
Com aulas virtuais e encontros em Bertioga e Franca, o Curso de Áreas Naturais Protegidas chega à 7ª edição em 2026 com o tema “Da Mata Atlântica ao Cerrado”.
Realizado pelo Sesc São Paulo desde 2019, a formação se dedica aos desafios da conservação da natureza no Brasil, à biodiversidade como patrimônio e às relações entre ambiente e sociedade. Ao longo das edições, discutimos gestão participativa, relações com comunidades, uso público das áreas naturais, conservação costeira e marinha e trilhas como espaços de educação. Essa trajetória envolveu o Centro de Pesquisa e Formação e unidades como Bertioga, Interlagos e Itaquera, com a parceria da Colorado State University. Os encontros aproximam a pesquisa científica dos conhecimentos de quem vive e trabalha nos territórios. A programação se dirige a um público diverso, que inclui estudantes, biólogos, pesquisadores, guias, monitores ambientais, proprietários e gestores de áreas protegidas, além de pessoas interessadas no tema.
Organizamos o curso em três ciclos independentes e complementares. O primeiro acontece nos dias 4, 5, 11 e 12 de novembro, com aulas síncronas pelo Zoom, das 19h às 21h. Depois, a programação segue para Bertioga, em 27 e 28 de novembro, e Franca, em 5 e 6 de dezembro. A história evolutiva do Cerrado, as mudanças na vegetação, a ecologia do fogo e as práticas comunitárias orientam os encontros.

A Mata Atlântica compreende formações florestais e ambientes associados, como restingas, manguezais e campos de altitude. O Cerrado também apresenta grande variedade: há campos, savanas e florestas em seu interior. Solo, disponibilidade de água, relevo e regime de fogo ajudam a explicar essa diversidade. O nome de um bioma, portanto, abrange paisagens que precisam ser conhecidas em suas particularidades.
Nas furnas de Pedregulho, a paisagem se aprofunda em cânions. O Parque Estadual Furnas do Bom Jesus, na região de Franca, abriga remanescentes de Cerrado e Mata Atlântica. Em Bertioga, a proteção da restinga inclui as sub-bacias dos rios Guaratuba e Itaguaré. São paisagens distintas, com perguntas próprias sobre conservação, que vamos conhecer também nas atividades de campo.
É com essa atenção às diferenças que Vânia Regina Pivello conduz a aula de abertura, em 4 de novembro, “Cerrado: evolução, fauna, flora e história”. Professora titular do Departamento de Ecologia da USP, a bióloga pesquisa a conservação das savanas tropicais, especialmente do Cerrado, além de invasões biológicas e ecologia do fogo. Em 2025, Vânia organizou, com Alessandra Fidelis, o livro Fire in the South American Ecosystems, publicado pela Springer. A obra examina os efeitos do fogo em diferentes ecossistemas sul-americanos e discute como as decisões de manejo dependem das características de cada ambiente.
Vânia também assina, com Bruna de França Gomes e outros quatro pesquisadores, o capítulo “Fire in the Cerrado”, da mesma obra. Os autores descrevem adaptações de plantas e animais ao fogo, como cascas espessas, gemas protegidas, órgãos subterrâneos desenvolvidos e a busca de abrigo em tocas. Também mostram que tanto a frequência excessiva das queimadas quanto sua ausência podem prejudicar ecossistemas do Cerrado. A história desse bioma aparece na espessura de uma casca, nas estruturas que ficam sob a terra e na vegetação que rebrota depois do fogo.

Em 5 de novembro, a aula “Contextualização, atualidades e tendências” será conduzida por Dhemerson Conciani. Ecólogo e mestre em Ecologia, Evolução e Biodiversidade pela Unesp, ele é pesquisador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) e coordena o mapeamento de degradação da vegetação nativa no MapBiomas. Seu trabalho utiliza sensoriamento remoto para acompanhar mudanças em florestas, savanas e campos tropicais.
Um levantamento do IPAM na rede MapBiomas, divulgado em 11 de setembro de 2026, registrou a perda de 7,9 milhões de hectares de vegetação secundária no Cerrado desde 1987. Trata-se da vegetação nativa que volta a crescer em áreas anteriormente desmatadas, por regeneração ou ações de restauração. Segundo o levantamento, 73% da vegetação secundária perdida foi novamente desmatada até dez anos após a primeira derrubada.
Na divulgação dos resultados, Conciani explica que uma nova supressão amplia os impactos sobre a estrutura e a diversidade do ecossistema e reduz a capacidade de a paisagem responder aos eventos climáticos extremos. A vegetação que reaparece precisa de tempo para se desenvolver; uma nova derrubada interrompe essa recuperação.
Na aula, vamos discutir políticas públicas, marcos legais e iniciativas de conservação, considerando o papel de diferentes atores sociais e as pesquisas que ajudam a orientar decisões sobre a vegetação nativa.

