
Encenação acompanha a trajetória de Winnie, personagem que organiza seus dias a partir de gestos recorrentes, objetos e memória, em obra que investiga tempo, linguagem e permanência.
Dias Felizes, texto escrito por Samuel Beckett em 1961, ganha encenação da Armazém Companhia de Teatro, companhia fundada em 1987 e dedicada à pesquisa de repertório dramático e à criação de espetáculos de longa circulação.
A peça acompanha Winnie, interpretada por Patrícia Selonk, em uma situação em que o corpo é gradualmente coberto pelo solo, primeiro até a cintura e depois até o pescoço. Sem possibilidade de deslocamento, ela organiza a passagem das horas a partir de ações contínuas: abre a bolsa, separa pertences, escova os dentes, passa batom, se observa no espelho, fala e retoma fragmentos de memória.
Esses elementos estruturam o tempo em cena e organizam a rotina da personagem por meio da repetição e da linguagem. A bolsa de Winnie concentra objetos que retornam ao longo do espetáculo e acompanham suas ações.
Willie, interpretado em dias alternados por Felipe Bustamante, Isabel Pacheco e Jopa Moraes, compõe a cena em uma relação construída por aproximações, pausas e afastamentos. A presença entre os dois se estabelece por variações de contato e silêncio.
O texto de Beckett integra um conjunto de obras que, a partir da década de 1950, desloca o foco da ação dramática para estruturas de repetição, linguagem e duração. Em Dias Felizes, o avanço do tempo não se traduz em transformação do espaço, e a fala passa a sustentar a continuidade da personagem.
A montagem dirigida por Paulo de Moraes retoma o texto em diálogo com diferentes encenações da obra no Brasil e no exterior, em leituras que destacam a relação entre corpo, linguagem e permanência. Em comum, essas abordagens evidenciam a centralidade da personagem e a repetição como estrutura dramatúrgica.

Em cena, o espaço acompanha essa lógica. A paisagem permanece sem alterações significativas ao longo da peça, e a atenção se desloca para o que é enunciado, repetido e interrompido. A construção da cena se dá a partir dessa permanência, com variações de ritmo e duração.
A tradução de Jopa Moraes parte de uma operação realizada por Beckett em versões da própria obra para outros idiomas, quando referências literárias foram adaptadas a diferentes contextos linguísticos. Nesta montagem, esses elementos dialogam com a língua portuguesa e aproximam o texto de repertórios em circulação no contexto brasileiro.
Dias Felizes apresenta uma estrutura em que o cotidiano se organiza por repetição, fala e memória, e em que a continuidade dos dias se estabelece a partir das ações da personagem e das relações em cena.
Dias Felizes
De 25/6 a 19/7, quinta a sábado, às 20h, sextas também às 16h, domingo, às 18h
Ingressos disponíveis no aplicativo Credencial Sesc SP e nas bilheterias do Sesc São Paulo.
R$70 | R$35 | R$21
12 anos
80 minutos
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