Espetáculo Interior estreia no Sesc Avenida Paulista

04/11/2026

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Interior é um espetáculo teatral que investiga os múltiplos sentidos da palavra que lhe dá título: das cidades do interior do Brasil às dimensões íntimas do corpo, da memória, do afeto e da imaginação. Com dramaturgia de Jhonny Salaberg, direção de Dinho Lima Flor e idealização de Jackson Gleizer, o espetáculo estreia no Sesc Avenida Paulista em 12 de novembro e fica em cartaz até o dia 13 de dezembro, com sessões de quinta a sábado, às 20h, e aos domingos e feriado, às 18h.

A dificuldade contemporânea de sonhar, especialmente nas grandes metrópoles, é o ponto de partida da criação. Em contraponto à pressa das cidades, o interior aparece como um território simbólico onde o tempo pode desacelerar, o corpo encontra repouso e a imaginação abre espaço para outras possibilidades de existência. A partir de experiências pessoais, memórias familiares e histórias compartilhadas, a peça entrelaça relatos de diferentes gerações e regiões do país, revelando modos de vida atravessados pelo trabalho, pela oralidade, pelos deslocamentos e pela resistência cotidiana.

O processo de pesquisa reúne as vivências de quatro artistas vindos de diferentes regiões do Brasil: Jackson Gleizer e Sammer Iêgo Lemos, da região do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais; Joy Catharina, de Piracicaba, no interior de São Paulo; e Lakís Farias, de Ibicuí, no interior da Bahia. O encontro entre essas trajetórias alimenta a dramaturgia, de caráter poético e documental, que aproxima lembranças pessoais de narrativas coletivas. “Em 2024, parte do grupo realizou um intercâmbio no Vale do Jequitinhonha durante cinco dias, para vivenciar a cultura local, aprofundar a pesquisa sobre os modos de vida, os saberes e as relações que constituem a região”, conta Jackson Gleizer, idealizador e ator.

Em cena, três camadas narrativas se entrelaçam: as experiências e os depoimentos dos intérpretes, as trajetórias de quatro personagens (Jacira, Vicente, Rosália e Geneci) e as chamadas cenas de atmosfera, que recriam situações corriqueiras da vida interiorana, como conversas entre vizinhos, fofocas e o hábito de colocar uma cadeira diante de casa para acompanhar o movimento da rua. “Esses pequenos acontecimentos, aparentemente banais, ganham dimensão poética e revelam a potência das relações cotidianas como espaços de encontro, memória e transmissão de histórias”, acrescenta Joy Catharina, assistente de direção e atriz.

As trajetórias das personagens também percorrem caminhos de partida e permanência. Jacira deixa o interior paulista rumo à capital, onde vai trabalhar com costura, no bairro do Brás. É ali, em um restaurante, que conhece Vicente, vindo do Vale do Jequitinhonha. Antes de chegar a São Paulo para trabalhar em uma metalúrgica, ele migra para outra região de Minas Gerais para o corte de cana, acompanhado por Geneci, seu companheiro de jornada. As experiências dos dois homens se cruzam com a de Rosália, mulher de Geneci, que permanece no Vale e assume a responsabilidade pelo sustento da casa e pelo cuidado da filha. Artesã do barro, ela representa a força das mulheres que permanecem e sustentam a vida comunitária, mesmo quando a migração dos homens transforma a dinâmica familiar.

“A personagem de Rosália dialoga com uma das questões que impulsionam a criação: a experiência das chamadas ‘viúvas de maridos vivos’, mulheres cujos companheiros partem para trabalhar no corte de cana ou na colheita de café, enquanto elas permanecem responsáveis pela casa e pela família”, explica Jackson. A força dessas mulheres também marcou a experiência do grupo no Vale do Jequitinhonha, como destaca Joy: “A Rosália é uma personagem muito importante porque representa algo que ficou muito forte para nós nessa viagem: a liderança feminina”.

A partir dessa realidade, o espetáculo amplia o olhar para os vínculos afetivos, as ausências e as formas de autonomia construídas por essas mulheres. Ao mesmo tempo, desloca a ideia de interior para além da geografia, investigando também os espaços íntimos que cada pessoa carrega consigo.

Ao percorrer São Paulo, Minas Gerais e Bahia, Interior dá visibilidade a trabalhadores e trabalhadoras pouco representados nas narrativas dominantes: costureiras, boias-frias, artesãs do barro, radialistas, ambulantes e tantos outros que constroem o cotidiano com as próprias mãos. O gesto manual atravessa a encenação como símbolo de trabalho, sobrevivência e transmissão de saberes. Costurar, moldar, cortar e construir são ações que conectam histórias individuais a uma memória coletiva, revelando a riqueza de conhecimentos que circulam entre gerações.

Essa dimensão se materializa nos elementos que compõem o universo visual e simbólico da peça. A cana, o metal, o barro e o tecido estabelecem relações com as trajetórias das personagens e com os diferentes territórios percorridos. A corda e a corneta também integram esse conjunto de referências, enquanto as botas e as roupas em linho contribuem para a construção dos figurinos, criando uma atmosfera que aproxima o trabalho, o corpo e a paisagem.

Entre músicas, anúncios de rádio, cantos de trabalho e listas faladas com nomes de rios e cidades, o espetáculo compõe um mosaico de vozes e lembranças. Com leveza e sensibilidade, atravessadas por momentos de humor, Interior transforma gestos cotidianos e histórias de vida em matéria cênica, convidando o público a reconhecer, nas experiências de quem parte e de quem fica, questões compartilhadas sobre pertencimento e identidade. Mesmo diante das desigualdades, da exploração do trabalho e das distâncias impostas pelo chamado progresso, os interiores – geográficos e subjetivos – permanecem como territórios férteis de imaginação, sonho e humanidade.

Ficha Técnica

Idealização: Jackson Gleizer
Dramaturgia: Jhonny Salaberg
Direção: Dinho Lima Flor
Assistência de direção: Joy Catharina
Elenco: Jackson Gleizer, Joy Catharina, Lakís Farias, Nilcéia Vicente e Sammer Iêgo Lemos.
Direção musical e preparação vocal:  Rodrigo Mercadante
Trilha sonora original e composições: Jonathan Silva e Lakís Farias
Músicos: Juh Vieira e Pedro Vagão
Preparação corporal e direção de movimento: Cibele Mateus e Val Ribeiro
Figurinos: Letícia Cortes
Desenvolvimento de peças: equipe VOLAT
Cenografia e adereços: Wanderley Wagner
Desenho de luz: Matheus Brant
Operação de luz: Letícia Nanni
Operação de som: Hugo Bispo
Fotografia: Igor Franco, Katarina Lìma Flor e Verônica Aleixo
Videomaker: Igor Franco
Mídias Sociais: Acervo Estúdio
Assessoria contábil: Auditicontrol
Assistência de produção: Calu Batista
Direção de produção: Giovanna Monteiro e Grazi Vieira

Serviço

Teatro estreia | Interior
Texto de Jhonny Salaberg. Direção de Dinho Lima Flor
Data: 12 de novembro a 13 de dezembro de 2026. Quinta a sábado, às 20h. Domingos e feriado (20/11), às 18h. 
Local: Arte II (13º andar)
Duração: 80 minutos 
Classificação indicativa: 12 anos 
Acessibilidade: Libras nos dias 19 e 26/11 e 03/12. Audiodescrição nos dias 29/11 e 03/12. 
Ingressos: R$ 60 (inteira), R$ 30 (meia) e R$ 18 (credencial plena).

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