Em 11 de novembro, reunimos Alexandre Enout e Bruna de França Gomes na aula “Ecologia do fogo”. Vamos discutir evidências científicas sobre o papel do fogo na dinâmica dos ecossistemas e seus usos como ferramenta de manejo, proteção e sobrevivência para povos indígenas e comunidades tradicionais.
Alexandre Enout é ecólogo e gestor da Reserva Particular do Patrimônio Natural Sesc Pantanal. Ele integra a autoria de um estudo publicado na revista Environmental Science & Policy sobre as relações entre clima, incêndios e gestão dessa reserva. Conforme a apresentação do trabalho pelo Sesc Pantanal, a pesquisa destaca a necessidade de combinar dados de satélite com o conhecimento e a experiência local para avaliar as áreas queimadas e orientar as decisões de manejo.
Na RPPN Sesc Pantanal, as primeiras queimas prescritas experimentais ocorreram em 2021, em pequenas áreas, para estudar o comportamento e os efeitos do fogo. Na publicação institucional, Enout relaciona o Manejo Integrado do Fogo à restauração de áreas impactadas, à educação ambiental e à atuação com comunidades do entorno. Sua participação no curso reúne, assim, a experiência de gestão da reserva e a colaboração na pesquisa.
Bruna de França Gomes é bióloga, mestre em Ecologia e Biodiversidade pela Unesp e doutora em Ecologia pela USP. Em sua tese, defendida em dezembro de 2024 e disponibilizada em fevereiro de 2025, investigou os efeitos diretos e indiretos do fogo sobre pequenos vertebrados de áreas campestres. O trabalho reuniu uma meta-análise e pesquisas de campo realizadas entre 2019 e 2022 na Estação Ecológica Serra Geral do Tocantins.
Nas áreas campestres estudadas, as queimadas prescritas de baixa severidade não reduziram a diversidade de lagartos. A pesquisa, porém, identificou respostas diferentes conforme as espécies e os períodos analisados, incluindo uma resposta negativa de curto prazo em uma das espécies comuns. A preferência de habitat e as estratégias dos animais para lidar com o fogo ajudam a compreender essas diferenças. Os resultados se referem às condições investigadas; não permitem estender a mesma conclusão a qualquer queimada ou ambiente.
Com esses trabalhos, vamos discutir o fogo considerando sua frequência, as condições em que ocorre e os organismos que vivem em cada ambiente. O capítulo de 2025 assinado por Vânia e Bruna também aborda os usos indígenas do fogo e a busca de estratégias de manejo adequadas às diferentes condições do Cerrado.

A última aula virtual, em 12 de novembro, será dedicada às “Experiências comunitárias”, com Bárbara Loyola Doche e João Paulo Morita. Condutora de visitantes e brigadista florestal, Bárbara atua em Alto Paraíso, na Chapada dos Veadeiros. Morita coordena o Centro Especializado em Manejo Integrado do Fogo (CEMIF), do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
Bárbara é graduanda em Ciências Biológicas, e sua trajetória inclui o trabalho de brigadista voluntária no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. Em 2025, participou do painel “Do Fogo à Conservação: Áreas Protegidas em Tempos de Crise Climática”, realizado pelo Instituto Semeia, no qual abordou as relações entre os biomas e a água.
Formado em Ciências Sociais, Morita é analista ambiental do ICMBio desde 2010 e integra a equipe do CEMIF desde 2013. Seu percurso reúne a atuação em unidades de conservação e a coordenação de ações de manejo do fogo. Na aula, vamos abordar os princípios do Manejo Integrado do Fogo e o uso planejado do fogo para conservar a biodiversidade, prevenir incêndios e fortalecer práticas comunitárias, incluindo a participação na elaboração dos planos de manejo.

