Literatura para as infâncias

05/01/2026

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Artigos de Cristiane Rogerio e Ilan Brenman refletem sobre o papel dos livros na formação das crianças

Leia a edição de Janeiro/26 da Revista E na íntegra.

Em 2026, o prêmio Hans Christian Andersen, considerado o Nobel da literatura infantojuvenil, vai anunciar seus vencedores e, pela primeira vez, o Brasil estará fora da lista dos indicados. Apesar disso, esse é um dos gêneros literários que mais cresce no país, acompanhado pelo número de eventos, selos e exposições dedicadas à literatura para as infâncias. A ausência na premiação – organizada a cada dois anos pela International Board on Books for Young People (IBBY) – levanta questões sobre o apoio institucional ao setor, a visibilidade internacional das obras brasileiras, as políticas públicas de incentivo à leitura e à publicação, além do impacto do mercado editorial nas escolhas temáticas e estéticas.

Para a jornalista e escritora Cristiane Rogerio, mestre em arte educação pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp), é preciso observar que “(…) há um gap [lacuna] entre o que estamos questionando, lutando e até publicando (impulsionados por editoras pequenas e produções independentes, inclusive), e o que vemos valorizado no campo da arte e da educação”. Além disso, ela questiona: “Que Brasil estamos exibindo lá fora? É o da diversidade? Primeiro, talvez, devêssemos refletir sobre o que estamos dando a ver aqui dentro, nos espaços escolares, nas políticas públicas de livros e leituras, no mercado editorial”.

Outro obstáculo no meio do caminho é o hábito da leitura. Hoje, no país, o percentual de não leitores (53%) ultrapassa o número de leitores (47%), segundo dados mais recentes da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil 2024. Para o escritor Ilan Brenman, autor de dezenas de livros infantis, premiado na categoria Literatura Infantil do prêmio Jabuti 2024, ainda “falta um despertar da sociedade civil e do poder público para a importância da literatura infantil na formação do indivíduo”. 

“Claro que livros infantis divertem e entretêm, mas são muito mais: são umas das primeiras janelas para repertórios linguísticos e visuais das crianças. E crianças que ouvem histórias lidas por seus pais e professores chegam mais preparadas para a vida. Esta é uma afirmação embasada por uma profusão de pesquisas em diversas áreas científicas. Ler ou não literatura infantil para as crianças, desde pequenas, pode acarretar profundos desdobramentos em suas vidas”, defende Brenman. 

Neste Em Pauta, Cristiane Rogerio e Ilan Brenman refletem sobre o papel dos livros na formação das crianças, os desafios encontrados por autores, educadores e leitores, e os rumos da literatura para as infâncias. 

Nossos compromissos com os rumos da literatura infantil brasileira 
Por Cristiane Rogerio 

“O conhecimento do conhecimento compromete.” Iniciando um caminho para conversar sobre literatura infantil no Brasil contemporâneo, eu arrisco colocar em evidência esta frase contida no livro A árvore do conhecimento (Editorial Psy II, 1995), dos biólogos e pesquisadores chilenos Humberto Maturana e Francisco Varela. Completa-se assim: “Compromete-nos porque, ao saber que sabemos, não podemos negar o que sabemos”. Os rumos da literatura infantil podem – ou devem – estar atrelados a esta espécie de pacto. Hoje conhecemos muito mais a fundo e ampliamos as reflexões sobre o que é e como produzimos o sistema literário do final do século 19 para cá. Como nos comportamos pós-colonização e pós-escravização. Quem escolhemos para ter o privilégio de ser educado, de aprender a ler e de escolher o que ler. 

Estamos sendo convidados a mudar de rota. Olhar para o que foi feito antes e não temer questionar os modos de produzir livros, as formas de fazer as obras circularem e as maneiras de mediar leituras nos mais variados espaços. Quem se tornou autor, autora? Que tipo de livros foram publicados quanto à forma e ao conteúdo? Quais edições chegaram aonde? Como foi a formação de professores para o ensino da literatura nesse percurso de tempo? 

Para uma literatura digna, pensada para as infâncias em sua ampla pluralidade, há de se focar em duas premissas inegociáveis: a primeira é o avanço que demos quanto à confecção de um livro, no que se refere à exploração desse objeto nos aspectos da materialidade. Das primeiras palavras da história ao acabamento de uma edição, cada elemento conta com importância narrativa ou informativa. “Refletindo sobre o livro como um objeto que se relaciona com diferentes áreas como as artes, o design e a literatura, passei a considerá-lo como um objeto híbrido, que habita um novo território criado entre as fronteiras desta área”, escreve a pesquisadora Camila Feltre, doutora em arte e educação, em seu livro É um livro…? Mediações e leituras possíveis (Cultura Acadêmica, 2017). 

