
Antes mesmo de a primeira guitarra ecoar pelo bosque, o Festival Sesc Thermas do Rock já contava uma história. Ela vinha dos graves da discotecagem, dos discos, do blues, da black music, dos corpos que dançam e de artistas que atravessaram décadas fazendo da música uma forma de presença e resistência. Ao longo da programação, sonoridades e experiências ajudaram o público a reconhecer as matrizes negras do rock and roll.
Em sua 16ª edição em Presidente Prudente, interior de São Paulo, o projeto voltou a propor uma programação que ultrapassa uma sequência de shows. A curadoria procurou construir uma linha intergeracional e representativa, contemplando diferentes facetas do que se convencionou chamar de rock.
O festival ao ar livre também ocupou o bosque do Sesc Thermas com oficinas, vivências e intervenções cênicas. Essas ações ajudaram a costurar, entre um show e outro, a proposta curatorial. Neste ano, uma das perspectivas foi revisitar uma história que nem sempre ocupa o centro das narrativas: as matrizes negras do rock and roll.



Antes de se consolidar como um dos gêneros musicais mais influentes do século XX, o rock foi moldado pela mistura de ritmos da cultura negra norte-americana, como o blues, o gospel e o rhythm and blues (R&B). Sister Rosetta Tharpe, cantora e guitarrista gospel que uniu letras sagradas à distorção da guitarra; Chuck Berry, criador de riffs marcantes e pioneiro da chamada “atitude do rock”, com letras voltadas aos jovens; e Little Richard, que reuniu a energia do gospel e do R&B a gritos e um piano acelerado, estão entre os artistas negros reconhecidos como pioneiros na formação do gênero.
E assumir essas origens é compreender que a história do rock foi construída por pessoas que transformaram experiências de resistência, identidade e liberdade em arte. No Festival Sesc Thermas do Rock, essa trajetória ganhou expressão no palco, com artistas como Toni Garrido e Tony Tornado – acompanhado do filho, Lincoln Tornado –, e também fora dele, em ações como a discotecagem Blues&Black, do projeto Som de Preto, com curadoria da Produtora Caixa Preta, e a intervenção de danças urbanas Sem Rótulos, do Coletivo Nós por Nós.
Segundo o DJ e produtor cultural Afrodeus, que se apresentou no festival, o repertório foi elaborado coletivamente e reuniu diferentes vertentes da música negra para evidenciar as conexões entre o rock, o blues, o soul, o rap e o hip hop.
Sua pesquisa musical partiu das origens do blues para demonstrar como essa linguagem deu origem a estilos que marcaram a história da música. “A ideia foi construir esse percurso histórico, indo do gospel ao blues, mostrando como essas sonoridades se desdobraram ao longo da história.”
Com outras inspirações e o mesmo ponto de partida, a DJ Lyz Ventura levou essa história aos toca-discos. “Meu repertório nasceu de referências como o blues, o rock em sua essência, o funk norte-americano, Gil Scott-Heron e os ritmos jamaicanos. A proposta foi mostrar como essas vertentes compartilham uma mesma origem e ajudam a contar a história da música negra e do rock.”
A dança ampliou esse percurso. Segundo o produtor artístico Ricardo Galhardo, o Ricka, a coreografia passou por diversos subgêneros das danças urbanas, como breaking, com acrobacias no chão; popping, marcado por contrações musculares e movimentos de ilusão; locking, com seus travamentos rápidos; além de hip hop e house.
A intervenção tomou como referência o filme The Warriors (Os Selvagens da Noite, de 1979), que retrata o encontro de diferentes gangues de Nova York em meio aos conflitos urbanos. A escolha também dialoga com a trilha sonora, que mistura o rock a outros gêneros, principalmente nas composições de Barry De Vorzon, como o tema do filme e a canção “In the City”. O grupo, por sua vez, trouxe ao bosque sons como “Walk This Way”, uma parceria de Run-D.M.C. e Aerosmith
A produtora do Coletivo Nós por Nós, Luciana Pequim, destaca que participar de um festival de rock cria oportunidades para ampliar o diálogo entre diferentes linguagens artísticas e fortalecer a presença da cultura hip hop.
“Com a intervenção Sem Rótulos – Breaking The Rock, o coletivo evidencia as conexões históricas e culturais entre esses dois universos, promovendo encontros, quebrando estereótipos e aproximando diferentes públicos por meio da dança”, afirma.
Para o dançarino Leonardo Ferreira, o Leozinho, integrante do grupo Ruas de Fogo, coletivo de danças urbanas de Presidente Prudente, a coreografia destaca a possibilidade de integração entre linguagens e vertentes musicais.
“Ao reunir referências do hip hop, do jazz, do rock, do pop e das danças urbanas, diferentes expressões artísticas compartilham histórias e influências comuns. Mais do que acompanhar a música, a dança reforça a ideia de encontro entre culturas e pessoas, tornando visível uma herança que permanece viva.”


