
“O espetáculo aborda temas como doença, morte e perdas, mas não é sobre isso. É, sobretudo, uma história de amor à vida. Falamos das heranças que recebemos e daquelas que escolhemos carregar” Moira Braga.
Com audiodescrição e Libras integradas à dramaturgia, Hereditária chega ao Espaço Cênico do Sesc Pompeia a partir de 4 de fevereiro, convidando o público a refletir sobre heranças genéticas, sociais e simbólicas por meio de uma encenação que articula corpo, música e acessibilidade.
Idealizado pela multiartista Moira Braga, o espetáculo parte de uma experiência autobiográfica: a descoberta, aos 7 anos de idade, de uma condição genética rara, a doença de Stargardt, que levaria à perda progressiva da visão. Trata-se de uma doença hereditária recessiva, que se manifesta quando a pessoa herda do pai e da mãe cópias alteradas do mesmo gene. Embora seus pais, avós e bisavós não apresentassem a condição, Moira e sua irmã mais nova receberam essa herança silenciosa, inscrita no corpo antes mesmo de se tornar visível no cotidiano.
A partir desse ponto de partida íntimo e estruturante, a obra expande o conceito de hereditariedade para investigar aquilo que nos é transmitido, o que se transforma ao longo do tempo e o que escolhemos carregar. A dramaturgia, escrita por Moira em parceria com o diretor Pedro Sá Moraes, entrelaça memória pessoal, ancestralidade e referências históricas, científicas e mitológicas, como o mito grego das Moiras, figuras que tecem o destino dos seres humanos. Entre o biográfico, o poético e o político, Hereditária propõe uma reflexão sensível sobre destino, escolha e permanência.

Esta é a primeira criação de Moira Braga que tematiza diretamente a deficiência, embora a acessibilidade seja uma marca central de toda a sua trajetória artística. Ao longo de sua carreira, a artista vem desenvolvendo modos de incorporar tecnologias assistivas como a audiodescrição e a Língua Brasileira de Sinais não como recursos paralelos ou compensatórios, mas como elementos expressivos e dramatúrgicos.
No palco, Moira divide a cena com Luize Mendes Dias, atriz e intérprete de Libras, e com a multi-instrumentista Isadora Medella. As três realizam audiodescrição e Libras em cena, de forma integrada às ações, aos gestos e à composição dramatúrgica. Essa abordagem amplia a noção tradicional de acessibilidade, transformando-a em linguagem artística e em uma experiência compartilhada entre públicos com e sem deficiência.

A narrativa é costurada por canções originais compostas por Pedro Sá Moraes, que também assina a direção musical ao lado de Isadora Medella. Inspirado no conceito de Teatrocanção, o espetáculo utiliza a musicalidade como eixo condutor do ritmo e da pulsação das cenas, criando uma experiência que atravessa o corpo e o afeto antes mesmo da racionalidade.
O cenário, concebido pelo músico e artista plástico Ricardo Siri, funciona como uma instalação visual e sonora: objetos sonoros pouco usuais produzem sons ao serem pisados, tocados, percutidos ou deslocados em cena pelas atrizes. Antes de cada apresentação, pessoas cegas e com baixa visão são convidadas a participar de uma visita guiada tátil ao espaço cênico, ampliando a dimensão sensorial da experiência teatral.
A direção de movimento é assinada por Edu O., bailarino, coreógrafo e professor da UFBA, com mais de 60 espetáculos no currículo e primeiro professor de dança cadeirante de uma universidade pública brasileira. Sua criação incorpora reflexões sobre capacitismo e o que define como “bipedia compulsória”, questionando padrões normativos de movimento, presença e corporeidade na cena contemporânea.
A iluminação é assinada por Ana Luzia De Simoni, enquanto o figurino, criado por Vania Soares (Ms. Vee), utiliza tramas de cordas e malhas que evocam fios, redes e tecidos do tempo — referências visuais às tramas do destino e às heranças que se entrelaçam ao longo das gerações.
Realizada integralmente por pessoas com deficiência, Hereditária apresenta acessibilidade integrada em todas as sessões, reafirmando a cena como espaço de convivência, escuta e partilha, onde diferentes corpos, linguagens e percepções se encontram para refletir sobre as heranças que nos constituem e aquelas que escolhemos seguir tecendo ao longo da vida.
Hereditária
De 4 a 27 de fevereiro de 2026
Quartas a sextas, às 19h30
Quintas-feiras também às 16h
Espaço Cênico.12 anos.
O espetáculo conta com Libras e audiodescrição em cena aberta, além de visita guiada ao cenário para pessoas cegas e com baixa visão.
Utilizamos cookies essenciais para personalizar e aprimorar sua experiência neste site. Ao continuar navegando você concorda com estas condições, detalhadas na nossa Política de Cookies de acordo com a nossa Política de Privacidade.