Espaço sensorial: um festival de rock para diferentes formas de sentir 

23/08/2026

Compartilhe:

Festivais de música costumam ser lembrados pelos grandes shows, pelos encontros entre amigos e pela energia que toma conta do público. A qualidade dessa experiência também passa pela forma como o evento acolhe as diferentes pessoas que desejam vivê-la. 

O Festival Sesc Thermas do Rock, realizado em julho na cidade de Presidente Prudente, interior de São Paulo, buscou ir além da programação artística. Ao estruturar Espaços de Regulação Sensorial e oferecer abafadores de ruído, óculos para redução da intensidade luminosa, painéis sensoriais, colchonetes, cama elástica, recursos de comunicação alternativa e profissionais preparados para o atendimento, o Sesc Thermas colocou a inclusão entre os eixos de organização do evento. 

Foram criados dois ambientes: um localizado próximo à programação e outro em um ponto mais reservado. Ambos com profissionais especializados, durante todo o período do evento. A estrutura possibilitou que cada pessoa utilizasse as áreas da forma mais adequada às suas necessidades. 

Exemplos de material utilizado nesse processo são os abafadores que reduzem o impacto dos sons sem impedir a apreciação da música; os óculos diminuindo o desconforto provocado pela iluminação intensa; painéis sensoriais e objetos táteis auxiliando na autorregulação; colchonetes e cama elástica que oferecem estímulos proprioceptivos que contribuem para o equilíbrio sensorial. Em conjunto, esses elementos ajudam muitas pessoas a permanecerem no evento e aproveitar a programação. 

Os recursos foram pensados e desenvolvidos a partir de diálogos entre as equipes técnicas do Sesc Thermas e especialistas da Secretaria Municipal de Educação de Presidente Prudente e da Coordenadoria Municipal da Pessoa com Deficiência. 

A professora e pedagoga Débora Cristiane da Silva, especialista em Educação Especial, participante da equipe do espaço de regulação, considera a iniciativa uma oportunidade concreta de inclusão. 

“Eu achei bacana a preocupação em não infantilizar os espaços. O painel sensorial, por exemplo, e os ambientes com colchonetes mostram que não é um recurso pensado apenas para crianças. É importante considerar o adulto autista que gosta de rock e que, muitas vezes, enfrenta limitações sociais para fazer amizades e acaba deixando de sair com os amigos por receio de estar em um ambiente onde possa se desregular e gerar preocupação”, analisa. 

“E não é uma iniciativa voltada apenas para pessoas autistas. O Sesc também conta com intérprete de Libras. É um evento pensado para incluir o máximo de pessoas possível e ampliar o acesso a experiências culturais das quais, muitas vezes, as pessoas e suas famílias acabam se privando. Quando se oferece um espaço seguro e acolhedor, é possível ampliar essas experiências para adultos, crianças, jovens e adolescentes”, complementa ela, que é professora há 30 anos. 

Outro relato de experiência é o do educador Ronaldo Desidério Castange, mestre e doutor em Educação pela Unesp, que também participou da equipe de profissionais do Festival Sesc Thermas do Rock. 

“Como pessoa com autismo e como professor de Educação Especial, nunca tinha presenciado esse tipo de organização em um evento. Em um show, por exemplo, é possível acompanhar uma primeira apresentação, mas, com o passar do tempo, o excesso de luzes, sons e até alguns cheiros pode gerar um esgotamento”, explica.  
 
“O espaço sensorial criado pelo Sesc permite que a pessoa continue participando da programação de uma forma mais controlada, seja mais próxima do palco, com o uso de abafadores e óculos para regular os estímulos, ou em uma área mais afastada e silenciosa, onde possa se reorganizar e, depois, voltar ao evento”, completa. 

Ronaldo ainda destaca a importância desses espaços para a rede de apoio das pessoas neurodivergentes. “As famílias relatam cada vez mais dificuldade para sair de casa e participar de atividades sociais e culturais por receio de uma crise e do olhar de outras pessoas. A criação de um espaço acolhedor e a presença de profissionais especializados trazem mais segurança. Muitas vezes, por falta de acessibilidade sensorial, elas acabam deixando de vivenciar esses momentos.” 

“Estamos acostumados a encontrar acessibilidade voltada às questões arquitetônicas, como rampas, mas é a primeira vez que vejo uma estrutura pensada para a acessibilidade sensorial de forma tão ampla”, afirma o professor. 

Os relatos do público ao longo dos três dias também evidenciaram um desafio recorrente em cidades do interior: ainda são poucos os espaços que oferecem ambientes de regulação sensorial ou profissionais preparados para acolher pessoas neurodivergentes.  

“Este ano eu consegui ficar um pouco mais, justamente por causa desse espaço. Eu tenho dois filhos com diferentes neurodivergências, um tem deficiência intelectual e o meu outro filho já tem altas habilidades e tem uma sensibilidade maior, os abafadores ajudaram bastante”, conta a empresária Tayane Ferreira. 

As atividades do Festival Sesc Thermas do Rock também contaram com interpretação em Língua Brasileira de Sinais (Libras). O recurso esteve presente nos shows e nas ações realizadas em outros pontos do festival, como oficinas e vivências, com intérpretes disponíveis para mediar a comunicação sempre que necessário.  

Para o intérprete de Libras Danilo Augusto Miranda, a acessibilidade comunicacional em um festival envolve diferentes momentos da programação. “Oferecer interpretação em Libras possibilita que pessoas surdas também participem do festival com autonomia e dignidade. As barreiras de comunicação vão além das apresentações musicais. Informações de serviço, falas dos artistas e avisos ao público também fazem parte da experiência e precisam estar acessíveis para que as pessoas surdas possam acompanhar o contexto do evento”, explica. 

Nesse cenário, iniciativas como a do festival indicam possibilidades para outros equipamentos culturais, museus, bibliotecas, centros comerciais e eventos realizados na cidade. 

Pensada sob a perspectiva da inclusão e do acesso, a proposta reafirma um princípio fundamental: a cultura é um direito de todos. Ao acolher diferentes formas de sentir, perceber e ocupar os espaços, o festival amplia sua função e se torna também um ambiente de convivência, pertencimento e respeito às diferenças. 

Vídeo publicado no Instagram @sescthermas , que mostra a experiência do Espaço de Regulação Sensorial durante o Festival.

Texto: Fernanda Nogueira 
Edição de texto: Thiago Ferri 
Fotos: Maila Alves e Gustavo Castellon
Vídeo: Renan Cantuario  

Utilizamos cookies essenciais para personalizar e aprimorar sua experiência neste site. Ao continuar navegando você concorda com estas condições, detalhadas na nossa Política de Cookies de acordo com a nossa Política de Privacidade.