No palco, essa narrativa ganhou ainda mais força com artistas cujas trajetórias atravessam décadas da cultura brasileira. Tony Tornado e Toni Garrido representam diferentes gerações de intérpretes que mantêm viva a contribuição da cultura negra para a música popular.
Cada um, à sua maneira, mostra que o legado construído por artistas negros permanece influenciando músicos, linguagens e novas formas de ocupar os palcos.
Tony Tornado é um dos grandes ícones da cultura brasileira. Dançarino, cantor e ator, nasceu na década de 1930, em Mirante do Paranapanema (SP), e passou parte da juventude vivendo ilegalmente nos Estados Unidos, onde teve contato com o movimento negro e o Partido dos Panteras Negras.
Após ser deportado para o Brasil, tornou-se um dos pioneiros da valorização e da autoafirmação da cultura negra no país. Em 1971, depois de ser monitorado pela ditadura militar, foi retirado do palco durante uma apresentação ao lado de Elis Regina. Em seguida, viveu um período de exílio, passando por países como Cuba, Angola, União Soviética e Tchecoslováquia.
Aos 96 anos, Tony Tornado leva ao palco uma trajetória marcada por resistência, memória e ancestralidade. No show apresentado ao lado do filho, Lincoln Tornado, compartilha histórias de vida e da luta contra o apagamento da identidade negra.
“Eu morava em Copacabana, me mandaram para Tchecoslováquia, mas, como diria William Shakespeare, tudo é bom quando termina bem. Isso é que importa”, reflete o artista.
Ao compartilhar o palco com o pai, Lincoln Tornado traduz essa continuidade como uma responsabilidade artística e simbólica.
“Quando eu paro para pensar que o meu colega de trabalho é meu ídolo e, junto a isso, é meu pai […] É muita representatividade para o meu povo, é muita representatividade musical. E aí é uma responsabilidade com uma grande mistura de prazer e de orgulho. Me sinto responsável pelo que eu estou entregando”, revela Lincoln.
Na mesma linha, Toni Garrido explica que sua produção artística resulta de uma formação construída a partir da música e da ancestralidade.
“Esse legado de música, negritude, liberdade é, na realidade, o que forma meu caráter. Quando eu me apresento artisticamente, eu uso minhas ferramentas pessoais de criação, de fundação da minha casa, do que me ensinaram a tornar isso em canção”, descreve.
Da agulha sobre o disco aos corpos em movimento, do balanço de Tony e Lincoln Tornado à voz de Toni Garrido, a programação reuniu tempos, linguagens e gerações em torno de uma história que ainda precisa ser ouvida. Preservar essa memória também significa criar condições para que novos públicos reconheçam quem ajudou a construir o rock e como essas matrizes continuam produzindo som, gesto e presença.





















Texto: Fernanda Nogueira
Edição de texto: Thiago Ferri
Fotos: Gasalucinação, Maila Alves e Gustavo Castellon
Vídeo: Davison Alvares, Renan Cantuario e Roberto Maty
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