Mostra Paul Leduc

01/07/2026

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SOY LATINO AMERICANO E NUNCA ME ENGANO


Entre os grandes nomes do cinema mexicano, de meados dos anos sessenta do século XX, para cá, Paul Leduc ocupa um lugar de destaque. Talvez ele seja um dos diretores mais latino-americanos que já existiu. Ao lado de cineastas como Arturo Ripstein, seu contemporâneo, e Alfredo “Chano” Urueta – cada qual à sua maneira confrontando os limites e a hegemonia do cinema industrial mexicano – Leduc construiu uma obra radicalmente comprometida com a invenção estética e com uma reflexão profunda sobre a história, a identidade e as contradições da América Latina. Sua trajetória representa uma das mais fortes tentativas de libertar o cinema latino-americano daquilo que ele próprio denominava, segundo os cânones de Silvia Oroz, como o “cinema de lágrimas”: um paradigma narrativo baseado no melodrama convencional, de emoções baratas, herdeiro direto da Era de Ouro mexicana, que por muitas décadas dominou, para o bem, ou para o mal, as telas do continente.

A importância de Leduc está justamente neste seu confronto com essa tradição. Se o melodrama buscava organizar a realidade por meio da identificação emocional e da catarse, o cineasta mexicano optou pelo caminho do cinema-ensaio (tão caro aos críticos europeus), da fragmentação narrativa, da observação crítica e da construção poética. Filmes como Reed: México Insurgente (1973), Frida, naturaleza viva (1983), Barroco (1989) e Latino Bar (1991) – todos estes presentes na mostra retrospectiva do Sesc Piracicaba – são obras potentes, engajadas na assunção da memória das Américas, e que recusam as formas narrativas convencionais em favor de estruturas abertas, nas quais a imagem, a música, o silêncio e o registro histórico tornam-se elementos fundamentais da experiência cinematográfica.

A partir disso, podemos perceber que a herança de Luis Buñuel é incontornável. Embora pertencentes a gerações distintas, ambos dividem uma desconfiança profunda em relação ao realismo simplificador e às formas dramáticas estabelecidas, que são referências básicas de um cinema burguês, alinhado com as diretrizes do poder econômico, e político, de um país aviltado pela matriz estadunidense. Neste caso, Buñuel surgiu como uma figura capaz de tensionar a realidade através da ironia, do surrealismo, do anarquismo e do questionamento das relações sociais. Leduc radicalizou esse legado primordial ao aproximá-lo das questões políticas latinoamericanas que surgiram depois da Revolução Cubana e os movimentos de libertação nacional que marcaram o continente.

Sua filmografia também pode ser entendida como uma resposta à imagem do México produzida pelo olhar estrangeiro, principalmente o norte-americano. Durante décadas, Hollywood transformou a Revolução Mexicana em espetáculo exótico, para inglês ver, como em Viva Zapata! (1951), de Elia Kazan, ou Villa Rides (1968), de Buzz Kulik, ambos interessados menos na complexidade histórica mexicana do que na fabricação de mitologias palatáveis ao público estadunidense, geralmente bitolado e alienado.

Contra essa apropriação indébita, Leduc propõe um tipo de cinema que devolve aos mexicanos o que é de direito dos mexicanos, e de todo o povo latino americano: a capacidade de narrar sua própria história! Seu México não é mais uma paisagem turística, inverossímil, pitoresca, apenas para consumo externo, mas um território de conflitos sociais, memória popular e, acima de tudo, resistência política.

Essa postura o aproxima da tradição do cinema revolucionário latino-americano. De um Glauber Rocha, um Fernando Birri ou Solanas, Miguel Littín, e até de um Tomás Gutiérrez Alea. Em um continente onde, para lembrar a célebre frase de Lênin, “de todas as artes, o cinema é para nós a mais importante”, Leduc entendeu o cinema como instrumento de transformação cultural e política. Seu projeto estético ultrapassa fronteiras nacionais: tratava-se de imaginar uma linguagem verdadeiramente panlatino-americana, capaz de estabelecer diálogos entre histórias, culturas e lutas compartilhadas. Não por acaso, uma de suas últimas tentativas, nesse sentido, foi Cobrador: In God we Trust (2006), coprodução entre México e Brasil baseada na obra de Rubem Fonseca, síntese de uma visão continental marcada pelas desigualdades produzidas pelo capitalismo global.

A própria história do cinema mexicano ajuda a compreender as dificuldades enfrentadas por cineastas como Leduc. A proximidade geográfica e econômica com os Estados Unidos gerou um permanente êxodo de talentos em direção a Hollywood. Figuras importantes, de destaque nos anos 50, como o fotógrafo Gabriel Figueroa e o ator Pedro Armendáriz, e mais recentemente Alfonso Cuarón, Guillermo del Toro e González Iñárritu, entre muitos outros, encontraram no mercado norte-americano oportunidades que normalmente não existiam em seu país de origem. Paralelamente, os sindicatos e estruturas corporativas criadas para proteger a indústria local acabaram fortalecendo modelos produtivos conservadores, dificultando a aceitação de propostas experimentais e renovadoras.

Foi justamente contra esse bloqueio que Paul Leduc se mobilizou politicamente. Participou da criação de mecanismos que deram origem ao Concurso de Cinema Experimental, inciativa pioneira, e determinante, para o surgimento de uma nova geração de realizadores e para a consolidação do chamado Novo Cinema Mexicano. Mais do que um cineasta, Leduc virou um articulador cultural que percebia a renovação estética como parte inseparável da transformação ética das estruturas de produção.

O Sesc Piracicaba convida o espectador a revisitar a obra desse cineasta fundamental. Em tempos de crescente homogeneização audiovisual, os filmes de Paul Leduc permanecem vivos como exemplos de um cinema que escolheu, conforme já preconizava o cineasta e crítico brasileiro Jairo Ferreira, a invenção contra a fórmula, a história contra o mito e a América Latina contra todas as formas de dependência cultural. Um cinema que, fiel ao espírito de seu autor, continua a mostrar que outra imagem do nosso continente é possível. Se Leduc ainda estivesse entre nós, nessa época de streamings, globalização, direitismos, distensões, polarizações, sem dúvida proclamaria: cineastas latinoamericanos – uni-vos!

Paolo Gregori
cineasta, crítico e professor de cinema.

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