
Foto: Fernanda Luz
De que maneira a pesquisa de João Bernardo, a trajetória de Yumo Apurinã e a filosofia de Ailton Krenak estruturaram o espetáculo?
João Bernardo Caldeira O espetáculo nasce da minha pesquisa sobre “teatros de falas”. O desafio foi fazer com que cosmologias indígenas atravessassem o processo cênico. Reconhecemos nossos lugares de enunciação: líamos sobre a cosmologia Apurinã e uma cena nascia no corpo de Yumo, evocando os pajés; líamos Krenak e a reflexão ressoava na vivência dele. Já não era um diretor com um ator, mas dois autores criando a partir de lugares distintos. Convido o público a nos enxergar no presente, em nossa diversidade, contradições e transformações.
Yumo Apurinã Nossas trajetórias distintas, que poderiam ter nos afastado, viraram a força do trabalho. Construímos uma “terceira via” pelo diálogo, pela escuta e pela coragem para criar juntos. Minha história quebra o mito da “pureza” indígena – uma imagem atrasada e romantizada.

Quais novos futuros a arte pode imaginar para adiar o fim do mundo?
João Bernardo Adiar o fim do mundo passa por celebrar a multiplicidade, desocultar cosmologias, ampliar nossos campos sensoriais e inventar novas maneiras de imaginar o mundo.
Yumo Apurinã Não imaginamos futuros sem reconhecer histórias repetidas que limitaram nossa visão. Adiar o fim do mundo é adiar nossos próprios fins, criando condições para que outras formas de vida continuem existindo.
Yumo Apurinã é ator e João Bernardo Caldeira é diretor do espetáculo.
Fruto da colaboração entre o ator Yumo Apurinã e o diretor e dramaturgo João Bernardo Caldeira, o espetáculo parte da obra de Ailton Krenak para discutir temas como a formação do Brasil, os impactos da colonização e os desafios enfrentados pelos povos indígenas. Em cena, Yumo interpreta a si mesmo: um homem da etnia Apurinã que, evangelizado na infância, busca reconstruir sua relação com a ancestralidade entre deslocamentos e estereótipos que ainda recaem sobre as populações originárias. O trabalho revisita episódios da formação da nação, como a tutela estatal a que os povos indígenas estiveram submetidos até a Constituição de 1988, para questionar quais vidas, saberes e modos de existir foram historicamente reconhecidos.
O espetáculo Ideias para adiar o fim do mundo foi apresentado no dia 13/09 às 15h nos Arcos do Valongo, em Santos.
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