Nobreza do samba

30/01/2026

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Músico, compositor e cantor, Dudu Nobre cresceu embalado por bambas e, desde a infância traçou sua história na avenida da música brasileira

Leia a edição de Fevereiro/26 da Revista E na íntegra.

POR RACHEL SCIRÉ
FOTOS NILTON FUKUDA

“Sambando eu vou/ Na brincadeira/ Sou criança, sou Brasil/ Sou a pátria brasileira.” Com esses versos, o músico, compositor e cantor Dudu Nobre levou à avenida seu primeiro samba-enredo pela escola-mirim Alegria da Passarela. Era 1984 e, com menos de dez anos de idade, ele já assinava parceria com Beto Sem Braço(1940-1993), compositor gravado pela turma do Cacique de Ramos e um dos autores de “Bum Bum Paticumbum Prugurundum”, samba-enredo antológico que deu o último campeonato à escola Império Serrano, em 1982.

A convivência com bambas não era novidade para o menino que cresceu cercado por nomes como Wilson das Neves (padrinho de batismo) e Zeca Pagodinho (padrinho musical), além de Nelson Cavaquinho (1911-1986), Clementina de Jesus (1901-1987), Dona Ivone Lara (1921-2018) e Beth Carvalho (1946-2019), nas rodas de samba organizadas por sua mãe. Ao perceber o interesse do filho, Dona Anita o presenteou com um cavaquinho e o colocou para estudar piano clássico. Com dez anos, Dudu foi aluno de Joaquim Nagler, que foi contemporâneo de Noel Rosa (1910-1937). Depois, cursou a Escola Brasileira de Música e estudou cavaquinho com Henrique Cazes, Mauro Diniz, Alceu Maia e Wanderson Martins.

Passou a adolescência como músico de Almir Guineto (1946-2017), Pedrinho da Flor, Dicró (1946-2012) e Zeca Pagodinho. “O aprendizado que eu tive com cada artista que acompanhei foi me formando”, relembra. “O Almir, por exemplo, era um gênio absurdo. No meio de um som catastrófico, ele olhava para trás e dizia: ‘Major, afina a segunda corda’.” Autor de sucessos como “Posso até me apaixonar”, “No mexe mexe, no bole bole”, além de “Vou botar seu nome na macumba” (com Zeca Pagodinho) e “Água da minha sede” (com Roque Ferreira), Dudu ganhou projeção como compositor e iniciou a carreira solo em 1999.

Entre idas e vindas no universo do Carnaval, venceu mais de 40 disputas de sambas-enredo, como o samba apresentado pelo Salgueiro neste ano, que assina com outros parceiros. Ao comentar a extensa parceria, faz cálculos e traz números que atestam a realidade das “Super Escolas de Samba S/A”, que Beto Sem Braço havia previsto já naquele samba de 1982. Neste Depoimento, Dudu Nobre rememora a infância, celebra a carreira e comenta o cenário das escolas de samba.

origens
Cresci em uma família que tem os paralelos da nossa sociedade. Minha mãe negra, neta de canavieiros de Campos (RJ), camareira; meu pai branco, de uma família de funcionários públicos no Ceará, engenheiro. De um lado, uma rapaziada que fez bonito na faculdade e, de outro, pessoas que não tiveram tantas oportunidades. Todos queriam ter sido artistas, mas não puderam se dedicar como aconteceu comigo, minha irmã [Lucinha Nobre, premiada porta–bandeira do Carnaval carioca] e meu primo [músico e ator Seu Jorge]. Quando eu era pequeno, meu pai tinha uma demolidora e construtora. Ele comprava terrenos e montava casas, restaurantes, lanchonetes que a minha mãe comandava. Nessa época, em 1978, 1979, existiam dez rodas de samba fixas no Rio de Janeiro e três eram da minha mãe, que foi pioneira em pagar cachê para os músicos de samba. Antes, o pessoal tocava pela cerveja, pela sopa, todo mundo tinha outros empregos. E tinha as festas lá em casa, que começavam na sexta e terminavam na segunda, para onde os sambistas iam depois.

cavaquinho
Foi um privilégio ter crescido nessas rodas de samba, ser acarinhado por artistas como o Grupo Fundo de Quintal, Zeca Pagodinho, Jorge Aragão, Almir Guineto, Nei Lopes, Martinho da Vila, Beth Carvalho, Alcione, Luiz Carlos da Vila, Nelson Cavaquinho, Clementina de Jesus, Dona Ivone Lara. Eu morava em um prédio que o meu pai tinha construído, em Vila Isabel. O porteiro tinha um cavaquinho velho, que as crianças usavam para brincar, mas eu ficava imitando o que via nas rodas. Minha mãe comprou o cavaquinho, o Arlindo Cruz (1958-2025) me ensinou a colocar as cordas, o Adilson Victor me ensinou a afinar. Quando começava o samba, eu pegava o instrumento, aparecia um músico e me mostrava uma posição, outros ensinavam a tocar percussão e, quando percebi, já estava tocando, foi muito natural.

escola
Num sábado, estava parado na porta de casa vendo o pessoal chegar para a feijoada. Aí estaciona um Monza duas cores e desce um homem cheio de ouro. Era o Osmar Valença (1929-2003), presidente do Salgueiro. Ele estava montando uma escola de samba mirim das crianças da Tijuca, Vila Isabel, Grajaú e Andaraí, e queria que eu fosse lá tocar cavaquinho. A ideia do Osmar era que um compositor consagrado fizesse o samba com uma criança. O Beto Sem Braço achou que eu era abusado quando disse que ia fazer o refrão, porque o refrão é o principal, mas eu fiz, ele gostou e ganhamos o samba-enredo. Eu nem sabia que aquilo dava dinheiro, mas quando chegou o Carnaval, o Beto me levou na Sociedade Administradora de Direitos de Execução Musical do Brasil (SADEMBRA). De repente, comecei a andar com o Beto Sem Braço em tudo que era samba e favela, o que era algo “emocionante” para uma criança. Era um negócio um pouquinho mais pra frente, né?

