Na cara do gol

01/06/2026

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Espaços em São Paulo valorizam a cultura do futebol e apresentam histórias e personagens memoráveis

Leia a edição de Junho/26 da Revista E na íntegra

POR ALEXANDRE RAITH

Até se transformar na prática esportiva como conhecemos hoje, o futebol trilhou pelos campos ingleses, dividindo espaço com o rúgbi, esteve presente nos encontros da elite inglesa do século 19 e chegou às classes populares, como brincadeira em espaços improvisados. O esporte desembarcou oficialmente no Brasil no fim do mesmo século, trazido por Charles William Miller (1874-1953), considerado o “pai do futebol”, e rapidamente se tornou parte da identidade nacional. Aqui, ganhou sotaque próprio em campos de terra batida e em várzeas de rios. 

Poucos países transformaram o futebol em expressão cultural tão ampla quanto o Brasil. “Extrapolou a própria ideia de esporte, o qual tem como foco a competição, mas que proporciona os mais fortes vínculos de pertencimento na vida das pessoas”, afirma Ademir Takara, bibliotecário do Centro de Referência do Futebol Brasileiro, setor responsável por pesquisar e documentar o acervo do Museu do Futebol. “E a devoção pode ser explicitada por meio de outras atividades como o colecionismo de camisas ou figurinhas”, completa.

A história do futebol brasileiro também é contada pelos pés de seus craques. De Pelé (1940-2022) a Marta, passando por Garrincha (1933-1983), Zico, Romário e Ronaldo. As cinco conquistas da seleção masculina, em 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002, ajudaram a eternizar o Brasil como referência mundial do esporte. A expectativa cresce para o torneio mundial em 2026, o primeiro disputado em três países e o maior da história, com 48 seleções.

Já o futebol feminino, durante décadas negligenciado e até proibido no Brasil entre 1941 e 1979, vive um momento de reconstrução histórica. A geração liderada por Marta abriu caminhos para novas atletas e fortaleceu debates sobre igualdade e investimento. Em 2027, o país sediará a Copa do Mundo Feminina da FIFA, tornando-se a primeira nação sul-americana a receber o torneio.

Mas o futebol brasileiro sobrevive também na várzea, nos campeonatos de bairro, nos narradores de rádio, nos hinos e nas coleções de camisas, flâmulas, ingressos e álbuns de figurinhas. Além de ocupar bibliotecas e de movimentar livrarias especializadas. Neste Almanaque, destacamos quatro espaços para conhecer o universo do futebol, além de curiosidades sobre a criação dos hinos dos clubes.

No Museu do Futebol, na zona Oeste de São Paulo, imagens, sons e relatos contam a história e celebram a modalidade.

Terra batida
O futebol de várzea se expandiu a partir da prática na região da Várzea do Carmo, no centro de São Paulo, às margens do rio Tamanduateí, no século 19. Com a expansão urbana na área central, a prática se deslocou para bairros periféricos, em campos de terra batida. As equipes eram informais, ligadas a comunidades e fábricas. Hoje, a Federação Paulista de Futebol Varzeano (FPFV) reúne cerca de 3 mil times cadastrados, que participam de torneios municipais e regionais e de copas independentes. Além de competir, essas agremiações exercem um papel de sociabilidade e convivência. “São símbolos de identidade local, fortalecem vínculos comunitários e oferecem caminhos para jovens dentro e fora de campo. São fundamentais para a organização dos bairros e para a inclusão social”, afirma José Soares de Miranda, presidente da entidade. Espaços públicos, como o Parque Sete Campos, na Cidade Ademar, se consolidaram como pontos de encontro para a tradicional pelada.

No Parque Sete Campos, em Cidade Ademar, na zona Sul da capital, futebol de várzea resiste (foto: Nilton Fukuda)

Parque Sete Campos

Estrada do Alvarenga, 2.781, Cidade Ademar. São Paulo-SP

Aberto diariamente, das 7h às 19h. Grátis.

Hinos
A origem dos hinos revela como cultura, história e futebol caminham juntos. O caso mais emblemático é o do cantor Lamartine Babo (1904-1963) que, após ser desafiado em um programa de rádio, nos anos 1940, criou 11 marchinhas para clubes cariocas, como Flamengo, Vasco, Botafogo, Fluminense, Bangu e América, esse último, o seu time do coração. Enquanto o cantor Lupicínio Rodrigues (1914-1974) assinou o hino do Grêmio, em 1953. Nos campos paulistas, o Corinthians adotou a versão do radialista Lauro D’Ávila (falecido em 1985), lançada em 1952, que conquistou a torcida com o refrão “campeão dos campeões”. Já o do Palmeiras tem relevância histórica. Composto em 1949 pelo maestro Antônio Sergi (1913-2003), surgiu anos após a mudança de Palestra Italia para a denominação atual, motivada por um decreto do governo brasileiro durante a Segunda Guerra Mundial que proibiu agremiações de utilizarem denominações ligadas aos países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão).

