Navios contemporâneos

02/04/2026

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Descendente de pessoas escravizadas, Eustáquio Neves retrata as ressonâncias da diáspora africana com linguagem fotográfica autoral

Leia a edição de Abril/26 da Revista E na íntegra.

POR MARCEL VERRUMO

Após uma visita ao Museu do Escravo, em Belo Vale (MG), Eustáquio Neves observava imagens que havia fotografado de máscaras impostas a pessoas escravizadas no Brasil. Notou que, coincidentemente, o ângulo de alguns de seus registros era o mesmo de fotografias antigas da própria mãe, e teve a ideia de sobrepor as imagens da exposição às do rosto da matriarca. “Nas fotografias resultantes, minha mãe passou a vestir máscaras que se perpetuaram historicamente e ainda incidem, por meio do racismo estrutural, sobre as pessoas negras”, conta o fotógrafo, revelando detalhes do processo criativo da série Máscara de punição (2004).

Nesse novo trabalho, Neves deu continuidade a uma pesquisa e produção fotográficas autorais que havia iniciado há mais de uma década, marcadas pela inovação na linguagem e pelo registro das vivências de populações negras no contexto da diáspora africana. Embora o tema estivesse presente em seu ambiente familiar desde o início de sua existência, essa dedicação foi iniciada em Arturos (1993-1995), série na qual registrou sua ancestralidade, celebrando a cultura e a sabedoria de quem resistia em comunidades quilombolas. Já em Boa aparência (2000), relembrou quando buscava o primeiro emprego e encontrava anúncios de vagas que pediam candidatos com “boa aparência”, mesmo termo usado em anúncios de compra e venda de pessoas escravizadas durante o período colonial; na série, o artista partiu de um autorretrato e sobrepôs a ele imagens de arquivos coloniais, denunciando a permanência daquelas palavras sobre os corpos negros. Trabalhos como esses estão reunidos no livro recém-lançado Outros navios: Eustáquio Neves (Edições Sesc São Paulo, 2025), organizado por Eder Chiodetto [leia mais em Farol para novas gerações].

A fotografia surgiu na vida de Neves como um passatempo na década de 1980. Após se mudar para a pequena cidade de Niquelândia (GO), começou a trabalhar como técnico em química industrial. No novo endereço, adquiriu uma câmera fotográfica para se distrair e começou a aprender a usá-la por meio de um curso de fotografia publicado em fascículos editoriais vendidos em bancas de jornal. Tornou-se o fotógrafo da cidade, registrando eventos como casamentos, formaturas e nascimentos. Após alguns anos, deixou o emprego de técnico de química industrial e, com o dinheiro da rescisão, investiu em equipamentos para abrir o próprio estúdio, ainda especializado em fotografias sociais.

No início da década de 1990, em Belo Horizonte, durante o tradicional Festival de Inverno UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), teve a oportunidade de fazer um curso com um profissional renomado, Eduardo Castanho, e ampliou o portfólio para apresentar em aula. Teve a ideia de registrar o metrô de Belo Horizonte, recém-inaugurado em 1986. “Como era proibido fotografar, tive pouco tempo e simulei uma pessoa que anda apressada no metrô. Fiz imagens borradas, que simulavam a rapidez daquele lugar, o veículo e os corpos em movimento”, conta. Durante a leitura do portfólio, o professor o elogiou e afirmou que aquilo era uma fotografia que identificava um autor, reconhecimento que o ajudou a se entender como artista. 

Pouco tempo depois, foi selecionado para expor no mesmo festival, ocasião em que fez sua primeira exposição solo, com a série Caos urbano (1991). A visibilidade conquistada no evento resultou em convites para expor em outros estados e países, marcando também sua transição de profissional dedicado a registros de eventos sociais para o de trabalhos que o tornariam conhecido no universo da fotografia. No laboratório, passou a unir os conhecimentos e referências fotográficos aos saberes e práticas como técnico em química industrial, investindo em experimentações, sobrepondo e amalgamando imagens e explorando diferentes processos de revelação, contribuindo, desse modo, para ampliar os limites da linguagem fotográfica e criar uma estética própria. “A fotografia é a minha ferramenta para pensar o mundo e discutir as minhas questões. É como a caneta para o escritor. É a ferramenta com a qual eu me expresso melhor”, reconhece Neves, recém-selecionado para expor seu trabalho e representar o Brasil na Bienal de Veneza.  

Farol para novas gerações
Edições Sesc São Paulo lançam Outros navios: Eustáquio Neves e celebram carreira de fotógrafo

Fotografia da série Cartas ao mar (2015).

Cerca de quatro décadas de carreira e a quase totalidade da produção artística do fotógrafo mineiro Eustáquio Neves são apresentadas na obra Outros navios: Eustáquio Neves, recém-lançada pelas Edições Sesc São Paulo. Com organização de Eder Chiodetto, o livro de fotografias faz um panorama visual da produção do artista e é um desdobramento da exposição Outros navios: fotografias de Eustáquio Neves, que também teve curadoria de Chiodetto e foi realizada nas unidades do Sesc Ipiranga e Rio Preto.

Ao longo de 240 páginas, o livro apresenta séries fotográficas marcantes da jornada de Neves. Entre elas, estão o registro de uma comunidade quilombola, em Arturos (1993-1995); do silenciamento histórico da população negra, em Máscara de punição (2004); e da exclusão social e disputa territorial urbana, em Futebol (1995-2004). Há, ainda, a série inédita Sete (2023), criada após a realização da exposição e que questiona processos de catequização e dominação cultural.

De acordo com o organizador, o livro é uma oportunidade de eternizar a vida e a obra de um artista incontornável da história da fotografia no Brasil. “Eustáquio é um farol para as novas gerações. No campo ideológico, representa a reparação histórica de que necessitamos em um país onde o racismo estrutural ainda se arrasta. No campo da linguagem, é indicativo da experimentação, da expansão da linguagem a partir de experiências com revelações químicas e misturas incomuns, colagens e outros processos que levam a fotografia a um lugar escultórico”, defende Chiodetto.

Afora as dezenas de fotografias, a obra traz um texto introdutório de Chiodetto sobre o artista e as séries mostradas. Também há uma apresentação assinada por Luiz Deoclecio Massaro Galina, Diretor Regional do Sesc São Paulo, e artigos escritos por profissionais como a fotógrafa Barbara Copque, professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ); Bonaventure Soh Bejeng Ndikung, curador camaronês responsável pela 36ª Bienal de São Paulo (2025-2026); e Edimilson de Almeida Pereira, escritor, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e amigo de Neves. A publicação ainda apresenta um texto escrito pelo diretor-curador Emanoel Araujo, uma entrevista exclusiva do artista e uma cronologia elaborada pela historiadora Lilian Oliveira.

Segundo Chiodetto, além da contribuição ao campo da fotografia, o livro é um manifesto pela democracia e um reconhecimento a pessoas sequestradas na África e escravizadas em território brasileiro, à sua resistência e ao que seus descendentes criaram. “Ajuda a pensar a democracia no Brasil e pontos de nosso passado e presente, em um momento em que há uma negação da nossa história”, finaliza.

EDIÇÕES SESC SÃO PAULO
Outros navios: Eustáquio Neves
Organização de Eder Chiodetto.
2025, 240 páginas. 
sescsp.org.br/editorial/outros-navios-eustaquio-neves

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