
Por Duda Leite*
O pernambucano Lírio Ferreira é um cineasta/cinéfilo desde que foi picado por um marimbondo, em sua Recife natal. Desde então, já dirigiu mais de 20 filmes, entre eles o clássico “Baile Perfumado” (1996) e “That’s a Lero Lero” (1994), curta sobre a passagem de Orson Welles pelo Recife.
Agora Lírio co-dirige com Karen Harley “Para Vigo Me Voy”, documentário sobre a vida e obra de Cacá Diegues, que estreou no Festival de Cannes no ano passado, e é um dos destaques da Mostra Amor ao Cinema.
Leia a seguir dez perguntas para Lírio Ferreira.
DUDA – Qual foi seu primeiro encontro com o Cacá Diegues?
LÍRIO FERREIRA – Cacá é uma pessoa que atravessa muita gente. Além de ser um cineasta e um pensador incrível, é um cara que de alguma maneira, estava sempre próximo das novas gerações. Ele sempre acolheu bem essas novas gerações. Acho que essa renovação sempre foi um interesse dele. Eu e o Paulo Caldas estávamos montando o “Baile Perfumado”, em São Paulo. Estávamos hospedados em um hotel, e não sei como, o Cacá entrou em contato, ou eu entrei em contato. Começamos a trocar informações. Naquela época era via telefone fixo ou fax. Ele pediu para ver um curta que eu tinha feito, chamado “That’s A Lero Lero”, sobre a passagem de Orson Welles por Recife. Depois, me lembro que eu e o Paulo Caldas, voltamos para o hotel, e quando cheguei tinha um envelope para mim. Era uma carta datilografada pelo Cacá Diegues dizendo que tinha gostado do filme, e que havia repassado para o Caetano Veloso. Eu fiquei todo orgulhoso. Duas pessoas que eu admiro para caramba assistindo aquele documentário que eu havia feito com o Amin Stepple. Voltamos pro barzinho que tinha na esquina, da Rua Maria Antônia. Foi assim que nossa amizade começou a se estreitar. A gente estava fazendo o filme na raça e ele conseguiu nos pôr em contato com o Avelar, que estava na Rio Filme, na época, e isso foi muito importante. Ele sempre foi muito gentil e afetuoso e com um olhar muito aberto para estas novas gerações.
DUDA – Como surgiu o convite para dirigir o documentário “Para Vigo Me Voy”, sobre o Cacá Diegues?
LÍRIO FERREIRA – Fomos estreitando nossa relação. Vim morar aqui no Rio de Janeiro. E depois nos encontramos em vários festivais e na casa dele, e sempre tivemos uma amizade muito bacana. E tive essa surpresa, quando o Diogo Dahl, produtor, com quem eu estava fazendo um filme sobre o Hermeto Paschoal, “O Menino D’Olho D’Água”, ele me convidou para participar do filme, que na época, ainda não tinha este título. E disse que Karen Harley também tinha sido convidada. Eu achei muito massa, porque já conhecia Karen há tempos, nós dois pernambucanos, mas nunca havíamos trabalhado juntos. Fiquei muito a fim de poder jogar meu olhar para esta pessoa tão importante para a cultura brasileira. E começamos a estreitar nossas conversas. Na época que começamos a fazer o filme, o Cacá ainda estava finalizando “Deus É Brasileiro 2”. Foi um encontro muito bacana.
DUDA – Como foi sua colaboração com a Karen Harley?
LÍRIO FERREIRA – Foi muito legal, Eu conheço a Karen há muito tempo. Sempre admirei muito o trabalho dela. A gente é amigo de nos encontrar no final do ano e passar o Réveillon juntos. Temos muitos amigos em comum. Cacá sempre promovendo estes encontros bacanas. No caso de Karen, ela havia trabalhado com o Cacá no filme “Veja Essa Canção” (1994), um dos primeiros filmes que ela montou. Então junto tudo: a vontade de trabalhar junto, a admiração e a importância de Cacá nas nossas vidas. Foi incrível.
DUDA – O Cinema Novo era um movimento considerado bastante intelectualizado, porém o cinema do Cacá flertava com um cinema bem popular. Como você acha que ele equilibrava estas duas vertentes?
