O meu lugar: o direito humano de viver, contar, ler, escrever e sonhar um território

04/03/2026

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Por Bel Santos Mayer*

A preocupação em relação ao bem coletivo do nosso país, de nossa cidade ou vizinhança,
baseada em valores amorosos, faz com que todos busquemos nutrir e proteger esse bem. 
Se todas as políticas públicas fossem criadas no espírito do amor,
não teríamos que nos preocupar com o desemprego, 
as pessoas em situação de rua, o fracasso das escolas em ensinar às crianças
ou os vícios. 
(bell hooks, 2021, p. 13) 

Este artigo é escrito a partir dos meus lugares: “o lugar onde cresci” e “um lugar escolhido”, respectivamente, Parque Santa Madalena e Parelheiros. Entre a Zona Leste e a Zona Sul de São Paulo se assentam minhas visões de mundo, as vivências, os afetos, sonhos e planos coletivos, as leituras e as escritas sobre direitos humanos. 

Caminho por esses lugares acumulando a poeira do caminhar. São muitos os chãos, múltiplas as vozes e histórias recolhidas nos encontros, algo que o artista Paulo Nazareth, na performance Notícias de América, fez literalmente, ao andar descalço pela América Latina rumo a Nova York (2011). 

Saí juntando o que aprendi na primeira metade da vida: a escuta e o respeito a quem chegou antes, a proteção e o cuidado com quem chegou depois, as lutas por infraestrutura do bairro, por trabalho remunerado, escola e educação de qualidade, por justiça e segurança, pelo direito à vida e ao Bem Viver. O meu lugar me ensinou a lutar contra o racismo e todas as formas de violência, pelos direitos de crianças e adolescentes, pelo direito humano à cultura e à literatura, pelos direitos humanos. 

A segunda metade da minha existência tem sido como coordenadora do Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário (IBEAC)1. Desde 1997, tenho me dedicado às transformações que o acesso ao direito humano à cultura desencadeia nos territórios, como os direitos assegurados pela Constituição Federal (CF/1988): acesso aos bens culturais e às fontes da cultura nacional, apoio e incentivo à proteção, valorização e difusão das manifestações e bens culturais, participação na elaboração de políticas de cultura. 

Nesses lugares, os diferentes sotaques da vizinhança aprimoraram minha forma de ver, ler, contar e escrever o mundo. As vivências nos territórios me humanizaram, me colocaram em contato com jeitos mais coletivos de gestar a vida, de buscar soluções concretas para desafios comuns, me levaram a desenvolver projetos educacionais, poéticos e políticos de promoção e luta por direitos humanos em Parelheiros. 

O fazer(-se) no território 

Foram me chamar
Eu estou aqui, o que é que há 
Eu vim de lá, eu vim de lá pequenininho 
Mas eu vim de lá pequenininho 
Alguém me avisou 
pra pisar nesse chão devagarinho 
(Dona Ivone Lara, “Alguém me avisou”, 1981) 

Para uma instituição, a escolha de um território pode se dar por diferentes motivos: o seu CEP, indicação de apoiadores/as, laços afetivos e de amizade, o desejo de fazer algo para melhorar as condições de um lugar por compromisso ético e por saber-se habitante do mundo. 

Mas como chegar? Como pisar o chão devagarinho? A minha origem em um bairro acostumado a receber pessoas e instituições cheias de boas intenções e a escolha adulta de atuar em uma região diferente da que nasci levaram-me a algumas observações que me servem como premissa para qualquer trabalho. Compartilho-as, com a esperança de que sejam úteis para seus planos de ação ou para dialogar com quem chega à sua comunidade: 

  1. Não existe pessoa sem conhecimento, não existe um lugar onde nada acontece. Essa foi uma visão que imperou por muito tempo no olhar do norte para o sul, do centro para as periferias. É imprescindível chegar devagarinho, com curiosidade e respeito pelo território e sua gente. 
  1. Ajuda mais fazer perguntas do que dar explicações. Desembaraçar as pesquisas sobre um território pode ser um bom exercício. Ao olhar os dados e os relatórios, os grupos das comunidades podem ou não se reconhecerem. Um jeito de chegar pode ser escutar juntos o que há por trás dos números. Podem funcionar as perguntas: “As pesquisas dizem sobre vocês. E vocês? O que dizem sobre ela?” O mesmo se aplica para o marco legal: “Está na lei. Está na vida? De que forma?” São perguntas que ajudam a conhecer, a encontrar as palavras que ainda precisam ser ditas. 
  1. Encontrar os espaços onde cabe toda a gente. É a comunidade, e só ela, que pode indicar os espaços mais democráticos, aqueles onde as diferenças são aparadas em favor do coletivo. A minha trajetória diz ser a biblioteca. Se ela não existe, a comunidade saberá encontrar um lugar. Uma pergunta importante a ser feita é: “Quem que não está aqui? Por vezes a gente se ilude: trabalha com uns achando que está trabalhando com todos e segue generalizando soluções. 
  1. Ampliar repertórios com novos saberes, sem hierarquizar os conhecimentos. O território é ponto de partida e ponto de chegada, É carregando a terra do território, como na performance de Nazareth (2011), que se vê o mundo. O território é ponto de partida e de retorno, não precisa ser uma prisão, que priva o acesso a novos conhecimentos. O nosso lugar são todos os lugares. 

Por fim, destaco o território como lugar de anúncio de esperanças, espaço-tempo de construção de futuros. E isto só se materializa se há acolhimento, pertencimento, cuidados com o outro e consigo, práticas de proteção para afastar a dor e o medo, tempo para descanso com lugares para conviver, dormir, sonhar, brincar, divisão de tarefas e responsabilidades, troca de calor, de olhares, sons, linguagens e saberes – como tem sido por onde caminho. 

Bibliografia 

hooks, bell. Tudo sobre o amor: novas perspectivas. São Paulo: Editora Elefante. 2021. 
NAZARETH, Paulo. Notícias de América, 2011. 
LARA, Dona Ivone. “Alguém me avisou”. Sorriso negro [LP]. WEA, 1981. 

* Bel Santos Mayer é educadora social, mestra em Turismo pela Universidade de São Paulo (USP) e referência em bibliotecas comunitárias e leitura. Empreendedora social da Ashoka, coordena o Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário (IBEAC) desde 1997 e atua na formação cultural. Autora premiada, desenvolve pesquisas e projetos em educação e mediação cultural. 


Este texto integra o projeto Direitos Humanos Para Todas as Pessoas, que acontece de 4 a 15 de março de 2026 em diversas unidades do Sesc São Paulo. O projeto propõe reflexões sobre territorialidades e fortalece redes locais em prol de uma sociedade mais justa e diversa.

Saiba mais em sescsp.org.br/direitoshumanos

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