
Ofício: Luz: Lita Cerqueira: Direito de Olhar reúne imagens nunca ampliadas, filmes em Super 8 e materiais de acervo que nunca foram exibidos.
A obra de Lita Cerqueira chega pela primeira vez ao Sesc São Paulo em uma exposição individual que amplia a leitura do trabalho da artista e assinala o pioneirismo de sua produção. Com mais de cinco décadas de trabalho, a fotógrafa baiana – que construiu uma carreira autônoma, fora dos circuitos tradicionais – apresenta em Ofício: Luz: Lita Cerqueira: Direito de Olhar um conjunto expressivo de trabalhos inéditos, além de materiais de arquivo e filmes nunca exibidos. A exposição é gratuita e abre ao público em 22 de abril, com visitação até 13 de setembro no Sesc Pompeia.
Ao todo, são 47 imagens, três filmes em Super 8 da década de 1970 e um conjunto de objetos do acervo pessoal de Lita Cerqueira, incluindo negativos, cromos e câmeras. Parte significativa desse material é apresentada pela primeira vez: há fotografias que nunca haviam sido ampliadas ou digitalizadas, além de cerca de sete imagens coloridas inéditas – raras em uma produção historicamente associada ao preto e branco.
Realizada no âmbito da “Ofício”, iniciativa do Sesc Pompeia voltada às linguagens desenvolvidas nas Oficinas de Criatividade da unidade, a mostra estabelece um diálogo direto com a fotografia e com as técnicas de laboratório – eixo central desta edição. Ao mesmo tempo, amplia o escopo habitual do projeto ao reunir um corpo consistente de obras que reposiciona o olhar sobre a produção da artista.
São dois recortes principais que organizam a exposição. O primeiro, sintetizado na ideia de Direito de Olhar, parte de uma operação dupla: afirma o gesto da fotógrafa – seu olhar sobre o mundo – e, ao mesmo tempo, reconhece a autonomia de quem é fotografado. Em muitas imagens, as pessoas encaram diretamente a câmera, conscientes de sua presença, em um gesto que desloca a lógica documental tradicional.
O segundo recorte se apoia na recorrência de crianças ao longo da obra. Esse conjunto não apenas amplia a leitura sobre o trabalho de Lita Cerqueira, como estabelece uma conexão direta com uma parte do público que frequenta o programa educativo do Sesc Pompeia, especialmente grupos escolares.
Entre festas populares, retratos de rua e cenas domésticas, a fotografia de Lita se desenvolve a partir da proximidade – não como observação à distância, mas como convivência. Esse traço aparece tanto em registros de manifestações culturais quanto em imagens íntimas de figuras públicas, como o retrato do cantor e compositor Gilberto Gil ao lado dos pais, em ambiente familiar.


Pioneirismo e parcerias na música e no cinema
A trajetória da artista atravessa diferentes campos da cultura brasileira. Lita Cerqueira esteve próxima de nomes centrais da música, como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa e Elza Soares, e atuou também no cinema, colaborando com diretores como Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos. Ao longo desse percurso construiu uma produção marcada pela autonomia – incluindo a criação e circulação de imagens em formatos como cartões-postais, dentro e fora do Brasil.
Os filmes em Super 8 apresentados na exposição do Sesc Pompeia reforçam esse caráter documental. Realizados na década de 1970, os três registros exibidos pela primeira vez ao público retratam a Independência da Bahia, a Festa do Senhor do Bonfim e um show da cantora e compositora Clementina de Jesus.
Outro núcleo da mostra evidencia o próprio processo de trabalho da artista. O acervo pessoal – com negativos organizados em envelopes manuscritos, cromos e equipamentos – é apresentado como parte da narrativa, indicando a dimensão ainda em aberto de um arquivo que segue sendo revelado.
A exposição também propõe uma mudança de escala. Conhecida por trabalhar com formatos mais contidos, Lita Cerqueira tem aqui suas imagens ampliadas para dimensões inéditas, incluindo uma fotografia de entrada com cerca de 2,5 metros de altura e 3 metros de comprimento. Ao longo do percurso, áudios da própria artista comentam obras específicas, incorporando sua voz à experiência expositiva. A curadoria é realizada pelo Sesc em diálogo com a artista e sua equipe, com contribuição de Janaína Damaceno, responsável pelo texto crítico. O projeto mantém o caráter colaborativo em “Ofício”, aproximando a exposição das práticas desenvolvidas nas oficinas da unidade.

Nascida em Salvador (BA) em 1952, é uma das pioneiras da fotografia brasileira, com uma trajetória marcada pela autonomia e pela proximidade com seus temas. Fotógrafa autodidata desde os 19 anos, iniciou sua atuação nos anos 1970 em laboratórios de revelação e na produção de imagens para a imprensa, consolidando um olhar atento às expressões da cultura negra brasileira.
Seu reconhecimento profissional se estabelece ainda na década de 1970, com a exposição Festas Populares da Bahia e Arquitetura no Centro Histórico de Salvador (1976), que evidencia o interesse por manifestações culturais e pela vida cotidiana — aspectos que atravessam sua produção. Os registros urbanos — especialmente de Salvador — marcam o início de sua trajetória, mas é com a série Tipos Humanos que Lita Cerqueira alcança reconhecimento internacional, com exposições na França, Itália e Alemanha.
Sua obra foi tema de exposições individuais, como a “A Fotografia como Eu Sou” na Pinacoteca de São Paulo em 2009, que foi apresentada em Paris em 2012, e “O Povo Negro é o Meu Povo – Lita Cerqueira, 50 Anos de Fotografia”, que ficou em cartaz na CAIXA Cultural Salvador em 2024. Suas fotografias já foram publicadas em livros, revistas, capas e encartes de discos como “Bahia aux Sertões: 1939 a 1950”, da coleção francesa “Brésil, les Chants de la Mère et de la Terre” (2006) e na contracapa de “Cores e Nomes” de Caetano Veloso (1982).
Criado em 2019, ocupa os espaços de circulação das Oficinas de Criatividade do Sesc Pompeia com mostras que dialogam com as linguagens desenvolvidas nos ateliês de criação artística e formação educativa.
Desde sua implementação, foram realizadas 11 exposições, articuladas às práticas de marcenaria, têxtil, pintura e cerâmica, além de iniciativas voltadas às linguagens digitais.
Para o biênio 2026/2027, a fotografia foi definida como eixo discursivo do projeto e o módulo “Ofício: Luz” visa apresentar artistas contemporâneos cuja produção se concentra na fotografia ou na investigação da imagem como campo de pesquisa. A proposta reúne trabalhos que abordam as relações entre o objeto fotografado e seus contextos socioantropológicos, contemplando tanto processos analógicos quanto suas interlocuções com práticas contemporâneas, incluindo a fotografia digital e o uso de tecnologias atuais de produção de imagem.
Exposição Ofício: Luz: Lita Cerqueira: Direito de Olhar
Período: de 22 de abril a 13 de setembro de 2026
Entrada gratuita
De terça a sexta: das 10h às 21h
Sábados, domingos e feriados: das 10h às 18h
Agendamento de escolares: agendamento.pompeia@sescsp.org.br
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