O Cinema como ferramenta de transformação social

08/09/2026

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Por Duda Leite*

Documentarista e militante anti-fascista, o irlandês Mark Cousins conseguiu algo raro no cinema documental: criar um estilo facilmente reconhecível.

Usando sua própria voz em off, ele consegue criar filmes ensaísticos, sobre assuntos tão amplos como seus filmes: mulheres no cinema, Alfred Hitchcock, Orson Welles, e a própria história do cinema.

Agora, o prolífico Cousins volta sua mente de pesquisador para a história dos documentários, em um filme épico de 15 horas, dividido em 15 capítulos.

A Mostra Amor Ao Cinema exibe os dois primeiros capítulos, além do filme em duas partes “A História do Cinema: A Nova Geração”, que surgiu durante a pandemia, como Cousins conta nesta entrevista exclusiva.

DUDA LEITE Os documentários podem matar o fascismo?

MARK COUSINS – Eles podem ajudar. Os documentários já estiveram do lado do demônio, assim como dos anjos. É possível usar os documentários para o lado sombrio. Porém, a maioria dos documentários dizem: “olhem para estas pessoas, para estas outras vidas”. Eles nos ajudam a entender que existem outras pessoas que são diferentes de nós. E, ao entender isso, nos preocupamos com eles. Fascismo é sobre não se importar com o outro, e tratá-los muito mal, ou pior ainda.

DUDA LEITEQual foi seu critério para escolher quais documentários deveriam entrar no seu filme?

MARK COUSINS – Tenho assistido a documentários durante os últimos 40 anos, e faço documentários há 35 anos. Nesse tempo construí uma lista na minha cabeça, sobre filmes que considero bons, inovadores, ou profundamente humanistas. Ou que nos ensinem algo sobre o mundo. É uma lista grande. Quando decidi contar a História dos Documentários escrevi essa lista numa folha de papel. Existem aproximadamente 900 ou 1000 filmes nessa lista. Eu quis ter certeza de que estava escolhendo filmes de todas as partes do mundo, e não apenas dos Estados Unidos e da Europa. Escolhi filmes da China, Irã, Japão e América do Sul, além dos países nórdicos e africanos. O segundo critério, é que eles deveriam ter feito alguma inovação no formato do documentário. Não estava interessado em filmes que contassem as mesmas histórias de sempre, da mesma forma. Eles precisavam trazer algo de novo à linguagem cinematográfica. Nos mostrar novos tipos de gente e novos temas.

DUDA LEITE Você cita alguns filmes brasileiros. Como você escolheu os filmes brasileiros?

MARK COUSINS – Eu comecei com o Alberto Cavalcanti, que filmou bastante no Reino Unido. E que estava trabalhando em Paris, na primeira vez que eu o menciono. Pedi ajuda a amigos e colegas brasileiros. Conhecia alguns filmes famosos, como “Ônibus 174”, sobre o Sandro, que é um dos grandes personagens do cinema. Também conhecia “Cabra Marcado para Morrer”, do Eduardo Coutinho. Uma vez que você assiste a estes filmes, você nunca se esquece de Elizabeth Teixeira. Estes dois personagens foram os que me guiaram. Sou amigo da Petra Costa e ela me deu algumas dicas. Também a equipe do Festival É Tudo Verdade, me deram algumas boas dicas. O Alberto Cavalcanti foi bem importante para mim, porque ele não trabalhou só no Brasil, mas também na França e aqui no Reino Unido. Foi um grande inovador. Também gostaria de acrescentar a incrível Helena Solberg, de quem assisti seu ótimo documentário sobre a Carmen Miranda. Estive num júri com a Helena em São Paulo, e foi incrível poder conhecê-la. Sou muito fã dela.

DUDA LEITE O que podemos aprender sobre o mundo ao assistir documentários?

MARK COUSINS – Podemos aprender a não acreditar no que a mídia de extrema direita quer nos mostrar sobre o mundo. Quanto mais assistimos a documentários, mais percebemos como somos parecidos com nossos irmãos e irmãs de outras culturas, em outros continentes. Pessoas de outras sociedades, classes sociais, e outras sexualidades. É uma questão de humanismo, que estava meio fora de moda, graças ao papo neoliberal. Falar sobre bondade e empatia tornou-se quase um ato radical. Os documentários praticamente são uma máquina de solidariedade. São uma forma de dizer: “nós não odiamos as pessoas do Irã, nem da Rússia”. Podemos odiar seus governos, mas não seu povo. Quando assistimos a um bom documentário, nos sentimos enriquecidos como seres humanos. Nos sentimos menos sozinhos no mundo.

DUDA LEITEVocê já declarou que os documentários não são tão sexy como os filmes de ficção. O que podemos fazer para mudar isso?

MARK COUSINS – Durante muitos anos, os documentários foram considerados como algo que era “bom para você”, um pouco como comer verduras. As pessoas não corriam para os cinemas para ver documentários. Mas isso mudou, nos anos 1990, com o documentário “Na Cama com Madonna” e o filme “Buena Vista Social Club”, do Wim Wenders. E alguns filmes do Michael Moore. As pessoas se deram conta de que a vida real é mais estranha do que a ficção. E o arco narrativo de um documentário é normalmente bem menos previsível e segue menos fórmulas do que um filme convencional. Acredito que os documentários são bastante sexy, e sempre foram. Eles apenas tinham uma má reputação. Sendo apenas jornalísticos ou sociológicos. Vocês passaram pelo governo Bolsonaro, a Índia está passando pelo governo Modi, os Estados Unidos estão passando pela era Trump. O jornalismo é super valioso. O jornalismo de verdade vai nos ajudar a sair dessa confusão. Talvez os documentários não sejam tão espalhafatosos como o Carnaval no Rio, mas, meu deus, têm muito coração e alma!

