
Artistas contam como referências musicais, memória, minutagem, improviso e escolhas feitas durante a projeção orientam a construção da trilha para o filme de John Singleton
As luzes da sala se apagam e as primeiras imagens surgem na tela. Antes que a narrativa conduza o olhar do público, outro elemento passa a ocupar o espaço: a música. No cine-concerto, ela deixa de ser apenas trilha para se tornar parte da experiência, construída ao vivo e em diálogo com cada cena. O filme permanece o mesmo, mas a forma de assisti-lo pode mudar a cada entrada, silêncio e intervenção sonora.
Foi a partir dessa relação entre cinema e música que o Sesc Santana apresentou Duro Aprendizado (Higher Learning, 1995), de John Singleton, com trilha criada e executada ao vivo por DJ KL Jay e Guilherme Chiappetta. O filme, que acompanha diferentes grupos de estudantes em um campus universitário, aborda questões como racismo, identidade, violência e convivência. Ao revisitar a obra para criar uma nova trilha, os músicos também encontraram lembranças, referências musicais e experiências que atravessam suas próprias trajetórias.

KL Jay conta que o convite surgiu depois da insistência de Jomo, seu irmão e produtor. A princípio, ele desconfiou que o filme pudesse não ser compreendido pelo público atual. Depois de rever a obra, porém, a relação mudou. Vieram as lembranças da época e, junto delas, as primeiras ideias para a trilha. “É legal que assisti ao filme, lembrei de muita coisa, revivi. Revivi a época”, conta.
Guilherme já conhecia o filme, embora a lembrança viesse de pedaços vistos na televisão a cabo durante os anos 1990 e 2000. Quando a possibilidade do projeto apareceu, voltou à obra para entender como poderia trabalhar musicalmente com ela. O reconhecimento veio também pelos atores, entre eles Ice Cube, que aparece no filme no início de sua carreira. Mas havia algo além da memória. “Ele tinha uma carinha familiar, mas eu não tinha a história dele, assim clara”, explica. Ao rever o filme, percebeu que questões apresentadas por Singleton naquele período continuam presentes.
A escolha das músicas começou, para KL Jay, de uma maneira que não estava exatamente planejada. Em casa, ouvindo um disco de jazz de Donald Byrd, ele encontrou a música que imaginou para a abertura do filme. Não estava pesquisando uma faixa para aquela cena. A música apareceu antes da procura. É o que ele chama de “antena”: uma espécie de atenção musical construída ao longo dos anos, alimentada por discos, arquivos, referências e experiências.

“A primeira música é sempre a mais importante. É o link e o começo, é a decolagem”, explica. Para um DJ, a primeira escolha também estabelece a direção do que vem depois. No cine-concerto, porém, a lógica ganha outra camada: a música precisa conversar com a imagem, acompanhar a cena e, em alguns momentos, desaparecer completamente.
É nesse ponto que entra o trabalho de Guilherme. Antes da apresentação, ele assiste ao filme com o olhar de quem vai construir uma trilha. Faz a minutagem, identifica os momentos de entrada e saída e prepara o material para que KL Jay possa trabalhar a partir dessas marcações. “A entrada e a saída é uma coisa muito importante na trilha de um filme. São coisas de milésimos de segundo que mudam”, afirma.
O processo não termina na edição. Durante a apresentação, os dois continuam tomando decisões. Há cenas em que KL Jay prefere não colocar música. Em outras, a entrada acontece alguns segundos depois do que estava previsto. A escolha depende do que está acontecendo na tela e da percepção dos artistas naquele momento.
“Tem cenas que eu falo: olha, Guilherme, tem cenas aqui que eu acho melhor não ter música. Não fazer nada por causa da cena. Aí eu coloco a música 30 segundos após, ou pouco antes. Às vezes a cena ali é melhor ficar vazia”, conta KL Jay.

Para Guilherme, um dos riscos de um trabalho como esse é justamente tocar demais. A música precisa estar presente sem disputar espaço com o filme. “O pior erro de quem faz trabalhos como esse de trilha ao vivo é tocar demais”, afirma. Segundo ele, o objetivo é fazer com que o público se concentre na obra. “Nós estamos lá para potencializar o filme, então, pesar a mão, eu acho que é o pior que pode acontecer. E o silêncio diz bastante coisa.”
KL Jay resume essa escolha com uma comparação que faz parte de seu próprio repertório: “É fazer o drible na hora certa. É igual futebol”.
A experiência acumulada também interfere nas escolhas. Durante a adolescência, KL Jay ouvia soul, funk, rock, samba e hip hop, entre outras referências musicais que, segundo ele, foram sendo absorvidas ao longo do tempo. Essa bagagem ajuda na identificação dos caminhos que podem acompanhar determinadas situações do filme. Uma cena pode pedir jazz, outra rock, outra uma música mais sentimental. Para ele, a escolha depende da relação entre a música e aquilo que acontece na tela, mas também das referências que foram construindo seu olhar e sua escuta ao longo da vida.
No caso de Duro Aprendizado, essa bagagem também se encontra com uma memória específica dos anos 1990. O período marcou a trajetória dos Racionais MC’s e do próprio KL Jay, ao mesmo tempo em que filmes como Boyz n the Hood, Duro Aprendizado e Malcolm X colocavam questões raciais e sociais no centro de suas narrativas. “A gente estava ali vivendo, respirando isso tudo. Tem tudo a ver, as ideias, as músicas e a questão política racial”, afirma.

Guilherme também identifica na música uma possibilidade de diálogo com os conflitos apresentados no filme. Para ele, a convivência entre diferentes grupos, culturas e origens aparece na própria formação de determinados gêneros musicais. O jazz, citado por ele, resulta de encontros entre diferentes tradições. Na trilha de Duro Aprendizado, essa relação entre diferenças, conflitos e encontros passa a fazer parte das escolhas sonoras.
O processo, portanto, acontece entre planejamento e acaso, técnica e percepção. Guilherme organiza a minutagem e prepara o material. KL Jay acrescenta sua pesquisa, memória musical e capacidade de identificar uma faixa para determinada cena. Durante a apresentação, os dois ainda precisam estar atentos ao filme, ao público e ao que acontece naquele instante.
É por isso que, apesar de a projeção ser a mesma, a experiência não se repete exatamente. A trilha é construída diante do público e depende de decisões tomadas em tempo real. O filme continua na tela. A música, porém, existe naquele encontro específico entre imagem, som e pessoas.
No cine-concerto, o trabalho dos músicos não é apenas acompanhar o filme. É saber quando entrar, quando sair e, principalmente, quando deixar a cena falar sozinha.
Utilizamos cookies essenciais para personalizar e aprimorar sua experiência neste site. Ao continuar navegando você concorda com estas condições, detalhadas na nossa Política de Cookies de acordo com a nossa Política de Privacidade.