O passado e o presente do poder global

30/01/2026

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Os problemas urgentes das sociedades contemporâneas parecem avançar do aprofundamento da crise climática e das desigualdades socioeconômicas até uma potencial instabilidade global dos regimes democráticos. Para compreender a formação deste cenário inquietante, o historiador Diego Olstein explora neste Uma breve história do agora: O passado e o presente do poder global a interdependência entre inovação tecnológica, crise ambiental, globalização econômica, hegemonia mundial, regimes políticos e desigualdades nos últimos 170 anos no mundo.

O livro é organizado em torno de seis tendências que, na compreensão do autor, marcaram o mundo através das últimas décadas: a contestação crescente de uma economia global interconectada, o desalojamento da democracia liberal pelo autoritarismo, a incerteza da hegemonia dos Estados Unidos, as desigualdades socioeconômicas cada vez maiores, as transformações desencadeadas pelas inovações tecnológicas e a aceleração das mudanças climáticas.

Numa linguagem clara e acessível, a obra oferece uma visão panorâmica da hegemonia mundial, da globalização econômica e dos regimes políticos à medida em que evoluíram e se desenvolveram nestes últimos dois séculos.


Prefácio – Uma história em resistência à aceleração
Alexandre Moreli*

Entre as diferentes promessas de apps em voga a cada momento encontra-se, invariavelmente, a expectativa de liberação do tempo. Um adicional recurso em nossos telefones inteligentes, declaram as mais criativas peças de publicidade, garantiria a possibilidade de desaceleração, de disposição de segundos, minutos ou horas preciosas na busca por uma melhor qualidade de vida, pela forma como realmente gostaríamos de viver, livrando-nos das amarras da escassez do tempo.

Porém, uma lista cada vez maior de afazeres, muitos dos quais criados ou animados paradoxalmente pelo próprio desenvolvimento tecnológico, além de uma persistente realidade marcada pela execução simultânea de várias atividades, parece apenas alimentar o sentimento de contração do presente, de necessidade e urgência em agir.

Para além de tal aceleração técnica, a aceleração da mudança social e dos ritmos de vida, das transformações cada vez mais rápidas daquilo que define nossas ações, alimentam ainda mais uma sensação de fugacidade, de que permanecemos apenas no imediato.

Em meio a tais dinâmicas de celeridade deste século 21 e do temor cada vez mais comum em não conseguirmos acompanhar os ritmos daquilo que nos envolve no trabalho, na economia e na política, pensamos nossa existência meramente por meio de uma temporalidade moldada pelos desafios do presente. Ampliamos, nesse contexto, o sentimento de insatisfação, enquanto dificilmente conseguimos entender o mundo ao nosso redor para além do momentâneo.

Uma breve história do agora surge, contudo, como resistência, como forma de nos auxiliar no esforço permanente de ponderação sobre a complexidade de nosso presente e sobre como entendê-lo. Trata-se de uma reflexão acerca do modelo de sociedade em que vivemos, possível por meio da concepção de que o agora é apenas um momento de manifestação de processos dos mais diversos tipos iniciados em diferentes eventos históricos, forjados por transformações e permanências, caminhando até nossa atualidade para desafiar nossa capacidade de agir e circunscrever nossa possibilidade de existir. Eventos que podem nos obrigar de forma inescapável e involuntária se não tivermos consciência deles.

Ainda que o centro da atenção da obra não seja a realidade brasileira, sua leitura nos oferece um conhecimento crucial para um entendimento mais rico da inserção internacional do país, no passado e no presente. Assim, tornam-se mais claras, por exemplo, as razões pelas quais o Brasil alcançou (e ainda poderá alcançar) ganhos opondo grandes potências em momentos de transição das relações internacionais, mas também o lugar de influências estrangeiras nos processos de assentamento (ou ruptura) dos regimes político e econômico nacionais. Igualmente, torna-se possível tratar de forma mais acessível crises contemporâneas, como as novas disputas por mercados e até por territórios que se percebe hoje. Como um estudioso de nosso presente, mas, essencialmente, como um historiador, Diego Olstein busca explicar um passado labiríntico por meio da ambição totalizante da chamada História Global. Para muito além de uma simples busca de conexões geográficas que possam cobrir a história de todos os espaços do planeta, ou ainda longe de focar em uma circunscrita história da globalização econômica, a perspectiva adotada por Olstein leva em conta dois elementos fundamentais. O primeiro surge em sua proposta de considerar um único grande período para contar a trajetória recente do mundo: os últimos dois séculos. Sendo o momento de uma reorganização e de uma concentração de poder político e econômico sem precedentes, sua unicidade afirma-se capítulo após capítulo. O segundo, materializa-se na preferência em analisar as relações entre diferentes sociedades por meio de dinâmicas políticas, econômicas e tecnológicas. Apenas pela atenção ao processo de integração resultante dessas 
dinâmicas conseguimos entender seus profundos efeitos sociais e ambientais em nossa atualidade.