Uma conjunção de experiências e estudos fez com que, dos anos 2000 para cá, começássemos a classificar determinados livros como “livro ilustrado” (do inglês picture book) ou “livro-álbum” (traduzido do francês l’album), nomenclatura em discussão entre os acadêmicos. Trata-se de uma perspectiva nova de criação, no entanto, mais do que isso, de leitura. “No termo ‘livro ilustrado’, o adjetivo não denota apenas uma qualidade do substantivo – a de conter ilustrações. Ele o transforma em outra coisa. 

Num livro ilustrado é preciso muita atenção às imagens e à maneira como elas se entrelaçam, não só com as palavras (se as houver), mas também com as outras imagens com as quais ela se relaciona, pois a unidade narrativa se dá com a contribuição de múltiplos elementos. Nele, a palavra altera o sentido das imagens, as imagens alteram o sentido das palavras e a unidade do todo é maior do que a soma dessas partes”, define o pesquisador Odilon Moraes, em sua dissertação de mestrado no Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Para certa parte da população, houve um aumento de estudos e de cursos formativos, fortificando uma rede de interesse que vem transformando o mercado editorial da área (influenciou até mesmo os direitos autorais), as ações de políticas públicas e os conceitos de leitura, leitor/leitora. 

A segunda premissa é assumirmos que não há mais espaço para livros infantis que, de alguma maneira, firam a dignidade de alguém. Quem usa esses termos é a pesquisadora Ananda Luz, mestre em ensino e relações étnico-raciais pela Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), uma das-coordenadoras dos cursos de pós-graduação O livro para a infância e Educação e relações étnico-raciais n’A Casa Tombada. “Por muito tempo, os criadores de livros invisibilizaram e estereotiparam histórias, culturas e pessoas. Personagens negras, quando apareciam nos livros, estavam em situações de violência ou não tinham uma narrativa que lhes apresentassem e valorizassem, tornando-as desinteressantes para quem as lesse. Muitas não tinham nomes, famílias, desejos ou suas representações eram desumanizadas”, apontou a pesquisadora na abertura do catálogo da exposição Karingana – Presenças negras no livro para as infâncias, em cartaz no Sesc Piracicaba [de maio a novembro], e da qual é curadora. 

“Há ainda muito a se problematizar. Livros racistas ainda são publicados, direitos autorais violados, acervos com pitadas de censura ainda são encontrados por aí. A saída é uma só: para não dar espaço a opiniões frágeis, é essencial colocar em evidência o que veio antes, o que atravessou, o que nos escapou”, elaboro em O livro para a infância – caminhos que se entrelaçam, que lancei recentemente com a editora Quatro Cantos. Estudar coletivamente é a estratégia mais potente. Tal qual outros campos da sociedade brasileira, no mercado de literatura infantojuvenil é hora de fazer perguntas sob a lupa das práticas antirracistas e da percepção decolonial. Enfrentar o racismo editorial assumido especialmente desde a força da obra de Monteiro Lobato (1882-1948) que, por décadas, ditou o que era qualidade literária para crianças; cumprir, com coragem, as leis 10.639/2003 e 11.645/2008, que estabeleceram as temáticas africanas, afro-brasileiras e indígenas no currículo oficial da rede de ensino. Assumir o compromisso com os desdobramentos éticos e estéticos destas mudanças, rumo a uma ampla bibliodiversidade. 

Tal qual outros campos da sociedade brasileira, no mercado de literatura infantojuvenil é hora de fazer perguntas sob a lupa das práticas antirracistas e da percepção decolonial.

Pela primeira vez, desde 1984, o Brasil não teve autores de livros infantis indicados para o Prêmio Hans Christian Andersen [que anunciará os vencedores em 2026], uma espécie de “Nobel” da área em que já vencemos três vezes. Anunciado sempre na Feira do Livro Infantil de Bologna, na Itália (uma das mais importantes do mundo), é curado pelo IBBY (Organização Internacional para o Livro Infantil e Juvenil). O repertório brasileiro tem prestígio fora, com traduções de obras em diversos idiomas e reconhecimentos internacionais. Mas há um gap [lacuna] entre o que estamos questionando, lutando e até publicando (impulsionados por editoras pequenas e produções independentes, inclusive), e do que vemos valorizado no campo da arte e da educação.  

