Gabriela Ponce e as escritas do corpo

29/10/2026

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Intimidade feminina é o ponto de partida para os textos e o teatro de escritora e dramaturga equatoriana (foto: Florencia Nunes)

Leia a edição de novembro de 2026 na íntegra

POR RACHEL SCIRÉ

Para a escritora, dramaturga e diretora teatral equatoriana Gabriela Ponce, é notável o salto dado por mulheres no universo das artes cênicas. “Há 15 ou 20 anos, a maioria dos festivais estava repleta de diretores e dramaturgos homens, que detinham autoridade para exercer essa hierarquia da escrita ou da direção. Sinto que hoje esses espaços estão sendo ocupados por mulheres, que trouxeram um frescor e maior profundidade às linguagens cênicas”.

A reflexão foi compartilhada por Gabriela durante a 8ª edição do Mirada – Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas, realizado pelo Sesc São Paulo, entre 3 e 13 de setembro, na Baixada Santista. A programação trouxe, na abertura, o espetáculo ME·DE·AS, dirigido por ela e realizado pelo Coletivo Mitómana, do qual faz parte.

Gabriela tem sua escrita focada em explorar relações entre o corpo, a intimidade, os vínculos e a experiência pessoal. O livro de contos de estreia, Antropofaguitas (2015), foi premiado pelo Ministério da Cultura do Equador. Entre outros prêmios, a autora recebeu o Premio Municipal Joaquín Gallegos Lara, de Quito, na categoria teatro, com Lugar (2018), e na categoria de melhor romance do ano, com Sanguínea (2019).

Com formação em Filosofia e Sociologia pela Universidad San Francisco de Quito (USFQ), onde também leciona, e em teatro, com o tradicional grupo teatral equatoriano Malayerba, Gabriela se especializou em direção teatral na Southern Illinois University, em Carbondale (Estados Unidos). Atua como diretora artística executiva da Fundación Teatro Nacional Sucre e, neste Depoimento, fala sobre suas escolhas artísticas e experiências.

filosofia
Sempre digo aos meus alunos que saiam do teatro e estudem filosofia para depois voltar a ele. É no teatro que se abordam as questões existenciais e esse trabalho torna-se mais rico à medida que é mais conceitualizado. O teatro levanta temas que precisam ser questionados e a leitura filosófica tende a complexificar a realidade. Tanto a sociologia quanto a filosofia semearam em mim perguntas relacionadas ao social, ao universal, ao existencial, à vida, que servem e nutrem muito o teatro que eu faço. Por isso, estou sempre recorrendo à filosofia.

Mitómana
O coletivo Mitómana surgiu há 20 anos em Quito. Éramos um grupo de estudantes que havia saído do Malayerba em busca de uma linguagem própria. Queríamos nos desvincular dos mestres e fazer um teatro que respondesse às nossas perguntas também como mulheres – pois somos quase todas mulheres. Trabalhamos com uma metodologia de criação interdisciplinar, com artistas visuais e sonoros. A composição cênica nos interessava muito. Eu, particularmente, comecei a me interessar pela escrita dramática, mas a partir de perspectivas não tão convencionais. Nesse sentido, fomos desenvolvendo um trabalho que, com o passar do tempo, acabou nos caracterizando. Investigamos como fazer um teatro que seja menos hierárquico, mais coletivo, interdisciplinar; que busque, de alguma maneira, gerar mecanismos de articulação dramatúrgica que não sejam mediados pelo texto, mas pelo corpo, pela relação entre o corpo e a palavra, pela sonoridade. Também houve uma busca por uma dramaturgia visual potente.

Cena do espetáculo Me·de·as, apresentado em setembro no Sesc Santos: investigação sobre a maternidade latina a partir do mito grego (foto: Florencia Luna)

Me·de·as
Quando começamos a pesquisa sobre Medeia, interessava-nos falar sobre a maternidade. Algumas de nós estávamos vivenciando essa experiência, que nos confrontava enquanto artistas e mulheres. Queríamos abordá-la a partir de um discurso amplo que questionasse ou subvertesse o que é tradicionalmente entendido como o ato de maternar. Encontramos muitas releituras de Medeia, que nos levaram a problematizar o mito – a personagem trágica, tão importante no imaginário ocidental, da mulher capaz de cometer o impensável, assassinar os próprios filhos. Várias versões de Medeia foram enriquecendo aquele material mítico, como a da romancista e ensaísta alemã Christa Wolf (1929-2011), que reconta a história sob a perspectiva da própria Medeia, ou a do francês Pascal Quignard. Nesse contexto, surgiu também o encontro com um grupo de migrantes venezuelanas que estavam no Equador – bailarinas que se juntaram à equipe e trouxeram suas histórias de migração com as filhas. A versão de Christa Wolf, inclusive, propõe que Medeia não matou os filhos, eles foram assassinados por serem estrangeiros. Assim passamos a refletir também sobre as implicações da migração – um fenômeno relevante no Equador. De repente, Medeia tornou-se um pretexto para acolher muitas histórias de mulheres e muitas histórias de maternidade.

