INGOMA! O ritmo de uma revolução. 

29/05/2026

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        Ingoma Nshya em apresentação. Foto de Don Mugisha

Duas mulheres, uma mais velha (Kiki) e uma mais jovem (Ineza), atuam como guias narrativas do público, revelando o que está oculto por trás da música: dificuldades, triunfos, histórias. De forma autobiográfica, as histórias das narradoras permeiam o espetáculo – histórias conectadas pela fuga da violência e pela superação da discriminação. Juntando-se a elas no palco, estão as mulheres do grupo Ingoma Nshya, as Tocadoras de Tambor de Ruanda, que fazem parte, de diferentes formas, da mesma história.

No primeiro ato, Ineza interpreta a jovem Kiki, viajando para Paris para estudar teatro, apenas para descobrir que não tem como escapar de ser vista como “Negra”. Mais tarde, de volta a Ruanda, enquanto trabalha com mulheres para aprender a percussão tradicional masculina com tambores, ela descobre que não consegue escapar de ser uma “mulher”. A jovem Kiki descobre que ser negra e ser mulher são duas coisas vistas como negativas. As duas Kikis, a jovem e a senhora, conversam uma com a outra através do tempo, aprendendo juntas sobre lições já esquecidas ou que ainda serão aprendidas.

No segundo ato, Ineza nos “revela” sua realidade – uma cantora trabalhando na indústria da música clássica dominada por homens brancos no Norte Global. Ela e Kiki comparam experiências. Uma soprano negra na ópera europeia e uma mulher tocando tambor na África Oriental – ambas, unidas por sua negritude e feminilidade, precisam superar séculos de tabu para poder fazer música.

Juntas, todas as mulheres no palco conjuram um sentimento de rebelião alegre contra a injustiça da discriminação de gênero. A sua alegria não é ingênua, pois elas já suportaram muita coisa. Em vez disso, é uma alegria informada justamente pelo trauma – promovendo um caminho viável para mudar o mundo, vindo de pessoas que entendem o quão ruim ele pode ser.

Veja um vídeo trailer de Ingoma! aqui (2,5 min).
Veja uma demonstração de percussão aqui (3 min).

Das Mãos de Mulheres: O cenário de Ingoma! é feito à mão por mulheres. A designer de cenário e figurino é a artista visual ugandense mundialmente reconhecida, Acaye Kerunen.

                                         Designer de Cenário e Figurino Acaye Kerunen. Foto de Damian Griffiths 

Da mesma forma que as tocadoras de tambor em Ruanda quebraram um tabu patriarcal, ao reivindicar seu espaço no mundo masculino da percussão, Acaye reivindicou espaço para mulheres do leste africano no mundo das belas artes – um mundo que por muito tempo rotulou e ainda frequentemente rotula o fazer artístico das mulheres como “artesanato”.

Veja um vídeo do método de Acaye Kerunen aqui (2 min).

Acaye emprega tecelãs locais para criar tradicionalmente em materiais naturais (fibra, tecido, etc.) e, em vez de finalizar esse trabalho artístico em objetos utilizáveis (cestos, tapetes, etc.), Acaye transforma seus materiais e objetos em instalações de grande escala, que são apresentadas em galerias proeminentes em todo o mundo. Sua missão: demonstrar que as “belas artes” têm estado vivas e bem nas mãos das mulheres há milênios.

Sombra e Luz: O cenário também contém fantoches de sombra feitos à mão, criados por mulheres – neste caso, pela mestra canadense de teatro de sombras Kristine White, que trabalha com a associada ruandesa Aurore Katese. A narrativa do espetáculo é animada por essas representações detalhadas de pessoas e lugares, por meio do teatro de sombras realizado ao vivo.

                       O teatro de sombras de Kristine White, retratado em The Book of Life, com Kiki Katese. Foto de Dahlia Katz 

Tocar Tambor é Poder: Em kinyarwanda, a palavra para “poder” é a mesma utilizada para dizer “tambor” ( “ingoma”). Em Ruanda, tocar tambor é literalmente empoderamento.

As tocadoras de tambor do grupo Ingoma Nshya, o primeiro grupo de tocadoras de tambor de Ruanda, cresceram em um mundo em que tocar tambor, ou até mesmo encostar em um tambor, era proibido às mulheres. Por séculos, havia um tabu patriarcal se mulheres tocassem tambor (no país vizinho, o Burundi, ainda é ilegal para mulheres tocarem tambor). A distância que elas percorreram desde sua fundação, há 20 anos, é incomparável. Seu ato constante de quebrar tabus ressoa em todos os lugares onde tocam sua música.

Como diz Kiki Katese: “Em todos os lugares que viajamos dentro de nosso país, as meninas ficam maravilhadas com nossa percussão e querem aprender como fazer o mesmo. O poder de uma mulher tocando tambor é inegável. Para as mulheres de nosso país, pode ser transformador tanto em termos reais quanto simbólicos.”

O que ensinamos às nossas meninas?

