Desfrutar do tempo livre

05/01/2026

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Pesquisador e educador físico Sandro Carnicelli reflete sobre o direito ao lazer em uma sociedade exausta, e como colocá-lo em prática pode promover o desenvolvimento social

Leia a edição de Janeiro/26 da Revista E na íntegra.

POR MARCEL VERRUMO
FOTOS NILTON FUKUDA

Brincar em um parque, assistir a um show ou peça de teatro, viajar e conhecer um novo lugar. São diversas as maneiras de aproveitar o tempo. Em meio à diversão, nem sempre refletimos sobre os impactos que as nossas escolhas de lazer têm na sociedade, no meio ambiente e na nossa vida cotidiana. Esse não é o caso de Sandro Carnicelli, pesquisador que fez do lazer o seu objeto de trabalho e estuda como torná-lo uma prática mais alinhada à sustentabilidade.

Bacharel em educação física, Carnicelli é professor de Estudos de Turismo e Lazer, na University of the West of Scotland, no Reino Unido, onde é vice-diretor do Centro de Cultura, Esporte e Eventos. Também é autor de artigos publicados em diversos periódicos nacionais e internacionais, e membro da Academia Internacional para o Desenvolvimento da Pesquisa em Turismo no Brasil. Na universidade e fora dela, trabalha para promover um lazer que seja sustentável em suas dimensões ambiental, econômica e social. Entre as ações exitosas que já executou, está a capacitação para alunos dialogarem com o poder público na busca por espaços mais inclusivos.

Ao refletir sobre o lazer na contemporaneidade, o pesquisador defende que essa prática assume hoje outra dimensão. Se no passado era tida como parte do tempo para as pessoas se recuperarem de suas jornadas de trabalho e poderem retornar a ela, hoje é reconhecida como essencial à construção e ao desenvolvimento dos indivíduos. “O lazer é uma transformação do ser humano por meio das relações que se criam com o espaço, o ambiente, com outras pessoas, com atividades, com objetos”, define o estudioso.

Nesta Entrevista, Sandro Carnicelli reflete sobre o conceito de lazer hoje, aborda sua conformação em tempos de mídias digitais e de transformações no mercado de trabalho, e pensa como esse direito pode contribuir para o desenvolvimento social.

O que se entende por lazer hoje?
Por muito tempo, o conceito de lazer foi baseado na ideia de tempo livre em oposição ao tempo de trabalho. Mesmo na literatura, se você olhar, há uma relação com o tempo de trabalho. Mas e o lazer da criança, por exemplo? Alguns debates começaram a aparecer devido às pessoas que não trabalham. A ideia de lazer como algo oposto ao tempo de trabalho começou a ficar ultrapassada. Hoje, o lazer é visto de diferentes formas. Claro que ainda existe uma relação de tempo, mas o lazer também pode ser visto como um estado de ânimo, com outras perspectivas de desenvolvimento social, de participação comunitária, de engajamento. A ideia de que lazer é tempo, necessariamente, começou a se diluir. Do meu ponto de vista, a gente não pode se esquecer das relações de trabalho e não trabalho na vida adulta, mas tem que lembrar que o lazer é muito mais do que isso. O lazer é uma transformação do ser humano por meio das relações que se criam com o espaço, o ambiente, outras pessoas, atividades, objetos. É essa relação com o mundo que vai além da divisão trabalho e não trabalho.

Qual a diferença, se é que ela existe, entre o conceito de lazer e ócio? 
Em algumas línguas, a palavra lazer não existe e, no seu lugar, é usada a palavra ócio ou tempo livre. Comumente, dizem que, no caso de ócio, em inglês idleness, você não tem um movimento, não faz nada, não produz. Enquanto no caso de lazer, haveria uma ideia de que você está em movimento e fazendo algo. Agora, mesmo essa definição, ela não é muito correta, porque nela a gente transforma a palavra lazer quase que em um conceito neoliberal de ter que produzir algo, de ter que fazer algo.