Que Brasil estamos exibindo lá fora? É o da diversidade? Primeiro, talvez, devêssemos refletir sobre o que estamos dando a ver aqui dentro, nos espaços escolares, nas políticas públicas de livros e leituras, no mercado editorial. Para onde sonhamos crescer após a desanimadora pesquisa Retratos da Leitura 2024, mais recente, em que, pela primeira vez, a proporção de não leitores é maior do que a de leitores na população brasileira? Com a desigualdade de acesso ainda em alta, temos poucas chances de fechar essa equação. Porém, os caminhos estão postos e há muita gente que sabe exatamente o que fazer. 

Cristiane Rogerio é jornalista e mestre em arte educação pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e autora de O livro para a infância – caminhos que se entrelaçam (Quatro Cantos, 2025). É uma das coordenadoras dos cursos de pós-graduação lato sensu O livro para a infância e Criação de livro ilustrado  n’ A Casa Tombada, em São Paulo (SP). Na revista Crescer, é colunista da seção Livros que amamos e curadora da lista Os 30 Melhores Livros Infantis do Ano.

Livros de hoje, leitores de amanhã 
Por Ilan Brenman

Há muitos anos, uma mãe se aproximou de mim e disse: “Seu livro foi libertador para minha filha. Libertou-a de uma imagem de perfeição que estava engessando seu comportamento cotidiano”. Outro casal mandou uma mensagem para minhas redes sociais dizendo que outro livro que escrevi para crianças havia ajudado muito a combater uma rotina noturna extenuante. Tal livro é sobre uma criança que pede para dormir na cama dos pais e descreve um diálogo bem-humorado entre pai e filha sobre o tema. Essas mensagens, centenas delas, me acompanham há anos, falando de marcas, emoções compartilhadas e momentos inesquecíveis que os livros proporcionam entre crianças, pais, avós e educadores.

Como criador, não faço livros para libertar nem salvar ninguém. Não acredito nesse tipo de livro para crianças, aquele que pretende ensinar ao outro o caminho correto a ser seguido. Clarice Lispector [1920-1977] dizia que escrevia para sobreviver, para transformar e organizar o caos interior em que vivia. Escrever, para ela, era uma forma de sobrevivência. Eu escrevo nesse mesmo espaço que Clarice descrevia. Escrevo porque amo, sofro, porque me interessam os detalhes grandiosos das pequenas coisas cotidianas, porque minhas memórias infantis colidem com a infância das minhas filhas. Escrevo porque sinto um prazer inenarrável em fazer livros que possam chegar aos mais recônditos lares em vários países. E é exatamente por causa dessa forma de escrever que os livros podem, sim, salvar, libertar e transformar vidas.

Sempre digo que a literatura infantil é a oração da infância, assim como o brincar é a sua profissão. Tenho calafrios quando pessoas, ainda que bem-intencionadas, se referem a esse produto cultural de primeira grandeza como “livrinho”, algo menor, sem importância, mero entretenimento passageiro. Claro que livros infantis divertem e entretêm, mas são muito mais: são umas das primeiras janelas para repertórios linguísticos e visuais das crianças. E crianças que ouvem histórias lidas por seus pais e professores chegam mais preparadas para a vida. Esta é uma afirmação embasada por uma profusão de pesquisas em diversas áreas científicas. Ler ou não literatura infantil para as crianças desde pequenas pode acarretar profundos desdobramentos em suas vidas.

Lembro uma cena que exemplifica bem o olhar de soslaio que parte da sociedade dirige aos livros infantis e a seus autores. Chegando a um hotel para participar de uma importante feira literária do país, uma amiga escritora me reconheceu e prontamente me apresentou a um escritor premiadíssimo de romances para adultos, de quem sou fã. Quando ela mencionou que eu era autor de livros infantis, o colega fez um gesto com a mão, expressando certo desdém. Eu, educadamente, e com serenidade, disse: “Você sabe que, se eu e meus colegas escritores de literatura infantil não existíssemos, você não teria leitores para os seus maravilhosos romances. Somos nós que preparamos os seus leitores”. O autor ficou um pouco constrangido e me pediu desculpas. Ele disse que nunca havia considerado essa perspectiva.