Lamartine Babo (com microfone à mão), criador de 11 marchinhas para clubes cariocas, como Flamengo, Vasco, Botafogo, Fluminense, Bangu e América (foto: Arquivo Nacional)

Acervo literário
Com cerca de 900 títulos, a Livraria Barrilete, na Bela Vista, no Centro de São Paulo, consolidou-se como a primeira do país dedicada exclusivamente ao futebol. A ideia surgiu em 2021, quando o sócio Carlos Nakaharada conheceu lojas temáticas em Montevidéu (Uruguai) e Buenos Aires (Argentina) durante uma viagem para acompanhar a final da Copa Libertadores da América. De volta a São Paulo, decidiu investir nesse nicho. Leitor assíduo, ele já mantinha uma biblioteca particular voltada ao tema, além de uma coleção de camisetas de clubes e seleções, exibidas ocasionalmente na vitrine. O nome da livraria homenageia o  “barrilete cósmico”, expressão eternizada na narração argentina do segundo gol de Diego Maradona (1960-2020) contra a Inglaterra na Copa do Mundo de 1986. “Ele foi um personagem folclórico na história do futebol mundial”, diz Nakaharada. 

Livraria Barrilete 
R. Dr. Luís Barreto, 103, Bela Vista, São Paulo-SP
De quarta a domingo, das 14h às 20h. Grátis.
Mais informações: instagram.com/livrariabarrilete

Livraria Barrilete, na Bela Vista, no Centro de São Paulo, é considerada a primeira do país dedicada ao futebol (foto: Carlos Nakaharada)

História e cultura
Ao percorrer as 18 salas expositivas do Museu do Futebol, na zona Oeste de São Paulo, o visitante vive uma jornada sensorial em que imagens, sons e relatos contam a história e celebram a cultura da modalidade masculina, feminina e de várzea. Identidade, diversidade e inclusão são temas que levam à reflexão sobre como essa paixão nacional atravessou classes sociais, influenciou comportamentos e se tornou identidade nacional. “A valorização do futebol feminino é um dos pilares do museu, refletindo o compromisso em ampliar narrativas e dar visibilidade a histórias que por muito tempo foram apagadas. O futebol de várzea se expressa tanto na exposição principal quanto na programação de mostras temporárias, evidenciando sua importância na formação da cultura futebolística”, conta Takara. Em 2026, a exposição Amarelinha homenageia a célebre camisa da Seleção Brasileira. 

Museu do Futebol
Praça Charles Miller, s/n, Pacaembu. São Paulo-SP
De terça a domingo, das 9h às 18h. Entrada: R$24 (inteira) e grátis para crianças até 7 anos. Entrada gratuita às terças-feiras. Mais informações: museudofutebol.org.br

No Museu do Futebeol, na zona Oeste de São Paulo, imagens, sons e relatos contam a história e celebram a modalidade (foto: Nilton Fukuda).

Mulheres em campo
O Brasil carrega na trajetória do futebol feminino marcas de resistência e atraso estrutural. Mulheres já jogavam desde os anos 1920, mas a prática foi proibida em 1941 por decreto do presidente Getúlio Vargas (1882-1954), permanecendo ilegal até 1979 e sendo oficialmente regulamentada apenas em 1983. Apesar desse cenário, o país tornou-se uma potência ao participar de todas as edições do torneio mundial, com destaque para o vice-campeonato em 2007 e o surgimento de ícones como a jogadora Marta, eleita seis vezes a melhor do mundo. A elite do Campeonato Brasileiro reúne 18 equipes, das quais seis são paulistas, entre elas a Ferroviária, que criou o time feminino em 2001, muito antes dos principais clubes paulistas e cariocas. “O fomento é consolidado com as categorias de formação. É um espelho para agremiações que almejam ter um projeto esportivo voltado às mulheres”, afirma Nuty Silveira, diretora da modalidade na Ferroviária.

Há mais de um século, brasileiras driblam desafios e avançam campo adentro, conquistando reconhecimentos (foto: Rafael Zocco).

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