
Quando se fala em avanço do mundo tecnológico, um questionamento frequente no espaço pedagógico diz respeito a quais contribuições as tecnologias trazem aos processos que se desenvolvem nos contextos educativos. Neste livro, Fernando José de Almeida faz uma provocação e inverte esse questionamento. Ele aponta a necessidade de educar as tecnologias. Isso significa que a questão não é o que as tecnologias podem fazer pela educação, mas o que a educação pode fazer pelas tecnologias.
Educar é construir a humanidade. Ninguém nasce humano: vai se tornando humano por um processo cultural, que é criado, transformado e partilhado no gesto educativo, em que se desenvolvem todos os recursos de que dispõem os humanos para intervir na realidade, dando a ela e a si mesmos uma configuração específica.
Buscando dialogar com pensadores que refletem sobre a educação, sobre seu significado e sobre as formas de que ela tem se revestido nos múltiplos contextos histórico-culturais, Almeida pondera sobre os desafios que vêm se apresentando para a constituição dos seres humanos como pessoas sociais num mundo comum. Ele alerta para a responsabilidade dos educadores diante do encantamento com as tecnologias mais recentes, que parece afastar o olhar crítico e o recurso aos princípios éticos.
Sua intenção não é sistematizar nem julgar as tecnologias da informação e comunicação, o ensino híbrido, a inteligência artificial, os algoritmos ou a instrução programada. Sua vasta experiência de docente e pesquisador o direciona a expor os equívocos de certo deslumbramento ou louvação da presença da tecnologia nas sociedades humanas – e, principalmente, nas salas de aula.
Só por trazer essa preocupação, já teríamos aqui um trabalho importante e valioso para a atualidade, que segue ancorada no fascínio muitas vezes ingênuo pelas propostas que, supostamente, estendem os nossos recursos ou até julgam poder substituí-los, desprezando ou renunciando a nossa presença no mundo real.
Encontramos aqui a proposta de um diálogo, um estímulo a uma atitude crítica, que procura ver de forma ampla e profunda nossa vida em sociedade, nosso trabalho como educadores e educadoras e nossa responsabilidade pela construção de um mundo em que haja vida plena para todos. Integrar a tecnologia – educada à luz da ética – nessa vida é o desafio que Almeida nos convida a enfrentar com ele. É um honroso convite, que não podemos deixar de aceitar.
Terezinha Azerêdo Rios
Doutora em Educação e pesquisadora do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Formação de Educadores (GEPEFE) da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo.
Texto publicado originalmente na quarta capa do livro.
:: Trecho do livro
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