“Como mulheres, enfrentamos muita discriminação, muitos desafios em cada país. Não é somente sobre Ruanda, não é uma história ruandesa. É um sonho de igualdade” – Kiki Katese

Em todos os lugares do mundo, mulheres e meninas enfrentam desigualdade. Em todos os lugares do mundo, mulheres e meninas têm maior probabilidade de viver na pobreza do que os homens. Nenhum país do mundo alcançou a paridade de gênero.

Este é o mundo em que nossas meninas crescem.

As mulheres do Ingoma Nshya também são um exemplo, por serem as únicas artistas performáticas pagas em tempo integral em Ruanda, sendo homens ou mulheres. Elas criam arte sobre o empoderamento feminino enquanto o modelam para o mundo. Com seu programa Gira Ingoma (Um Tambor Por Menina), elas ensinam percussão a centenas de meninas do ensino fundamental em 10 escolas na Província do Sul, mudando a cultura de um país através da arte.

                                 Ingoma Nshya em apresentação. Foto de Luc Velu Vekemans 

Arte e Comunidade: Quando Ingoma! está em turnê, a companhia não apenas apresenta o espetáculo, mas também oferece oficinas, palestras, demonstrações de percussão e conexões com jovens locais. Este é um projeto que aborda, por meio da arte e do engajamento comunitário, algumas necessidades globais urgentes.

A missão mais abrangente do Ingoma Nshya é:

1) Modelar o empoderamento de meninas e mulheres o mais amplamente possível, em casa e no exterior.
2) Estabelecer o legado do Ingoma Nshya como um contribuidor cultural vital – uma raridade entre grupos artísticos totalmente femininos.
3) Usar a arte para transformar a cultura e permitir a inclusão de meninas e mulheres como parte da nossa mitologia heroica coletiva. Mulheres podem ser heroínas.
4) Ensinar percussão e dança guerreira (e, através disso, autoconfiança) para meninas.
5) Continuar a empregar mulheres como artistas o ano todo.
6) Construir sobre nosso impulso em turnês internacionais.
7) Inspirar meninas em todos os lugares e dar a elas permissão para sonhar.

Ingoma Nshya é um grupo diferente de qualquer outro. Com o grupo formado em 2004, dez anos após um genocídio que tirou um milhão de vidas ruandesas, suas mulheres se reuniram vindas de diversas experiências da vida e variadas origens étnicas para criar algo novo. Seu projeto visionário de base tem múltiplos objetivos: cura; reconciliação; empoderamento social e financeiro das mulheres; e excelência artística.

           Ineza Mugisha e Kiki Katese em ensaio. Foto de Hagy 

Para as mulheres do Ingoma Nshya, a cultura é a força motriz que lhes permitiu emergir de um genocídio e se tornarem modelos para as novas gerações de mulheres ruandesas. Juntas, elas provam que é possível quebrar estereótipos, combater o desespero, superar o ódio, a violência, a tragédia pessoal, e considerar possibilidades radicalmente novas.

Facilitando Conexões do Sul Global: A colaboração entre o Centro Cultural da Mulher/Ingoma Nshya e Volcano tem uma rica história de 18 anos. Ambos os parceiros estão investindo para facilitar uma conversa do Sul Global por meio de turnês e intercâmbio artístico, incluindo turnês entre Ruanda e outros destinos do Sul Global, em reconhecimento da desigualdade dos sistemas de turnê internacionais atuais.

Centro Cultural da Mulher (Ruanda): O CCM foi fundado pela dramaturga ruandesa globalmente reconhecida, empreendedora cultural e ativista pelos direitos das mulheres, Odile Gakire “Kiki” Katese.

O CCM é a casa institucional do Ingoma Nshya (As Tocadoras de Tambor de Ruanda). “Ingoma Nshya” significa “novo tambor” ou “novo poder” em kinyarwanda. A trupe é composta por sobreviventes do Genocídio contra os Tutsi de 1994 e por parentes de perpetradores do Genocídio. Ingoma Nshya é um projeto visionário de base com múltiplos objetivos – cura, reconciliação, empoderamento social e financeiro das mulheres, e excelência artística.

É o desejo delas – através de sua música revolucionária – de trazer ao mundo uma mensagem de esperança.. 

              Ingoma Nshya se apresentando para jovens locais em Blacksburg, Virgínia. Foto de musepixels 

Volcano (Canadá): Volcano foi fundada em 1994 pelo diretor de teatro Ross Manson, cujos muitos espetáculos para a companhia renderam mais de 75 indicações e prêmios em três continentes. 

Volcano é uma das companhias de performance ao vivo de maior impacto internacional do Canadá – levando performances de temática urgente que são lideradas por artistas-produtores  para os palcos mais prestigiosos do mundo e trazendo esse impulso global de volta para nossa casa em Toronto. O acervo de trabalho da companhia é profundamente enraizado em equidade, experimentação e colaboração – tornando-se um farol para o que a performance canadense pode ser: rigorosa, divertida, socialmente consciente e globalmente conectada. Volcano inicia, desenvolve e apresenta em turnê alguns dos teatros de turnê mais aventureiros do Canadá, teatro musical e ópera. 

Volcano acredita que o Canadá, como nação contendo conexões familiares diretas com quase todos os povos da Terra, tem um papel crucial a desempenhar na colaboração através de fronteiras, reunindo artistas através das diferenças globais e criando arte uns com os outros. 

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