Em 27 e 28 de novembro, o segundo ciclo leva a discussão ao Sesc Bertioga, com o tema “Fogo, água e floresta: estratégias de manejo e conservação”. Vamos abordar as relações entre Cerrado e Mata Atlântica e a integração de conhecimentos científicos e práticas tradicionais no manejo dos ecossistemas e na conservação das águas. A conversa de abertura reúne Cristina Adams e Dauro Prado.
Professora associada da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP, Cristina atua em Ecologia Humana, com pesquisas sobre governança e manejo florestal por populações tradicionais no Brasil. Suas pesquisas abrangem a governança da restauração florestal, os sistemas socioecológicos, as unidades de conservação e as populações tradicionais. Na USP, Cristina lidera os grupos de pesquisa em Ecologia Humana de Florestas Neotropicais e Governança Florestal.
Dauro Prado participa a partir de sua trajetória caiçara na Juréia. Em depoimento publicado pelo Sesc, ele relata a organização dos moradores em defesa da permanência em seus territórios e a atuação em torno dos conhecimentos tradicionais e das práticas culturais. Com Cristina e Dauro, vamos discutir o manejo e a conservação a partir da pesquisa e da experiência de quem vive na floresta.
Dauro Marcos do Prado participou da criação da União dos Moradores da Juréia, em 1989, e da Associação dos Jovens da Juréia, em 1993. “Uma comunidade que não tem terra é uma comunidade sem identidade, sem cultura”, afirmou no depoimento publicado pelo Sesc em 2019. Seu relato situa a transmissão dos conhecimentos nas práticas cotidianas e culturais das comunidades, como a roça, a pesca e o fandango.
No dia seguinte, a visita à Trilha do Guaratuba será conduzida por Rogério Rosa e pela equipe Teiú Ecoturismo. O percurso está no Parque Estadual Restinga de Bertioga, que protege as sub-bacias dos rios Guaratuba e Itaguaré e um corredor biológico que articula ambientes marinho-costeiros, restinga e Serra do Mar. Na atividade de campo, vamos observar as relações entre a floresta e as águas em uma área protegida do litoral paulista. Rogério Rosa Jorge é caiçara de Bertioga, monitor ambiental, condutor de turismo local, remador e marinheiro. Atua em atividades de ecoturismo e educação ambiental no município, com percursos por rios, manguezais e trilhas. Na visita ao Guaratuba, participa da condução com a equipe Teiú Ecoturismo.