O artigo 24 da Declaração Universal dos Direitos Humanos afirma que: “Todo ser humano tem direito a repouso e lazer”. Como foi a construção histórica desse direito?
Quando as sociedades foram se desenvolvendo, pós-revolução industrial, havia a ideia de tempo de trabalho e tempo de não trabalho. Esse último, na verdade, era o tempo para você se recuperar para voltar ao trabalho, ou seja, havia uma ideia de constante produção. O seu tempo livre, o seu tempo de lazer, era aquele tempo que você se recuperava para poder produzir e trabalhar mais. A ideia de lazer como direito humano está associada à concepção de que o lazer pode contribuir para a sua formação e o seu desenvolvimento. O lazer não é só uma recuperação para a volta ao trabalho, mas é parte integral da sua construção como ser humano numa sociedade.

Qual o impacto das tecnologias no tempo que deveria ser dedicado ao lazer?
Por mais que as redes sociais estejam aí há um bom tempo, se você olhar de uma perspectiva histórica, é um processo muito recente ainda. Em 2014, organizamos um congresso da Leisure Studies Association [Associação de Estudos de Lazer, em tradução livre] e um dos produtos desse evento foi a organização de um livro chamado Digital leisure cultures [Culturas de lazer digital, em tradução livre], que já trazia alguns aspectos do lazer digital. Já existiam algumas pesquisas no mundo, inclusive aqui no Brasil, como na Unesp [Universidade Estadual Paulista] de Rio Claro, sobre o tema. Mas ele veio crescendo muito nesses últimos 15 anos. É claro que isso mudou com a transformação e o acesso a telefones celulares, que criaram um boom de ofertas de lazer digital. As mídias sociais são um desses lazeres, mas a gente já interagia com o telefone muito antes. Se você lembrar do jogo da cobrinha do telefone, isso já mostrava uma relação de lazer com o mundo digital. O que as mídias sociais fazem é ocupar ainda mais esse tempo. Não só o tempo de lazer está sendo consumido por mídias sociais, mas elas estão ditando qual tipo de lazer as pessoas devem consumir. Isso é baseado em algoritmos que vão indicar que, se você tem determinado perfil, você tem a tendência de consumir certos produtos e certas atividades. Dependendo do seu engajamento online, vão aparecer mais atividades de aventura, de shopping ou de rua. Isso leva a um hiperconsumo, a uma sociedade que está sempre em busca da informação para aumentar o consumo no lazer. 

Sandro Carnicelli no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc, onde deu o curso Lazer, Sustentabilidade e Desenvolvimento – Caminhos para um Futuro Sustentável

E como os conceitos de lazer e sustentabilidade se relacionam? 
A relação principal entre lazer e sustentabilidade está conectada à ideia de consumo. Tudo o que nós fazemos como seres humanos está relacionado ao consumo, seja do ar que a gente respira à roupa que a gente veste ou à comida que compramos. O consumo está ao nosso redor, mas a gente não discute tanto a produção do que consome. Quando a gente pensa o lazer e o consumo do lazer, tem que estimular as pessoas a pensarem o que ou quem produz aquilo que elas estão consumindo, porque existem atividades com um nível mais alto de consumo de matérias-primas e de ambiente do que outras, com menor impacto. Quando a gente fala em turismo, por exemplo, essa é uma atividade de lazer que, naturalmente, tem um impacto maior de consumo, porque envolve deslocamento e, normalmente, existe um impacto maior de emissão de carbono. Claro que existe o cicloturismo, no qual as pessoas vão de bicicleta de uma distância à outra, ou seja, existem exceções. Mas o turismo que envolve pegar um avião ou um ônibus tem um certo consumo de CO₂, uma emissão devido ao deslocamento. A atividade do turismo também incentiva outros tipos de consumo secundário, como compras de novas roupas, por exemplo. Existem pesquisas que mostram que, na Europa, pessoas que vão viajar tendem a comprar roupas novas na semana anterior, não por necessidade, mas pelo fato de mostrar ou vestir algo novo durante o momento de lazer, durante a viagem. O turismo em si aumenta elementos de consumo. Uma das pesquisas que a gente desenvolveu na universidade é sobre o conceito de decrescimento. Há pessoas que leem o título da nossa investigação e pensam: “você quer menos turista”. E não é sobre ter menos turista, é sobre como a gente consegue controlar o movimento do turismo para que as comunidades locais sejam empoderadas e possam decidir o que o turista deve fazer, o que pode consumir ou não. Porque o visitante é um hóspede na casa de alguém. Mudando isso, você consegue alterar padrões de consumo.

