianças e famílias parem por alguns minutos e olhem para o céu. Para perceber a passagem da luz, o movimento da sombra e os diferentes ritmos que existem ao nosso redor.
É um objeto que marca as horas, mas também nos lembra que existem muitos modos de experimentar o tempo.
Como escreveu o pensador Nêgo Bispo, “um rio não deixa de ser um rio quando ele conflui com outro rio”.
E talvez seja isso que esse relógio conte: muitas terras, muitos saberes, muitas mãos e muitos tempos podem confluir sem deixar de ser o que são. Juntos, podem construir um novo lugar para o tempo existir.
Visite o Relógio do Sol
O Relógio do Sol construído pelas crianças do Programa Curumim agora faz parte do Sesc Franca e pode ser visitado no terraço da unidade.
Venha conhecer de perto esse marco construído coletivamente pelas crianças, observar a sombra do Sol e experimentar outra maneira de perceber a passagem do tempo.
O Sesc Franca funciona de terça a sexta, das 9h às 21h30, e aos sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h30.
Sesc Franca
Av. Dr. Ismael Alonso y Alonso, 3071 – Jardim Piratininga II – Franca/SP
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