Dudu Nobre no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc São Paulo, onde participou da programação Em Primeira Pessoa (foto: Nilton Fukuda).

artista
Desde os dez anos, eu toco na noite e ganho meu dinheirinho com direito autoral. Quando ia tocar no Cacique de Ramos, por exemplo, os ônibus paravam de circular meia-noite e só voltavam às cinco da manhã. Eu terminava de tocar, tirava um cochilo lá, pegava o ônibus, descia em Vila Isabel e ia para a escola carregando o cavaquinho. Era uma coisa meio doida, a moçada na escola de classe média alta querendo ouvir Sigue Sigue Sputnik [banda britânica de new wave dos anos 1980] e eu curtindo Bezerra da Silva(1927-2005). Com 13 anos, eu tocava com o Almir Guineto; com 15 pra 16, fui tocar com o Pedrinho da Flor e o Dicró, e o Zeca apareceu com 19. Com 20 anos, comecei a ser gravado como compositor e com 25, gravei o meu primeiro disco. A minha vida era uma maluquice, porque eu ficava no mundo do “samba de meio de ano” e também no Carnaval. A Alegria da Passarela virou Aprendizes do Salgueiro, em que também ganhei samba. Depois fui para Herdeiros da Vila Isabel, para a Estrelinha da Mocidade e finalizei no Império do Futuro. Com 16 anos, já era semifinalista de samba-enredo na Mocidade Independente de Padre Miguel.

pagode
Minha carreira solo aconteceu sem que eu planejasse. No samba, sempre existiu a questão da renovação. Na década de 1990, com o estouro dos grupos de pagode, recebi muitos convites. Tinha quem dissesse: “Pô, tá maluco, vai ficar nessa, cantando samba? Daqui a pouco esses caras morrem e isso aí vai acabar”. Ao mesmo tempo, havia uma preocupação muito grande em relação ao caminho do samba tradicional, o chamado samba de partido alto, que eu me mantive fiel. Muitos dos meus pares foram para outro lado e ficaram pelo caminho. Eu adoro o pagode da década de 1990, muita coisa boa saiu dali, mas tinha muita coisa descartável. Fora os oportunistas, né?

cantor
Como músico, alcancei o ápice quando fui tocar na banda do Zeca Pagodinho. O músico acabou trazendo o lado compositor. Com 24 anos, escrevi “Posso até me apaixonar”, que foi a segunda música mais tocada no Brasil no ano. Tive música de trabalho com Beth [Carvalho], Martinho [da Vila] e Fundo de Quintal. Meu nome ficou em alta como compositor e acabou puxando o cantor. Mas o cantor de samba só vai aprender a interpretar mesmo depois de dez, quinze anos de carreira. Aí você entende o sorriso do Martinho da Vila, a divisão do Zeca Pagodinho, a colocação vocal e a interpretação do Emílio Santiago (1946-2013), as medidas do canto da Alcione e até a rouquidão da Beth Carvalho. Hoje, com mais de 25 anos de carreira, estou bem encaminhado para virar um cantor de samba. Somos cronistas do dia a dia e quem melhor canta a música é o próprio compositor.

Cronista do dia a dia, Dudu Nobre compôs mais de 40 sambas-enredo vencedores do Carnaval. Entre eles, está o samba apresentado pelo Salgueiro neste ano, que assina com outros parceiros (foto: Nilton Fukuda).

samba-enredo
O enredo às vezes traz um tema político, mas hoje a questão econômica é muito forte no Carnaval – a escola que menos faturou em 2025 ganhou 11 ou 12 milhões de reais. Isso só de arrecadação ligada à avenida, não estou falando de enredo patrocinado, movimentação na quadra, venda de shows… Então existe a cultura do Carnaval, mas isso não é o mais forte hoje em dia. Quando a gente tem a possibilidade de falar de um tema extremamente necessário, como foi o “Hutukara” [samba-enredo do Salgueiro em 2024, sobre o povo Yanomami], é muito gratificante, mas mesmo nessa situação a gente saiu um pouco do enredo. A onda ali era falar do indígena de forma mais amável e fomos para um lado de luta. O compositor tem liberdade quando encontra uma brecha, porque tem carnavalesco que não se desprende do projeto artístico e não aceita que o samba traga outra temática.

carnaval
Do ponto de vista do compositor, eu vejo isso com um pouco de tristeza, mas é que realmente virou uma indústria. Eu fiquei muito tempo distante do Carnaval e só voltei em 2014 porque a minha escola, a Mocidade, estava passando por um momento de turbulência. O monstro que me afastou no passado foi justamente a necessidade de ter um financeiro forte, algo que se consolidou de tal forma que hoje você não consegue disputar um samba em uma escola do grupo especial do Rio de Janeiro por menos de 200 mil reais. Por isso tem aquele monte de gente assinando junto. Tem o cara do financeiro, o que cuida do audiovisual, quem faz porque gosta, o que busca a alcunha de compositor ou quer conquistar uma presença política na escola. Eu não boto um real, vou lá com o cavaco, a voz e a caneta. De qualquer forma, é emocionante ver um samba seu na Marquês de Sapucaí, mas o caminho hoje é sem volta porque, economicamente, o Carnaval tomou outra proporção. 

Assista a trechos desse Depoimento com o músico Dudu Nobre, realizado em 22/10, no Centro de Pesquisa e Formação (CPF) do Sesc São Paulo. 

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