Faço este preâmbulo para tentar compor um quadro de como a sociedade percebe aqueles que trabalham com objetos culturais destinados à infância, ao mesmo tempo em que reconhecemos que esse trabalho pode transformar uma sociedade inteira. Os países mais desenvolvidos priorizam totalmente a primeira e a segunda infância. Não é à toa que seus jovens, banhados constantemente por linguagens narrativas quando crianças, estão no topo das avaliações internacionais, como o Pisa [Programa Internacional de Avaliação de Estudantes], que avalia alunos de 15 anos em leitura, matemática e ciências, a cada triênio. Infelizmente, o Brasil sempre aparece nas últimas posições. Portanto, há uma relação direta entre formar leitores competentes, capazes não apenas de decodificar, mas de compreender o que leem, e o desenvolvimento global do indivíduo e da sociedade.

É urgente fortalecer políticas públicas e privadas que incentivem a leitura desde os primeiros anos de vida e reconhecer, de forma efetiva, que formar leitores é também formar cidadania, memória e futuro.

A situação no Brasil se agravou ainda mais em 2024, quando a pesquisa Retratos da Leitura revelou que, pela primeira vez, a porcentagem de não leitores superou a de leitores. 53% dos brasileiros não leem livros, e nos últimos quatro anos houve uma redução de quase sete milhões de leitores no país. Circulando pelo Brasil, frequentando livrarias, bienais, feiras literárias, escolas públicas e privadas, acompanhando a produção nacional de literatura infantil, podemos vislumbrar caminhos para mudar essa rota. Bienais e feiras literárias lotadas. Uma produção editorial de alta qualidade, que não deixa nada a desejar ao resto do mundo. Uma diversidade incrível de temas, autores e ilustradores. Somos uma verdadeira usina de criatividade literária. O que falta, então?

Lembro-me agora de um encontro com uma professora alemã que estava em São Paulo ensinando numa escola particular. Ela comentou que não entendia por que as crianças às quais dava aulas particulares de alemão em mansões não tinham nenhum espaço para livros em seus quartos. Na cidade que havia morado na infância, numa região proletária na Alemanha, todas as casas tinham uma pequena biblioteca para os filhos. Falta um despertar da sociedade civil e do poder público para a importância da literatura infantil na formação do indivíduo. 

Esse despertar também precisa acontecer dentro do próprio meio literário e suas instâncias representativas, que algumas vezes replicam preconceitos contra criadores de livros infantis, afastando-os de lugares de destaque em eventos literários, como se um autor infantil não pudesse dialogar em alto nível com romancistas. Escrever para crianças não é tarefa fácil. Grandes autores, de José Saramago [1922-2010] a C. S. Lewis [1898-1963], já comentaram a dificuldade de escrever para crianças. Elas são críticas implacáveis, inteligentes e perspicazes. Rejeitam moralismos simplistas e buscam histórias autênticas e com certa complexidade.

Desde 2010, tenho publicado dezenas de livros na Europa, Ásia e América Latina. Uma jornada dura, com investimentos próprios, mas que levou um autor brasileiro para mercados como Vietnã, Romênia, Polônia, Taiwan, França, Alemanha, Canadá, Grécia, Espanha, entre outros países. Aliás, a Espanha é meu segundo maior mercado, com mais de 200 mil exemplares vendidos. Conto isso porque, provavelmente, se eu escrevesse romances, o impacto dentro do meu próprio país seria diferente. Falo da minha trajetória, mas muitos colegas enfrentam desafios semelhantes, levando histórias brasileiras a milhões de crianças pelo mundo.

A literatura infantil brasileira apresenta uma qualidade textual, visual e gráfica de altíssimo nível, com uma diversidade admirável de temas, criadores e editoras. Não por acaso, já tivemos três vencedores do Hans Christian Andersen, o mais prestigioso prêmio da literatura infantil mundial. Por isso, é urgente fortalecer políticas públicas e privadas que incentivem a leitura desde os primeiros anos de vida e reconhecer, de forma efetiva, que formar leitores é também formar cidadania, memória e futuro.

Ilan Brenman é escritor com mais de 80 livros publicados e obras traduzidas para mais de 17 países, premiado no Brasil e no exterior. Doutor em educação pela Universidade de São Paulo (USP), ainda é palestrante nas áreas de educação, cultura e parentalidade. Em 2024, venceu o prêmio Jabuti de Melhor Livro Infantil por Cabo de guerra (Santillana Educação, 2023). Também escreve para o público adulto e lançou, neste ano, o título Histórias para guiar a sua jornada (Vestígio, 2025).

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