
Artista revisita sua trajetória e celebra a ciranda como legado, missão e destino (foto: Marcela Guimarães)
Leia a edição de Abril/26 da Revista E na íntegra.
POR LÍGIA SCALISE
Lia de Itamaracá é um dos nomes mais importantes da cultura popular brasileira. Reconhecida nacionalmente como Rainha da Ciranda, detentora do título de Patrimônio Vivo de Pernambuco, concedido pelo Governo do Estado, e homenageada com distinções como o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), ela ocupa um lugar central na preservação e difusão das tradições populares brasileiras.
Mas, antes de qualquer reconhecimento público, ela é Maria Madalena, filha de dona Matilde, uma mulher que criou sete filhos sozinha, com trabalho duro e coragem. Foi ela quem ensinou à Lia o gosto pela cozinha, o rigor da responsabilidade e a alegria da música. Matilde morreu antes de ver o sorriso e o nome da filha estamparem o mundo, mas continua presente em tudo o que a artista faz. “Ela vem na minha frente, olha para mim… e depois some. Sinto a presença da minha mãe em todos os palcos que eu subo”, diz Lia de Itamaracá, que canta acompanhada dessa espécie de bênção materna silenciosa.
Aos 82 anos de vida e mais de 60 de carreira, Lia demorou a ganhar a fama do seu tamanho de artista. Hoje, vive o reconhecimento tardio com gratidão e, entre discos, turnês, participações especiais e uma agenda intensa, comemora o lançamento de seu último álbum, Pelos olhos do mar (Selo Sesc, 2025), em parceria com a cantora paulista Daúde. “A gente canta juntas e parece reza, parece celebração”, entusiasma-se.
Neste Depoimento, a pernambucana revisita sua história, saboreia o gosto de suas conquistas e deixa um recado: “Eu sou Lia. De Itamaracá. Recife. Pernambuco. Brasil. Sou Lia e estou pronta para conquistar o mundo! Ai, mamãe!”.
matilde
Minha mãe, Matilde, foi quem me criou e me ensinou a viver. Ela chegou em Itamaracá com sete filhos e encontrou uma família, os Monteiro de Barros, que ofereceu trabalho e casa. Ali, ela fez tudo por nós. Mas não foi nada fácil, viu? Meu pai era agricultor, tinha outros onze filhos, e era mulherengo. Foi minha mãe quem deu conta, sozinha, e nunca nos maltratou ou abandonou. E era uma cozinheira de mão fina. Me ensinou feijoada, baião de dois, peixada. Eu era agarrada na saia dela. Todo mundo dizia: “tira essa menina daí”, e ela respondia: “deixa, ela quer aprender”. Aprendi a cozinhar e a me virar na vida. Minha mãe não viu meu sucesso. Morreu cedo, sem saber até onde eu ia. Mas hoje, quando eu canto, ela aparece para mim. Vem na minha frente, olha… e depois some. Quando recebi meu título de doutora, em cima do palco, senti a presença dela, como se dissesse: “minha filha está salva”. Ela anda comigo, e eu digo: “mãe, nada que a senhora viu se perdeu. E se não viu, eu estou aqui mostrando. Deu certo”.
merendeira
Eu me aposentei como merendeira. Cozinhava para 270 crianças numa escola estadual. Era uma maravilha. Botava a comida no fogo e, enquanto cozinhava, levava as crianças para cantar e dançar ciranda. Foi assim por muitos anos. Nunca pensei em desistir de nada, nem da escola, nem da música. Quando eu saía para fazer show, pagava outra mulher para ficar no meu lugar. Aí, as crianças faziam greve de fome porque não gostavam da comida dela. “Dona Lia, a gente quer a sua comida”, diziam. Era um aperto. Quando eu voltava, enchia os pratos de comida e de amor. Botava mais água no feijão para render para todo mundo. Conheço cada criança da Ilha de Itamaracá, e hoje já estão todos grandes. Foram 30 anos trabalhando como merendeira. E se me chamarem para ir lá cozinhar um feijão, um arroz, uma carne, eu vou, viu? Eu gosto demais daquele lugar. E nunca me esqueço das crianças cantando: “essa merenda que me fez foi Lia, que mora na Ilha de Itamaracá…”, brincando com a ciranda que leva meu nome.
