
Foto: Vanessa Rodrigues
Pensando no espetáculo como um “altar vivo” de resistência, como foi o desafio de unir a estrutura clássica do circo à força dos terreiros e das ruas?
O circo nasceu na rua. O que costumamos chamar de “estrutura clássica” faz referência à estética europeia e canadense, difundida pelo Ocidente, mas o circo tem manifestações que a mídia e o mercado nem sempre alcançam. O “altar vivo” se consagra quando o público entra no terreiro cênico e se conecta com a energia que já está girando ali e se intensifica com a cena.
Como o risco das acrobacias dialoga com a vivência negra no Brasil?
A luta é diária e a superação é capoeira. O espetáculo {FÉ}STA é fundado na celebração: corpos conversam com a gravidade e a música dialoga com a imagem e o movimento. O risco é inerente ao circo, mas a técnica e a ginga são nossas ferramentas de preparo para provocar e encantar. Protagonistas e plateia trocam afetos, superando as dores pela magia.

Nesse contexto, qual é o papel político do riso e da alegria, e como ele se manifesta também na fé?
Festejar é um ato político – e isso incomoda o Poder, que prefere o apagamento estrutural. Rir pelo prisma da fé desbloqueia a comunidade para saborear um bom papo, uma comida farta e incorporar a dança. Esse é o combo de felicidade que o espetáculo faz girar diante da plateia.
Ricardo Rodrigues é diretor do espetáculo {FÉ}STA.
Festas não acontecem sozinhas: são espaços e tempos de partilha, em que cada presença importa e todos atuam como protagonistas. Para a população negra em diáspora, esse encontro vai além do entretenimento; torna-se um exercício coletivo de resistência. Sob essa perspectiva ancestral, o espetáculo celebra o ciclo da vida tendo nascimento, união, morte e fé como pilares. No picadeiro, o riso manifesta a fé, o encontro gera renascimento e o corpo negro afirma sua dignidade e consciência histórica. Entre acrobacias, dança e música ao vivo, o virtuosismo vira manifesto: o risco das acrobacias ecoa a resiliência histórica, transformando a lona em um altar vivo de transmissão cultural e celebração do existir.
Ficha Técnica
Criação: Coletivo Prot{agô}nistas
Argumento: Ricardo Rodrigues, Renato Ribeiro e Washington Gabriel
Direção geral: Ricardo Rodrigues
Assistência de direção: Washington Gabriel
Direção musical: Melvin Santhana
Desenho e operação de luz: Danielle Meireles
Desenho e operação de som: André Papi
Figurino: Ocorre entre linhas | Karine Lopes
Cenografia: Ricardo Rodrigues
Serralheiros: Gilson Toquearte e Jovani Almeida
Visagismo: Fagner Saraiva
Preparação circense: Erickson Almeida
Artistas criadores
Circo: Guilherme Awazu, Helder Vilela, Jéssica Turbiani, Keithy Alves, Ricardo Rodrigues, Robert Gomez, Tatilene Santos, Wilson Guilherme e Zanza Santos
Música: Guilherme Awazu, Jaque da Silva, Mariana Per, Melvin Santhana, Pitee Batelares e Vinícius Ramos
Composições: Ayo Kuntima, Jaque da Silva, Mariana Per, Melvin Santhana, Ricardo Rodrigues e Vinícius Ramos
Coreografias: Keithy Alves, Washington Gabriel, Wilson Guilherme e Zanza Santos
Designer gráfico: Lais Oliveira
Fotografia: Sergio Fernandes
Produção geral e executiva: Jéssica Turbiani e Ricardo Rodrigues
Assistente de produção: Clau Silva
Realização: Exuberante Arte
O espetáculo {FÉ}STA foi apresentado no dia 13/09 às 15h no Sesc Santos.
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