DUDA LEITEVocê esteve no Brasil recentemente para receber uma homenagem. Como foi sua visita à Brasília?

MARK COUSINS – A arquitetura é meu primeiro amor, portanto queria ter visitado Brasília faz muito tempo. Na verdade, Brasília aparece muito no meu filme A História dos Documentários, principalmente no capítulo sobre os anos 2010. Este capítulo é todo focado na chegada dos BRICS e grande parte se passa em Brasília. Não sei como é no Brasil, mas na Europa ficou na moda dizer que Brasília não funciona como cidade. Eu achei que Brasília funciona perfeitamente bem como cidade. Usei o transporte público e era excelente. A demarcação clara dos prédios do governo. Talvez algum edifício não funcione separadamente, mas como estrutura de cidade, achei que funciona muito bem. Gostei muito de lá.

DUDA LEITE – O cinema pode mudar o mundo?

MARK COUSINS – O cinema é bem próximo dos nossos sonhos. Assistir a um filme, é como sonhar. Os sonhos podem nos desestabilizar, mas sonhos podem trazer uma consciência sobre algo que nosso consciente não consegue acessar. Os sonhos podem nos mostrar quais são nossos medos. De que sentimos medo, ou algo que nos envergonhamos. O cinema pode realmente ajudar. Porém, o cinema não substitui o ativismo político ou o jornalismo. Ou ser gentil com seu vizinho. Ou cuidar das pessoas idosas da nossa sociedade. O cinema é uma boa maneira de nos lembrar da nossa ética na vida. É uma forma de nos conectar com nossa própria consciência. E com o que nos incomoda. Estamos todos muito ocupados sempre, chegamos em casa à noite, e queremos pedir uma pizza. Mas o cinema, quando é bom, consegue nos conectar com algo bastante valioso: a natureza humana

DUDA LEITE – Gostaria de falar agora sobre A História do Cinema – Uma Nova Geração, de 2021. Qual foi seu critério para a escolha dos filmes mencionados?

MARK COUSINS – Este foi um filme criado durante a pandemia de Covid. Trabalhei bastante durante a pandemia. Fiz também um filme sobre o Alfred Hitchcock, sentado nessa mesma mesa na qual estou falando com você. Meu critério foi celebrar o cinema. Muitas vezes, as pessoas dizem que os melhores anos para o cinema foram as décadas de 1930 ou 1960. E eu havia feito A História do Cinema – Uma Odisseia, sobre a história do cinema. Senti que, desde que completei este filme, havia muitos filmes bons sendo lançados. Como “O Cemitério do Esplendor”, do Apichatpong Weerasethakul. Eu queria fazer algo que celebrasse essa forma de arte que é o cinema. As pessoas assistiram a muitos filmes durante a Covid. O cinema foi algo que nos ajudou a enfrentar a pandemia. A cerveja nos ajudou a enfrentar a Covid, claro, mas o cinema também. Fiquei muito feliz quando recebi o telefonema do Thierry Fremaux, do Festival de Cannes, dizendo que queria abrir o festival com A História do Cinema – Uma Odisseia. Fiquei muito tocado com isso.

DUDA LEITE – Em 1993, Peter Greenaway declarou que o cinema estava morto, após a chegada do controle remoto nas casas. O cinema também foi declarado morto com a chegada do VHS. E de novo, com a chegada dos streamings. Por que você acha que o cinema insiste em sobreviver?

MARK COUSINS – Sim, o cinema morreu em 1929, quando chegou o som. Morreu nos anos 1950 com o surgimento da TV. Morreu quando as fitas VHS foram lançadas. Mas, estranhamente, ainda está conosco. Peter tocou em um ponto importante, quando citou o controle remoto. É muito agradável estar sentado em casa, como o controle na mão, comendo um hambúrguer. Mas, nós, seres humanos, não queremos sempre estar no controle. Nós queremos dizer para um cineasta: “vou te dar duas horas do meu tempo. Faça algo interessante com isso”. Acredito que é isso que fazemos quando vamos ao cinema e não temos um botão de pausa, ou de fast ou de rewind. Portanto, requer paciência e devoção para algo que é maior do que nós. Queremos estar próximos do sublime, e o cinema é o sublime de todos os dias. Não é sublime assistir a algo sentado na sua casa, com seu abrigo, comendo pizza.

DUDA LEITE – François Truffaut disse que “o cinema é mais importante do que a vida”. Você concorda com isso?

MARK COUSINS – Não. É importante se lembrar de que Truffaut era muitas vezes ligado às ideias da direita. Quando pensamos na Nouvelle Vague, pensamos que eles eram de esquerda, porém apenas alguns deles eram, como Agnés Varda e Alain Resnais. Truffaut não se interessava tanto por mudanças sociais, como deveria. Ele estava exagerando, mas de fato, o cinema é muito importante. O cinema nos ajuda a atravessar certas coisas. Eu estava mandando uma mensagem para um amigo brasileiro, e ele me disse que o cinema o ajuda a atravessar momentos difíceis. E isso é verdade, para muita gente. Porque é luminoso, é maior do que a vida, e é muito inventivo. Funciona como um proxy: podemos ver na tela pessoas passando por experiências próximas às nossas, mas eles muitas vezes encontram soluções. Enfim, o cinema é muito importante, mas não é mais importante do que a vida. É mais importante cuidar da sua mãe doente do que ir assistir a mais um filme de super herói.

* Duda Leite é Jornalista, Curador e Cineasta.

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