ciranda
Ninguém na minha família canta ou dança. O dom da música nasceu só em mim. É um presente de Deus, uma graça de Iemanjá. Comecei a me interessar por música com 12 anos e, com 19, soube que meu destino era cantar. Foram anos cantando e representando Itamaracá e Pernambuco. Tive muita fama e pouco dinheiro, mas a ciranda me transformou. Me deu responsabilidade, missão e ensinamentos de vida. Sempre digo que a ciranda não tem preconceito: dança preto, branco, pobre, rico, criança, velho. É democrática. Quando você entra na roda, está em casa. A roda cura. A roda une. A roda abre caminho. Eu sou feliz dentro dela. O mundo inteiro já me deu a mão.

Quando você entra na roda, está em casa. A roda cura. A roda une. A roda abre caminho. Eu sou feliz dentro dela. O mundo inteiro já me deu a mão.
(foto: Matheus José Maria)
sucesso
Levei tempo para ter o reconheci-mento que tenho hoje. Tempo demais. Mas não me revolto, não. Para que vou colocar coisa ruim dentro da minha cabeça? O mar ensina: tudo vem na onda certa. Hoje recebo homenagens, disco novo, títulos importantes. Minha agenda está cheia, as pessoas batem na porta da minha casa, e minha voz está em todos os lugares. Toinho, meu esposo, diz que “a casa de Lia é o avião”. E eu acho graça, porque sempre quis isso. Sempre lutei por isso. Com mais de 80 anos nas costas, posso dizer que realizei muitos sonhos e já fui para lugares que nunca imaginei pisar. Até pra Miami eu já fui. Meu próximo destino, se Deus quiser, é a África. Eu sonho abrir uma roda de ciranda por lá. Eu vou e volto para minha terra. Itamaracá é meu lugar.
laços
Toinho chegou na minha vida como quem já vinha decidido. Antes dele, tive um marido, que botei para correr. Toinho, não: correu foi para perto de mim. Se apaixonou quando me viu numa reportagem do Fantástico. Depois, conseguiu tocar comigo e entrou no meu camarim furando a segurança (risos). Gostei da insistência. Aí chegou de mala e cuia para Itamaracá e nunca mais saiu. Já são quase 40 anos de convivência. Passamos por coisas difíceis quando perdemos nossa casa num incêndio, mas o amor vence. Não pude ter filhos de sangue, mas tenho filhos de criação, sobrinhos, alunos, uma comunidade inteira que me chama de Mãe Lia. E agora tem Pietra, minha sobrinha-neta, pequenininha, de três anos. Ela dança que só uma carrapita. Danada. Vou fazer a cabeça dela. Vai dançar e cantar ciranda no mundo. E o coração fica como? Essa vai ser a continuação de Lia.
avante
Eu sou uma mulher feliz e realizada. Nunca tive medo da vida. Quando a coisa tá difícil, eu digo: “levanta e vai”. O passado já passou, eu só olho para frente. Tem gente que se agarra no que dá errado. Eu não. Eu quero paz espiritual, alegria, continuar cantando, estar perto dos meus fãs, da minha equipe. A vida é para saber viver. Para mim, isso significa boas noites de sono, boa comida e bom amor. Isso é riqueza. Quando me pedem conselho, eu digo: lute para vencer. E digo isso porque muita gente me aconselhou a desistir, mas eu logo avisei: isso não funciona comigo, não. Olha eu aqui.
futuro
Estou com 82 anos e tenho o sonho de ir à África. Minhas raízes vêm de lá. Quero ver aquelas crianças, fazer uma roda de ciranda, botar todo mundo para dançar – com fome ou sem fome, doente ou não, porque a ciranda levanta qualquer um. Já vivi tanta coisa nessa vida, passei por altos e baixos, mas agora é só alegria. Enquanto Deus não me chamar, vou tocar o barco para frente. Vou cantar. Vou amar. Vou dançar com o mundo. Quando eu olho no espelho e enxergo a minha imagem, digo para mim mesma: “eu sou Lia de Itamaracá e ainda tem muita coisa pra acontecer”.
Assista a trechos desse Depoimento com a artista Lia de Itamaracá, realizado em 27/11, em São Paulo, por ocasião do lançamento do álbum Pelos olhos do mar, do Selo Sesc, gravado em parceria com a cantora Daúde.
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