
*Por Mayumi Kitamura
Projeto Elas entreLinhas transformou as férias de verão em um manifesto de presença, união e direito de ocupar todos os espaços
Uma quadra poliesportiva é um emaranhado de marcações. Existem as laterais, as de fundo, as áreas restritivas. Cada traço define um limite. Porém, por quase quarenta anos no Brasil, uma linha invisível manteve as mulheres fora desse desenho. O Decreto-Lei assinado em 1941, que vetava a prática de esportes “incompatíveis com a natureza feminina”, caiu há décadas, mas deixou marcas profundas. Nos dias de hoje, o impedimento não é mais escancarado; ele surge no olhar de dúvida, no bullying e na exclusão, por vezes silenciosa, e por outras verbal, dos pátios escolares.
O projeto Elas entreLinhas nasceu este ano, no contexto do Sesc Verão, para desafiar essa geografia antiga. A iniciativa partiu de uma inquietude da educadora Juliana Paes. No dia a dia das quadras, ela identificou que a evasão feminina não era falta de interesse, mas de acolhimento. “Elas se sentiam intimidadas, não sentiam que pertenciam a um espaço”, pontua Juliana, que acompanhou todas as atividades da edição.
O diagnóstico se confirmou nos dados da gestão. A supervisora do Esportivo, Giane Moraes, notou o abismo: enquanto as turmas infantis (6 a 10 anos) mantinham equilíbrio de gênero, a presença feminina despencava na pré-adolescência. “Nossas turmas de esporte de 10 a 13 anos eram predominantemente masculinas. Em compensação, as turmas menores, de 6 a 10 anos, eram mais equilibradas na quantidade de meninos e meninas. Além disso, percebemos as meninas desistindo do esporte. Foi gerando esse incômodo na gente, e pensamos em uma forma de fazer com que essas meninas se inspirassem e voltassem à prática de esporte”.
A alta procura confirmou a força e a necessidade da iniciativa. O período de cadastro registrou uma enxurrada de formulários: 132 interessadas para apenas 40 vagas. Isso despertou um novo alerta sobre o desejo das meninas pela prática esportiva, desde que em locais onde se sintam seguras e confiantes. Desta forma, o projeto atuou nas ‘entrelinhas’ da transição da infância para a adolescência, uma fase de marcantes mudanças físicas e emocionais.
Assim, entre os meses de janeiro e fevereiro, meninas de 10 a 14 anos descobriram que o esporte ultrapassa as quadras: ele é um exercício de presença e um despertar para o direito de usufruir de qualquer espaço.

Histórias que se encontram
Nas rodas de conversa propostas ao fim de cada atividade, elas compartilharam experiências e sentimentos. Relatos que, muitas vezes, encontravam eco no reconhecimento das outras. A exclusão velada no ambiente escolar foi um ponto comum.
A participante Ana Júlia, de 12 anos, comentou que a exclusão, às vezes, não se resume à mesma faixa etária, revelando um problema arraigado ainda mais profundamente. “A gente não consegue fazer o que a gente quer, o esporte que a gente quer, por conta de meninos, e tanto de até professores homens na escola”. Outra colega da mesma idade, Júlia Pereira, destacou o medo do julgamento: “Nós não conseguimos fazer tantas coisas, porque às vezes fica com vergonha de menino ficar zoando a gente, ficar falando que a gente não sabe”.
Mesmo que o bullying e os estereótipos se apresentem como novos decretos de proibição, ali, em um espaço seguro e acolhedor (como elas mesmas definiram) com educadoras esportivas, elas desmontaram rótulos. “Odeio rosa porque dizem que é de menina”, protestou uma voz, enquanto outra protestava o direito das meninas brincarem, sem julgamentos, com brinquedos quaisquer, como dinossauros, ao invés de bonecas.
Período de mudanças
Entre a descoberta e a aventura por diferentes modalidades, elas mergulharam em conhecimentos sobre o próprio corpo, temas inerentes à idade, propostos pela escritora Berenice VSH Meurer, com a obra “O Diário de Adelaine”. A conversa, seguida da contação de história, fluiu pelos ciclos da puberdade e desaguou na importância de ser firme. Entender o “não” como proteção e o “sim” como escolha transformou a vivência.
A mudança de atitude foi visível para quem conduziu as práticas. A educadora Jéssica Machado, responsável pelas vivências de lutas, notou essa virada de chave: “Eu considerei que elas chegaram acanhadas e saindo ‘querendo dar voadora’, se autorregulando ali com as amigas, também podendo pôr pra fora gritando durante os golpes, e não necessariamente explodindo essa energia em um outro corpo”.

Além da força, a união traz segurança
Nas atividades nas águas, elas tiveram as palavras e orientações de quem é referência nacional: a mulher brasileira que acumula a maior quantidade de medalhas de ouro na história dos Jogos Paralímpicos, cinco até o momento, a nadadora Carol Santiago.
Um dos ensinamentos mais importantes, que as meninas e adolescentes levarão para a vida é a parceria. Quando deixaram a previsibilidade das piscinas para o mar, a medalhista passou uma instrução que também serve como metáfora para a vida em sociedade. Enquanto orientava sobre a segurança, Carol destacou que, no mar, não cabe a dúvida, nem o desespero ou o medo; e nunca se nada sozinha.
A regra de ouro virou código de conduta. Se a correnteza do preconceito é forte, a resposta está na união. A solidão da menina que tenta jogar bola desaparece quando ela percebe um time inteiro ao seu lado.
Nós chegamos e permaneceremos
O ciclo encerrou-se com mais uma excelência no esporte feminino, em uma viagem até Taboão da Serra, para conhecer um dos melhores time de futsal feminino do mundo. No ginásio do Esporte Clube Taboão | Magnus, a treinadora Cris Souza, eleita a melhor do mundo pela terceira vez em 2025, recebeu o grupo com as atletas. Ao verem mulheres de destaque no esporte, as meninas vislumbraram um horizonte possível.
Além de aprenderem técnicas com as jogadoras, elas também tiveram um momento de perguntas, tanto para conhecer melhor o esporte e a profissionalização, quanto para descobrir como ultrapassar as barreiras do preconceito.
Uma frase de Cris ecoa como um novo fundamento, agora escrito por elas mesmas: “Nós chegamos, respeitem, porque a gente vai ficar”. O Elas entreLinhas termina, mas o espaço foi demarcado. Agora, elas sabem que cada linha daquela quadra também lhes pertence.
* Mayumi Kitamura é jornalista e técnica em Processamento de Dados, com mais de duas décadas de atuação na área de comunicação. Com passagens pela TV Cultura e TV Costa Norte, seu trabalho investiga as intersecções entre o jornalismo, as novas tecnologias e o meio ambiente. Atualmente é graduanda em Engenharia de Software, onde aprofunda seus conhecimentos em sistemas e códigos que impactam a sociedade e a comunicação contemporânea.
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