Então, quais iniciativas de lazer podem promover a sustentabilidade?
Eu sempre tenho ótimas memórias da minha infância, das ruas de lazer, de espaços públicos onde pessoas de diferentes classes sociais se reuniam para praticar esporte, atividades, se encontrar. Esse tipo de opção desenvolve as pessoas. Essas ruas de lazer, esse uso do espaço público para educar as pessoas sobre a possibilidade de usar o tempo em contato com a natureza, em contato com outras pessoas, pode levar a uma consciência ambiental que vai alterar o comportamento dessa criança, quando ela se tornar uma adulta. Agora, se a gente não promove o contato da criança, do jovem e do adulto com o meio natural, a gente acaba segmentando as opções de lazer e as pessoas com maior poder de compra vão acabar consumindo mais e praticando um consumo que, normalmente, causa um impacto maior no meio ambiente.

Como o governo poderia investir em políticas públicas de lazer para promover a sustentabilidade?
Eu gosto muito da ideia de um tripé entre política pública, desenvolvimento comunitário e lazer. Um dos exemplos é a Praça de Bolso do Ciclista, em Curitiba (PR), que foi o projeto de desenvolvimento comunitário de uma praça, um ambiente público. Nela, há a criação de uma área de lazer pela comunidade, a partir do engajamento com o poder público. A comunidade local sugeriu ideias e os dirigentes “compraram” para desenvolver o espaço. Existem diferentes formas de engajamento social. Uma das atividades que faço com os meus alunos é ensinar vias de contato com o poder público. A gente precisa ensinar, nas universidades e na escola, quais as formas para que os cidadãos possam entrar em contato com esse setor. Quando eu morava no Brasil, nunca aprendi isso. Como você contata um vereador? Como você conversa com um deputado? Como você fala com um senador? Se a gente conseguir isso e conseguir movimentar as pessoas a entenderem formas de contato com o poder público, podem-se criar possibilidades de apresentação de ideias, de sugestão de opções de lazer que vão beneficiar a comunidade. Isso inclui o fechamento de ruas para as crianças brincarem, atividades lúdicas em parques públicos, iluminação durante a noite nessas áreas. O primeiro passo é pela educação: ensinar como falar e influenciar mudanças para que o lazer possa ser oferecido.

Como você tem desenvolvido essa ideia na universidade?
Existe um projeto educacional que a gente está desenvolvendo entre as universidades da Escócia e Inglaterra, que começou na Universidade York St. John. A gente ensina os alunos a se comunicarem com o poder público. Tive um aluno cadeirante que morou por 20 anos na frente da praia, sem nunca ter ido até a água, porque não tinha acesso. Por meio do processo educativo, a gente conseguiu fazer com que ele escrevesse para os diferentes níveis de poder público, solicitando que fosse implementada uma esteira para que cadeirantes pudessem acessar a água. Esse pode ser o caso dele, mas poderia haver outras pessoas na comunidade na mesma situação. Isso foi inspirado por um projeto que aconteceu em Bondi Beach, na Austrália, que também é uma praia superpopular, mas que por muitos anos não tinha acessibilidade para cadeirantes. Ações como essa mostram como é importante que você encontre vias de comunicação para criar opções de lazer. 

Para Sandro Carnicelli, é preciso criar práticas de lazer que estejam desatreladas do consumo