LÍRIO FERREIRA – Acho que algumas outras pessoas do movimento do Cinema Novo perceberam isso. O Ruy Guerra também passou um pouco por isso, talvez não de uma maneira tão radical. Eu acho que nos anos 1980 havia uma espécie de culpa por fazer um cinema, digamos, mais comercial. O cinema Novo passou por algumas fases. Teve essa primeira fase dos jovens rebeldes, os inquietos, contra tudo e contra todos, com essa coisa da ruptura. Essa transgressão, que faz parte dessa primeira fase. Ali o cinema brasileiro estava sendo inventado. Era a criação do cinema moderno brasieliro, com aqueles jovens isqueiros que nos inspiraram tanto. Mas teve essa coisa das fases. O Cinema Novo vem com essa proposta de ruptura e de invenção. O mundo abraça essa ideia. O Glauber vai filmar na África e na Europa. O Ruy vai filmar na França. Com o surgimento da Embrafilme, com uma proposta mais popular, acho que tem uma virada. O Cacá é o primeiro que se adapta a esta nova estrutura. Cacá nos anos 1970, ele transforma sua carreira e seu cinema: no início era uma coisa que se importava mais com a ruptura da linguagem, e talvez Cacá tenha se adaptado mais, porque ele era um cineasta da frontalidade. O Glauber e o Ruy Guerra eram mais incisivos de entrar nos planos. Então, acho que ele foi o primeiro a se adaptar a essa proposta do cinema, digamos, mais comercial. Quando ele faz seu primeiro grande sucesso comercial, que é “Xica da Silva”. Mas, Cacá fazia um filme sucesso do tamanho de Xica da Silva, e em seguida ele faz um filme “menor” que é “Chuvas de Verão”, que é um filme lindo. Uma história menor, mas baseada nos silêncios. E logo em seguida, ele faz “Bye Bye Brasil”, que é um road movie que o projetou para o mercado internacional. Então, acho que o Cacá sempre teve esse toque, e que conseguiu se adaptar. Ele sempre foi um grande fã de musicais, a música sempre foi bem importante nos seus filmes. Mas o Brasil, a favela, o samba, o futebol, são coisas que sempre impulsionaram a carreira do Cacá. Sem contar, o protagonismo negro, que naquela época não era algo comum. O protagonismo feminino, em “Xica da Silva”. Quem sabe até Glauber entrasse por esse caminho? Glauber entra nos anos 1980 dirigindo o filme “A Idade da Terra”, que é um filme muito radical, mas não sei até que ponto Glauber também se adaptaria a isso, camaleônico com ele era. Mas Cacá foi o que mais conseguiu se adaptar.
DUDA – Você citou o protagonismo negro, e no seu filme isso fica bem claro. Ele sempre teve um olhar bem voltado para a questão negra. Qual foi a importância do Cacá na representatividade do negro no cinema?
LÍRIO FERREIRA – Foi incrível, se não foi a mais, foi uma das mais importantes. Não vamos nos esquecer que o Cinema Novo era feito por um grupo de jovens inquietos e brancos de classe média, e classe média alta. Mas o Cacá tinha este olhar desde o primeiro filme em episódios que ele faz, onde ele volta sua câmera para os jovens do morro. Ele faz o filme dele sobre a Escola de Samba, então, ele já sobe o morro. Ele já tem essa conexão no seu primeiro curta. E quando ele dirige seu primeiro longa, já há o protagonismo engro, que é o “Ganga Zumba”. Já temos o Antônio Pitanga. Isso foi sempre recorrente na obra dele. E ele sempre voltava ao tema, como em “Xica da Silva” e em “Orfeu”. E até nas posições dele. Na vida política, ele foi uma das primeiras pessoas a fazer uma conexão com o grupo Nós no Morro, do Vidigal. Então, ele sempre teve essa preocupação de trazer os excluídos para dentro do cinema dele. EntãO, ele é de muita importância, sobre a questão dos filmes feitos por negros no Brasil.
DUDA – O Cinema Novo era um grupo de diretores bem masculino, como vocês mostram no filme. Você acha que isso era um reflexo da época?
LÍRIO FERREIRA – Com certeza. Ainda hoje tem isso. Melhorou muito, ainda bem, mas é um reflexo daquela época, consciente ou inconsciente, mas não tinham mulheres. Tinha a Helena Solberg ali pelos cantos, você tinha a Suzana Amaral, no filme do Joaquim Pedro, que faz um documentário sobre o Cinema Novo, para a TV alemã. No documentário só tem homem, e você vê a Suzana Amaral fazendo uma entrevista aqui e ali. É um reflexo da época. Isso não tira a importância do Cinema Novo, mas é algo para se pensar. Ainda bem que a coisa evoluiu, mas ainda está longe do ideal. Mas hoje podemos ter essa balança um pouco mais equilibrada.
DUDA – Vocês conseguiram materiais de arquivo muito raros. Quais as maiores pérolas que vocês encontraram durante este processo de pesquisa?