O terceiro ciclo acontece em 5 e 6 de dezembro, no Sesc Franca, com o tema “O Cerrado é Aqui: biodiversidade, áreas naturais e experiências comunitárias”. A programação reúne conversas e uma visita mediada ao Parque Estadual Furnas do Bom Jesus, em Pedregulho.
Na manhã de 5 de dezembro, Bárbara Pacheco e Alexandre Enout participam de “O Cerrado é Aqui: biodiversidade e caminhos para a conservação”, com mediação de Alba Regina. Bióloga formada pela Universidade de Brasília, Bárbara fundou a VerdeNovo em 2016. A iniciativa trabalha com sementes nativas e restauração ecológica, envolvendo comunidades rurais na cadeia da restauração. O trabalho com sementes nativas inclui as pessoas que as coletam e fornecem para a recuperação dos ambientes, um dos aspectos sociais da restauração que integra a atuação da iniciativa.
Alba Regina Barbosa Araújo, que conduz atividades sobre o Cerrado no Sesc Franca, é licenciada em Ciências Biológicas pela USP, mestre em Biologia Vegetal pela Unicamp e doutora em Agronomia, na área de Produção Vegetal, pela Unesp. As atividades que ministra na unidade abordam formações vegetais, restauração ecológica, frutos e sementes e o papel de polinizadores e dispersores. À tarde, “Experiências Comunitárias no Cerrado” reúne Flávia Nogueira e Rebeca Viana, com mediação de Bárbara Pacheco.
Flávia Nogueira é coletora de sementes, geraizeira e quilombola da Comunidade do Veredão e integra o grupo Cerrado Vive. Em relato registrado pela Funatura em 2026, contou que começou acompanhando a coleta com seus pais e viu o trabalho alcançar outras famílias e despertar o interesse das novas gerações. Sua atuação permite abordar a restauração a partir do trabalho de quem coleta as sementes utilizadas na recuperação da vegetação.
Rebeca Verônica Ribeiro Viana, doutora em Botânica pela USP, desenvolveu pesquisa participativa com jovens do Quilombo Mumbuca, no Jalapão, Tocantins. Sua tese utilizou o photovoice, método que reúne fotografias produzidas pelas participantes e suas narrativas. As imagens e os relatos permitiram estudar como as jovens percebiam o Cerrado e como a pesquisa poderia produzir conhecimento com a comunidade.
Rebeca também integra o projeto Narrativas sobre a Biodiversidade, apoiado pela FAPESP. A proposta é construir narrativas sobre a diversidade de plantas e sua conservação em processos de coprodução de conhecimento. O trabalho envolve quilombos da Mata Atlântica e do Cerrado, no Vale do Ribeira, em São Paulo, no Jalapão, no Tocantins, e na Serra do Espinhaço, em Minas Gerais.
No dia 6, Alba Regina faz a mediação da visita a Furnas do Bom Jesus. O parque abriga fragmentos dos dois biomas que dão nome à edição, incluindo floresta estacional semidecidual. Na visita, vamos observar essas formações no relevo e na vegetação da área protegida.

As inscrições são realizadas pela Central de Relacionamento Digital do Sesc São Paulo ou pelo aplicativo Credencial SescSP, nos períodos indicados ou até o término das vagas. Os três ciclos são independentes e complementares. Os valores abaixo correspondem a cada ciclo.
1º ciclo virtual: 4, 5, 11 e 12 de novembro, das 19h às 21h, em aulas síncronas pela plataforma Zoom.
Inscrições de 21 a 28 de outubro. Valores: R$ 10,50 (Credencial Plena), R$ 17,50 (meia-entrada) e R$ 35,00 (inteira).
2º ciclo presencial em Bertioga: 27 e 28 de novembro.
Inscrições de 4 a 15 de novembro. Valores: R$ 30,00 (Credencial Plena), R$ 50,00 (meia-entrada) e R$ 100,00 (inteira).
3º ciclo presencial em Franca: 5 e 6 de dezembro.
Inscrições de 18 de novembro a 2 de dezembro. Valores: R$ 30,00 (Credencial Plena), R$ 50,00 (meia-entrada) e R$ 100,00 (inteira).
Nos ciclos presenciais, a participação nas saídas de campo está condicionada à presença na primeira aula do respectivo ciclo.
A hospedagem é de responsabilidade do participante. Será oferecido transporte e kit-lanche nas saídas de campo.
Em Bertioga, o acesso às instalações do Sesc será restrito aos locais das atividades.
Inscrições: centralrelacionamento.sescsp.org.br
Mais informações: sescsp.org.br/canp

Florestar: áreas verdes educadoras
O Florestar é um projeto do Sesc São Paulo que valoriza o potencial educativo de jardins, bosques e outras áreas naturais. Por meio de visitas mediadas, cursos, oficinas e atividades práticas, aproxima o público da biodiversidade e estimula a compreensão das relações entre a flora, a fauna, a paisagem e a cultura de cada lugar. A proposta parte do contato direto com esses ambientes, com tempo para observar e conhecer a vida que abrigam.
Nas unidades, essa atuação inclui oficinas de cultivo, observação de aves e atividades relacionadas a meliponários e sistemas agroflorestais, além de feiras agroecológicas. São diferentes formas de abordar a conservação e de discutir como produzimos alimentos e utilizamos os recursos naturais. O aprendizado acontece no contato com as características de cada espaço e com as práticas desenvolvidas ali.
O projeto também propõe refletir sobre a importância das áreas verdes para a qualidade de vida e a resiliência climática. Ao reconhecer esses espaços como lugares de aprendizagem e convivência, o Florestar aproxima a educação ambiental dos ambientes que fazem parte do cotidiano.
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