Hoje, no Brasil, há uma discussão sobre a redução da escala de trabalho 6 por 1. Como o lazer pode ser pensado no contexto de propostas como essa?
O primeiro ponto é pensar no direito ao lazer. Em uma escala 6 por 1, não há direito ao lazer, há direito à recuperação, e volta-se para aquela ideia de que você tenha uma folga para se recuperar e voltar ao trabalho. Agora, é interessante que aqui no Brasil, eles estão discutindo a escala 6 por 1. Na Europa, a discussão é de 4 dias de trabalho, ao invés de 5. Ou seja, a ideia de 6 por 1 foi ultrapassada há 50, 60, 100 anos por lá. Nesses outros países, estão pensando como a gente pode ter uma sociedade mais feliz porque, numa sociedade mais feliz, você vai ter um custo menor do sistema público de saúde, vai ter uma pessoa produzindo de forma mais feliz aquilo que precisa. Existem algumas pessoas discutindo diferentes formas de trabalho no futuro. Quando eu era jovem, me prometiam que eu não ia trabalhar, que ia ter um robô para tudo e eu teria muito tempo livre. O que se vê hoje em dia é uma situação quase oposta a isso. As pessoas trabalham mais para poder consumir mais. Então, me surpreende, morando fora, o quão resistentes são as pessoas para mudanças da escala de trabalho no Brasil. É surpreendente porque é difícil pensar que algumas pessoas não conseguem ver os benefícios sociais e humanos de uma troca de regime de trabalho.

Segundo pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o número de pessoas que pediram demissão bateu recorde em 2024. Esta pode ser mais uma consequência de uma sociedade que não tem como prioridade o direito ao lazer?
A gente vive em uma sociedade exausta por muitos motivos. E isso não só no Brasil. O que acontece no Reino Unido, hoje, é que as pessoas trabalham no que eles chamam de “zero horas de contrato”. Elas não são registradas para um trabalho de 35 ou 40 horas, mas podem trabalhar quantas horas quiserem, como um autônomo. Isso está levando as pessoas a trabalharem 40, 50, 60, 70 horas por semana. Quanto mais aumenta o seu consumo, mais você tem que trabalhar, então, você cria uma sociedade que está exausta. Isso leva a um grande índice de doenças relacionadas à saúde mental. Você vê uma sociedade marcada por um aumento de pessoas que pedem para parar de trabalhar ou que se demitem; uma série de pessoas que trocam um determinado tipo de trabalho, que tinham uma carreira e não querem seguir, porque aquilo está desgastando relações familiares e sociais. O que a gente vê é que, quanto mais você aumenta o consumo, mais você força o povo a trabalhar. E quanto mais você força o povo a trabalhar e ganhar para aquilo, mais pode causar problemas sociais, daí, você entra em um ciclo vicioso. Se for pensar na sociedade de 30 ou 40 anos atrás, quais eram os gastos que as pessoas tinham? Quantos novos gastos apareceram na nossa conta bancária nesse período, que não existiam naquela época? Existe uma série de outros tipos de consumo que começam a aparecer nas contas bancárias – nesse caso, estou falando da população de classe média e de classe média alta.

Como ações na área de lazer podem nos ajudar a enfrentar as desigualdades sociais e promover a justiça social?
Um dos principais problemas, hoje, é o isolamento social. Quando crianças de classe média brincam com crianças de classe média, crianças de classe alta brincam com crianças de classe alta, crianças de classe baixa brincam com crianças de classe baixa. É quando existe uma ideia de que a minha filha vai à escola e não tem crianças de classe alta, média e baixa na mesma classe. Isso faria com que ela entendesse as dificuldades, problemas, privilégios de diferentes crianças. O que eu espero de uma criança que interagiu com diferentes classes sociais é que, quando crescer, ela se preocupe com pessoas de diferentes classes sociais. Se você isola as diferentes classes sociais, aquelas crianças só entendem as dinâmicas econômicas, políticas e de lazer daquela classe. Ou seja, no caso da classe social média alta, quais são as opções de lazer de uma criança? Normalmente, são cheias de segurança, de muros, de atividades altamente protegidas e que levam a um maior consumo. E daí, você tem uma outra classe que é banida desses espaços. Uma das coisas que a gente precisa pensar é como o lazer pode ser utilizado para que as classes sociais interajam, se compreendam e se engajem. Quanto mais você consegue fazer com que as diferentes classes sociais interajam de uma forma positiva, por meio do lazer, mais chances você tem de fazer o capital social se desenvolver em diferentes formas. E, assim, o lazer consegue contribuir para diminuir a desigualdade.  

Assista a trechos da Entrevista com o sociólogo Sandro Carnicelli, realizada no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc, em abril de 2025.

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