LÍRIO FERREIRA – Tem vários momentos muito marcantes. Essas imagens do Cacá no exílio na França, por exemplo, comendo feijoada, tomando caipirinha e muito deprimido. Com todo aquele fleuma francês da depressão, de estar com saudades do Brasil. E do filme que ele fez para a TV2 francesa, que ele vai para a rua sobre como ele estava se sentindo estrangeiro e o que os franceses acham disso. A grande pérola foi poder trabalhar com o Antonio Venâncio, que é o grande pesquisador de imagens do Brasil, e ele poder trazer esse garimpo de preciosidades do Cacá. Que coloca esse grande personagem que é o cacá, atravessando várias fases. Se você vai contar a história do Cacá, ele nasceu numa época de grande turbulência, logo após a segunda guerra, vem para o Rio de Janeiro nos anos 1950, quando o Rio era a melhor cidade do mundo para se morar. E no final da década de 1950, com o Nelson Pereira Dos Santos, ele está crescendo com aquilo, e a chegada da Bossa Nova. A ditadura militar, à reação à ditadura, e a redemocratização. Cacá cruzou por tudo isso. A transformação do analógico para o digital. Ele foi um dos primeiros a montar um filme em AVID, então você contar essa história, com essas imagens que o Antonio Venâncio garimpou, foi um mergulho no Brasil profundo.
DUDA – Como você definiria seu amor pelo cinema?
LÍRIO FERREIRA – É difícil. Quando você é mordido por aquela mosquinha azul, que no meu caso, era um marimbondo, que doi para caramba. Eu não tinha nem noção. No meu caso, a paixão que eu tenho por tudo que envolve o cinema, sobretudo, e não é só de fazer, e de estar no set, mas de estar na sala de cinema. Eu tenho um prazer muito grande de entrar numa sala e ter uma experiência coletiva. No escuro, e passar ali duas horas sem se preocupar com absolutamente nada, morrendo de raiva que as pessoas não saem do celular. É uma necessidade física para mim. Eu acho que isso é amor também. Eu nasci no cinema assistindo. O que me levou ao cinema foi ser cinéfilo, assistir filme, e estar numa sala escura. Já fui muito mais otimista na vida, acho que é uma experiência que não vai acabar, mas que já está menos popular, que é um absurdo, e que é muito triste. Mas eu saio de uma sala escura, de uma outra maneira, de um outro jeito. Sobretudo quando o filme mexe comigo. Se for para falar de amor, eu acho que está aí, nessa coisa de assistir a filmes. Quando eu era jovem, eu fiz vários filmes sem ter usado uma câmera, na minha cabeça. Mas, o cinema só se completa quando você vê o filme em uma tela grande. E cacá estar nessa Mostra é quase uma metáfora, porque ele era um grande amante do cinema. De onde ele estiver, ele vai ficar contente.
DUDA – O cinema já foi declarado morto diversas vezes. Em 1983, o Peter Greenaway declarou que o cinema havia morrido quando o controle remoto chegou à sala de estar. Por que você acredita que o cinema continua resistindo?
LÍRIO FERREIRA – É aquela coisa do Nelson Sargento: “agoniza, mas não morre”. Acho que porque tem abnegados, pessoas que se apaixonam, porque ainda é uma experiência incrível. Acho que não vai morrer, mas o cinema como eu conheço, eu acho que já morreu. Você vive tendo mortes. Ontem eu morri. Existem as pequenas mortes, até que você tem a grande morte e parte para um plano superior. O cinema não passou por isso, mas tiveram vários baques. Eu acho que o cinema já teve sua fase áurea. Era químico, virou físico. Com o advento da pandemia, acho que o cinema foi a arte que mais sofreu. Porque quando as pessoas saíram da pandemia, elas queriam ver gente ao vivo. Show, teatro, espetáculos de dança. E no cinema não foi bem assim. Você vai ao cinema, tem “A Odisseia”, tem o “Convite”, mas não está fácil. Agoniza, mas não morre. Não tenho uma bola de cristal, mas o sentimento de um cinema que eu escolhi para me acompanhar, não morreu mas está morrendo a cada pandemia. Não sei se as pessoas vão assistir a um filme com um negócio aqui na mão, se vai ter que ser algo rápido para você não perder muito tempo. Eu sou do tempo que você ia no cinema ver “Ben Hur”, que durava 4 horas, e era normal. Hoje em dia, você vai ver um filme de 3 horas, e já fica desesperado. Como é o sinal dos tempos. É uma pequena morte. Eu acho que o cinema vai existir. Fico feliz em saber que ainda existe este vento que move a biruta, mas já fui mais otimista.
DUDA – O cineasta François Truffaut declarou uma vez que “o cinema é mais importante do que a vida”. Você concorda com essa declaração?
LÍRIO FERREIRA – Não! O cinema também é vida, mas não acho o cinema mais importante do que a vida. A vida é muito mais importante do que o cinema. O cinema é massa, é a única possibilidade do audiovisual de você registrar o tempo, de aumentar ou diminuir, dependendo do ritmo do filme, e sobretudo do sonho… É um meio onde você pode projetar suas inquietações, suas frustrações, é um espaço onde você pode ir para o futuro e para o passado, tudo ao mesmo tempo. Mas, viver é melhor. E eu espero viver fazendo cinema.
* Duda Leite é Jornalista, Curador e Cineasta.
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