Favela de Barro – Instáveis em Queda

11/08/2026

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Espetáculo da Esquadrilha Marginália, em cartaz no Sesc Pompeia, investiga a formação das favelas brasileiras a partir da memória, do território e da disputa pelo direito à moradia

Espetáculo da Esquadrilha Marginália parte da Guerra de Canudos e das memórias das periferias para investigar a disputa pelo território, o direito à moradia e as formas de resistência presentes nas favelas brasileiras

Onde o povo vai morar? A pergunta está no centro de Favela de Barro – Instáveis Moradias em Queda, espetáculo que investiga a formação das favelas brasileiras e sua relação com processos históricos de exclusão, remoção e disputa pelo território, partindo da Guerra de Canudos e da origem do termo “favela”.

Em cena, a montagem não busca apenas reconstruir essa história, mas investigar como ela permanece inscrita nos corpos e nos territórios. Depoimentos, cantos, arquivos, fabulações e sons urbanos compõem uma dramaturgia fragmentada, na qual acontecimentos históricos e memórias individuais e coletivas se encontram — sem organizar a narrativa de maneira linear, convidando o público a estabelecer conexões entre as histórias apresentadas.

O corpo ocupa um lugar central nessa construção: funciona como um arquivo vivo, carregando histórias que nem sempre aparecem nos registros oficiais. Gestos, modos de falar, afetos, práticas culturais, músicas e formas de ocupar a cidade também são documentos de uma trajetória coletiva, articulando teatro, performance, música, oralidade e arquivo.




O barro como matéria e metáfora

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Foto: Noelia Najera

O próprio título da montagem aponta para uma das imagens centrais do espetáculo. O barro é matéria de origem e transformação: molda-se, endurece, quebra e volta a ser trabalhado. Em cena, essa característica se aproxima da experiência das comunidades que vivem em territórios sujeitos à precariedade, à remoção e às constantes transformações urbanas — a casa pode ruir, o território pode ser alterado, mas a capacidade de reconstrução permanece.

A escolha do barro também desloca expressões historicamente usadas para desqualificar as populações periféricas. Termos associados à lama e à terra, que muitas vezes aparecem como marcas de inferiorização, são ressignificados como elementos de criação e pertencimento — e a favela deixa de ser apenas o lugar sobre o qual se fala para ocupar uma posição de sujeito da narrativa: território de memória, mas também de produção cultural, pensamento e linguagem. Samba, funk, oralidade, dança, festas e práticas comunitárias aparecem como parte dessa experiência cênica.

Ao colocar em cena histórias de ocupação, deslocamento e permanência, a montagem propõe olhar para as favelas não apenas a partir das ausências produzidas pela desigualdade, mas também pelas formas de criação que surgem desses territórios. O barro, nesse sentido, torna-se imagem de uma experiência marcada pela instabilidade, mas também pela capacidade de transformação e reconstrução.

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Foto: Noelia Najera

Sobre a pesquisa e a Esquadrilha Marginália

Para o grupo, falar sobre a favela é também falar sobre o projeto de país construído ao longo da história: mais de um século depois de Canudos, problemas como a falta de saneamento, água e energia, e o acesso precário à saúde, à educação e à moradia digna ainda fazem parte da realidade de muitos territórios — questões que atravessam o cotidiano da Esquadrilha Marginália, sediada em Cubatão, na Baixada Santista, onde vivem seus integrantes.

Essa investigação está relacionada à pesquisa do grupo sobre o Teatro Pós-Épico, linguagem que nomeia sua prática artística e questiona a ideia de que a produção das periferias deva ser compreendida apenas como “teatro periférico” — uma produção que envolve pesquisa estética e elaboração intelectual próprias, partindo do território sem estar restrita a ele.

Criada em 2016, a Esquadrilha Marginália desenvolve trabalhos que articulam criação, formação e reflexão sobre território e memória, entre eles o Papo Marginal (2017), encontros com artistas, pesquisadores, trabalhadores da cultura e moradores das periferias, e o espetáculo de rua De Repente Tiago, que desdobrou-se, em 2020, no curta-metragem De Repente Tiago… o Retorno.

Favela de Barro – Instáveis Moradias em Queda é resultado de uma pesquisa desenvolvida entre 2023 e 2025. Estreado no Sesc Avenida Paulista, o espetáculo foi indicado, em 2025, à 36ª edição do Prêmio Shell de Teatro, na categoria Energia que Vem da Gente.


Ficha Técnica

Idealização: Esquadrilha Marginália
Direção: Sander Newton
Dramaturgia: JùpïRã Transeunte (Processo Colaborativo)
Direção de Movimento: Castilho
Elenco: Jezuz, Julia Victor, JùpïRã Transeunte, Michel do Carmo e Rafael Almeida
Técnico de Palco: Michel do Carmo
DJ/Produção Musical: Breno Garcia (Groovy)
Desenho de Luz: Babi Sabino e Rafael Almeida
Operação de Luz: Babi Sabino e Larissa Siqueira
Operação de Som: Antônio Caio
Cenografia: *Jezuz *
Cenotécnico: Josué Salvino
Assistência de Cenografia: JùpïRã Transeunte
Figurino: Amelia Maria e Julia Victor
Assistência de Figurino: *Jezuz *
Composição – Canção das Águas: *Jezuz *
Produção: *Jack (Corpo Rastreado), JùpïRã Transeunte e Jezuz *
Social Media: Michel do Carmo

Mini bios

Jezuz — Ator, performer, arte-educador e produtor cultural, cria da Vila Esperança, em Cubatão. É cofundador da Esquadrilha Marginália e pesquisa o Teatro Pós-épico.

Julia Victor — Atriz, fotógrafa, cantora, produtora cultural e arte-educadora, nascida em Cubatão e integrante da Esquadrilha Marginália.

JùpïRã Transeunte — Performer, ator, educador, produtor, escritor e geógrafo pela USP, indígena e não-binário, com atuação artística na Baixada Santista e em São Paulo.

Michel do Carmo — Ator e músico de Cubatão, integrante da Esquadrilha Marginália desde 2016 e um dos criadores do grupo.

Rafael Almeida — Ator e técnico de iluminação de Cubatão, integrante da Esquadrilha Marginália e arte-educador em projetos de iniciação teatral.

Sander Newton — Ator, diretor, arte-educador e fotógrafo, com pesquisa sobre identidade, memória, ancestralidade e território de Cubatão.

Breno Garcia (Groovy) — Produtor musical, compositor, ator e diretor de cinema, com mais de 15 anos de trajetória e pesquisa ligada ao hip-hop e às culturas periféricas.


FAVELAS DE BARRO: INSTÁVEIS MORADIAS EM QUEDA
com Esquadrilha Marginália
De 19 a 22/8, quarta a
sábado, às 19h30
Espaço Cênico. 14 anos.
R$50 / R$25 / R$15

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