escrita
Escrevo contos, romances e peças. Na minha escrita, que é bastante íntima, sempre me interessei por investigar os vínculos familiares, que são constitutivos da psique. Interessa-me muito a relação entre mãe e filha, bem como os laços entre irmãs; temas que giram em torno das relações e da intimidade têm sido um dos focos da minha investigação literária. E sempre abordei isso a partir de uma perspectiva mais autoficcional. Essa tem sido uma linha de trabalho minha, provavelmente porque eu escrevia diários quando criança e minha relação com a escrita sempre foi ligada à experiência de narrar a mim mesma. Por isso, acredito que há sempre um desdobramento do pessoal atravessando aquilo que escrevo.

feminino
Devemos muito ao feminismo das gerações anteriores, que foi conquistando espaços para que fosse possível nomear o corpo na escrita. Se os homens escreveram as grandes epopeias, muitas escritoras importantes criaram possibilidades para abordar o íntimo na escrita, aquilo que era mais doméstico, mais próximo do corpo, dos afetos. Fui muito marcada por algumas delas que ousaram escrever sobre temas que antes não estavam presentes, não eram comuns ou não estavam legitimados. Para citar uma que é daqui, lembro que, há muitos anos, quando li os contos de Clarice Lispector (1920-1977), me senti autorizada a escrever de uma forma rara, estranha, particular. A escrita dela me comoveu profundamente, me inspirou e me impulsionou. A lista é longa. Há uma escritora colombiana, Marvel Moreno (1939-1995), que descobri há pouco tempo, que foi muito importante e reveladora. Penso em nomes como o da francesa Marguerite Duras (1914-1996), extremamente subversiva em suas abordagens de escrita, nada convencionais, ou nos diários de Anaïs Nin (1903-1977).

direitos
As condições de trabalho para os artistas cênicos no Equador – e imagino que em toda a América Latina – são fortemente definidas pelas conjunturas políticas, o que é muito complexo. Temos vivenciado situações políticas que reduzem nossos direitos como artistas, tanto os direitos trabalhistas e as conquistas institucionais, que parecem cada vez mais restritas, quanto a liberdade de pensamento e de criação. Essas condições definem nossas formas de criar, preocupações e condições de trabalho. Nos países latino- -americanos somos muito marcados por uma conflitividade política. Quando existem instituições fortes e sólidas, e direitos protegidos, as possibilidades de criação também se fortalecem. Os processos de pesquisa cênica exigem tempo e espaço – para fazer teatro, você precisa de um lugar –, necessitam de muitas horas de ensaio, de um sistema de subsídio. Muitas vezes não conseguimos realizar um processo de pesquisa adequado, pois estamos sujeitos a condições de trabalho difíceis e a exigências institucionais complicadas.

latina
Não sei se existe uma identidade única do teatro latino-americano, acredito que existam muitos teatros latino-americanos. As próprias condições políticas e instabilidades nos tornam muito criativos nas leituras que fazemos da realidade, exigindo também respostas a partir dos nossos processos de criação. Surgem novas perguntas, novas formas de fazer e, nesse sentido, há muita imaginação e muita inventividade. O teatro latino-americano é, às vezes, menos previsível do que o teatro europeu. Lá você já sabe mais ou menos o que esperar, enquanto aqui está sempre sendo surpreendido – como em nosso cotidiano.

público
Depois da pandemia, o retorno ao teatro tornou-se um desafio. É difícil competir com todas as possibilidades oferecidas hoje pelo mundo virtual e pelas plataformas de streaming. Ao mesmo tempo, as pessoas valorizam momentos em que podem se desconectar das redes sociais. Temos tido um bom desempenho nos festivais de teatro recentes porque o público tem se sentido atraído pela oportunidade de assistir teatro latino-americano e encontrar espaços de convivência comunitária. Existem estratégias que nós, gestores culturais, devemos desenvolver para que a comunidade se aproprie dos espaços públicos – e, neste caso, dos teatros. Entre elas, integrar os teatros às comunidades do entorno. Muitas vezes, a programação é feita à margem da comunidade local, voltada apenas para quem já faz ou frequenta teatro. É preciso restabelecer a proximidade, para que a programação responda às necessidades das comunidades e envolva cada vez mais as pessoas nos processos de curadoria, que deveriam ser muito mais coletivos.

Assista a trechos do Depoimento com a dramaturga e diretora teatral equatoriana Gabriela Ponce, realizado em setembro de 2026, no Sesc Santos.

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