Herança-território

28/10/2026

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Por Vaniely dos Anjos França Dias* e Luiz Marcos de França Dias (Luiz Ketu)**

“O nosso povo, por não saber ler, não sabia como funcionavam as escrituras, perdendo assim muitas possibilidades de viver nas suas terras. Então o nosso povo resolveu que alguém de nós deveria saber ler e escrever para enfrentar essa situação. Fui formado para isso e faço isso até hoje. Por isso digo que não sou um pensador, mas um tradutor do pensamento do meu povo. E para o meu povo também sou um tradutor do pensamento do colonialista.”

Nego Bispo¹

As palavras de Nego Bispo inspiram ações efetivas em nosso povo. Ao escrever sobre o tema “herança”, sob uma visão quilombola dos modos de vida e das tecnologias presentes em nossos territórios coletivos, não pretendemos falar pelas mais de sete mil comunidades quilombolas do país, mas abordar o tema com base na vivência em contexto do Vale do Ribeira (SP). Portanto, semelhanças, convergências e especificidades permeiam os diversos contextos quilombolas presentes em todos os biomas brasileiros.  

O ato de escrever, para nós, é uma conquista que visa ampliar a luta contra a supremacia da escrita em relação à oralidade, base das histórias, da memória e da perpetuação da cultura quilombola. Logo, é primordial que falemos por nós mesmos.  

Ao pensarmos no termo “herança”, é comum associá-lo a bens materiais deixados por familiares, como casas, patrimônios e outros. Mas, numa perspectiva quilombola, é falar de nosso povo, das histórias que nos constituem e nos atravessam, das resistências, da memória e, principalmente, do território coletivo.  

No dicionário Michaelis, “herança” remete, entre outros significados, à “ação ou resultado de herdar”, “aquilo que se herda por disposição testamentária” e ao conjunto de bens espirituais recebidos de gerações anteriores.  

A nossa maior herança é o território coletivo. Não falamos somente da terra, de um lote cercado por muros, mas também de uma singularidade: a herança coletiva. O território pertence a todos que o habitam: gente, planta, viventes da mata, entes carnais e espirituais. A obrigação de quem o herda é deixá-lo melhor para as gerações futuras.  

Desde o nosso nascimento, no Quilombo São Pedro, na região do Vale do Ribeira (SP), vivenciamos diversas formas de opressão que assolam povos e comunidades tradicionais. Assim, a manutenção do modo de vida quilombola está também ligada a uma herança de resistência, táticas de defesa e organização comunitária.  

Nossa herança não está em um papel escrito. Nossos tratados perpassam a oralidade, nos campos simbólico, espiritual, material e imaterial. Ela está ligada ao direito de produzir a vida em território coletivo ancestral, mas diz respeito ao viver de maneira indissociável dos demais entes que se encontram no local. É o viver junto, o viver com; diferentemente do dominar e usufruir da natureza e de tudo o que ela oferece, como se fosse à parte do humano, reduzindo-a a recursos a serem explorados.  

Para nós, quilombolas, a terra, as águas, as florestas e as sementes integram uma relação de vida e de continuidade. Junto a isso estão os conhecimentos transmitidos entre gerações sobre as formas de cuidar da terra e o respeito aos ciclos da natureza. Essa herança ancestral é construída a partir das tecnologias, da experimentação e da vivência coletiva no território.  

Mas, afinal, o que entendemos por tecnologias quando partimos das experiências dos territórios quilombolas? É fundamental desconstruir a ideia de que elas só podem ser constituídas a partir de máquinas, internet e equipamentos modernos, que se atualizam a todo tempo. É necessário avançar para garantir a manutenção das tecnologias ancestrais, que auxiliam no sustento de toda uma comunidade tradicional.  

Selecionar e guardar as sementes, saber os melhores períodos de plantio, reconhecer e fazer uso medicinal de plantas, manejar a terra e a floresta em equilíbrio com o território. Essa gama de saberes envolve observação, experiência, técnicas centenárias e transmissão do conhecimento, herdados pelas gerações mais novas. 

Essa herança, transmitida pelo fazer junto e pela oralidade, constitui elemento importante para a manutenção da identidade e da continuidade da cultura quilombola, evidenciando as essenciais contribuições negras na constituição do Brasil. Dessa forma, as heranças negras e quilombolas não devem ser vistas apenas como costumes do passado; são saberes que expressam experiências, formas próprias de produzir e transmitir conhecimento dentro dos quilombos, vivas e atuais.  

Nossa herança convida a sociedade em geral à reflexão. Sobre o passado, nos transporta às mãos construtoras deste país; no presente, somos a continuidade da resistência às opressões lutando pela manutenção do modo de vida em territórios coletivos. Mas o que planejar e pensar sobre o futuro? Talvez esse questionamento tenha sido feito pelas nossas ancestrais há muito tempo e um dos resultados sejamos nós, escrevendo este texto. Talvez já tenham feito essa reflexão, que resultou na constituição de um território onde ninguém passa fome, pois se o outro tem, eu também me alimento. Resultou nas florestas preservadas em nossos territórios, enquanto, fora deles, a devastação ainda impera. Florestas essas que geram ar e água para todos; que acolhem os viventes; que nos acolhem, produzindo alimentos, sem devastação. 

Florestas que nos ensinam e nos mantêm, e que mantemos, como legado ancestral de nossas gerações passadas. Portanto, nossa visão de herança não remete somente a nós, mas também a um território coletivo, que alimenta todo mundo. 

* Vaniely dos Anjos França Dias é uma Mulher preta e quilombola do Quilombo São Pedro, licenciada em Educação do Campo. É educadora, comunicadora popular e liderança da juventude quilombola, atuando na Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ) na defesa da educação e dos direitos das comunidades quilombolas. 

** Luiz Marcos de França Dias (Luiz Ketu) do Quilombo São Pedro, localizado no Vale do Ribeira (SP), é oficineiro no Ponto de Cultura Puxirão Bernardo Furquim na comunidade, onde também auxilia na gestão territorial da Associação Quilombo São Pedro. Integra o Coletivo Nacional de Educação da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ) e a Coordenação Estadual da Quilombos-SP. Docente de escola pública, escritor, pesquisador, mestre e doutorando em Educação.

Festival Sesc Culturas Negras

De 5 a 15 de novembro de 2026, o Sesc São Paulo realiza a terceira edição do Festival Sesc Culturas Negras, que traz como tema a herança do povo negro. Mestras e mestres tradicionais, artistas, pesquisadoras, pensadoras e pensadores compõem a programação, que leva apresentações artísticas, conversas, oficinas e encontros a diversas unidades.

Saiba mais em sescsp.org.br/culturasnegras

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