
Foto: Fernanda Luz
Poderia nos contar um pouco mais sobre a dança tradicional latino-americana “cueca”?
A cueca é uma dança a dois em que cada movimento encena um jogo de cortejo e sedução; os dançarinos se aproximam, mas nunca chegam a se abraçar. Surgida nas eras colonial e republicana, ganhou em cada região da América Latina seu próprio ritmo, vestimenta e estilo. Reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial da Bolívia, para nós, é mais do que uma dança: é uma expressão de amor, nostalgia, alegria e patriotismo.
Como foi a experiência coletiva de criação do espetáculo?
Desde o início, a obra foi concebida para criar uma experiência imersiva centrada na identidade da cidade de La Paz. Para tanto, desenvolveu-se uma dramaturgia visual, na qual o foco não recai sobre o texto, mas sim sobre estados de ser, ações e imagens. Em outras palavras, em vez de gerarmos uma dinâmica dramática, buscamos criar uma dinâmica cênica, uma paisagem cênica na qual a imagem tem precedência. Isso resulta em uma experiência teatral sensorial que envolve o espectador em múltiplos níveis.

Quais foram as referências e inspirações para retratar a cidade no palco?
A obra surgiu da necessidade de reconectar os cidadãos à sua identidade boliviana e à memória histórica da cidade de La Paz. Assim, as referências e as inspirações iniciais para retratar La Paz partiram do presente, das ruas da cidade e de seus habitantes. Após habitar o presente, o processo voltou-se para a pesquisa e a documentação de marcos históricos e coletivos que ainda pulsam na cidade hoje. Por fim, buscamos construir um futuro coletivo unido pela dança – a “cueca” coletiva.
Samadi Valcarcel é atriz, diretora e dramaturga, além de fundadora do Teatro Feroz.
A obra entrelaça memória, música e corpo para criar um retrato vivo de La Paz, uma das capitais da Bolívia, exibindo suas contradições, montanhas, passagens secretas, as personagens que vivem em suas ruas, a cultura do futebol e as lutas sociais. Composta de cinco momentos, a produção une teatro, música e arte performática para revelar o presente, os moradores, os signos de identidade e a história recente da violência da ditadura. Entre projeções urbanas, canções folclóricas, batidas eletrônicas e cenas em que o elenco atua com o público, a performance culmina em uma dança latino-americana, para lembrar que, em La Paz, a vida nem sempre é compreendida intelectualmente; ela é sentida, dançada e respirada.
O espetáculo La Paz – Performática foi apresentado nos dias 7 e 8/09 às 18h na Casa da Frontaria Azulejada, em Santos.
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