Em uma clara demonstração de como o passado deve servir de alimento intelectual para cada um de nós na contemporaneidade, Olstein restaura o espírito de nosso tempo. A forma distinta com que escreve, por meio de uma rara linguagem afeita ao grande público, mas também ao campo da História (preservada na excelente tradução de Humberto do Amaral aqui publicada), transporta-nos para os bastidores do nosso presente, para a intimidade de nossa época.

Interessado em história da globalização, em geopolítica e em regimes políticos, Olstein é professor do Departamento de História da Universidade de Pittsburgh, onde leciona disciplinas como História Mundial e Historiografia. Suas reflexões sobre como entender o mundo por meio de fórmulas sistêmicas, mas elucidativas, da realidade já data de mais de duas décadas. Nesse contexto, a forma como constrói a reflexão aqui publicada vem de lições desenvolvidas, por exemplo, em seu livro anterior, intitulado Thinking History Globally [Pensando a história globalmente], publicado em 2015 pela Palgrave Macmillan. Nele, Olstein desenvolve uma habilidade em propor generalizações históricas acessíveis, empregadas aqui em Uma breve história do agora. Os leitores, assim, conseguem identificar sentido, ordenação e estruturação na complexidade que compõe os detalhes do mundo.

Enquanto nos propõe datações de eventos históricos e periodizações, Olstein não se esquece dos intricamentos da cronologia, que nunca é linear. A obra, assim, observa as intersecções entre o longo prazo, o curto prazo e o acontecimento, medindo as temporalidades vividas por diferentes sociedades espalhadas pelo globo e buscando, sempre que possível, analisar a forma como elas próprias se situavam no tempo, como combinavam a percepção sobre seus passados com os desafios de suas realidades presentes e com cada uma de suas expectativas de futuro.

As ciências históricas aqui mobilizadas, portanto, nos lembram que a contemporaneidade é definida e experimentada a partir de heranças pregressas longínquas. Da mesma forma, ela se concebe como uma articulação entre passado e presente em função de perspectivas de futuro. Nessa fórmula multíplice de entendimento do que é o tempo, não há um elemento predominante, apesar das pressões e demandas urgentes às quais somos submetidos cotidianamente, em uma estressante obrigação de aceleração. Analisar determinada sociedade é identificar e entender as dinâmicas e vacilantes representações de tempo que produz, momento após momento, em sua existência. Um mesmo evento histórico pode assim produzir passageiramente a predominância do passado, do presente ou do futuro nas percepções da realidade imediata.

Nesse sentido, por exemplo, em meio à transição entre o que Olstein chama de o Grande Brexit (1914-1945) e o momento em que parte do mundo se “torna americana” (1946-1973), nota-se uma predominância do passado na forma como os dirigentes britânicos entendem aquele preciso momento. A luta que travaram pela preservação de seu império e das relações privilegiadas que possuíam com o mundo até então foi uma das mais eloquentes manifestações desse fenômeno. Já uma expectativa de ruptura, de um futuro novo, dominou tanto as esperanças quanto as ações do mundo político americano, particularmente em eventos como o patrocínio da Carta do Atlântico ou da negociação dos acordos de Bretton Woods, que acabariam por criar o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, instituições em que Washington e os interesses econômicos do país acabariam por predominar. Uma prevalência do presentismo pode, por sua vez, ser percebida nos momentos de auge do sonho americano, particularmente quando o progresso material e o que Olstein chama de “império da imaginação” apoderaram-se de americanos e não americanos.

A obra de Diego Olstein, nesse sentido, nos ajuda a preservar e alimentar a consciência da tripla temporalidade de nossa existência no presente em que vivemos. Sobretudo, ela nos ajuda a defender nossa liberdade de pensamento e ação, mostrando-nos não somente que as crises mais imediatas são frutos de processos complexos e longos no tempo, que devemos e podemos entender, mas também, e curiosamente, que as perspectivas de futuro podem conter tanto continuidades quanto rupturas.

Ao longo da construção dos capítulos, Olstein nos oferece elementos para nos distanciarmos de certas análises imediatistas, quando não reducionistas, do nosso presente. Ao entender, por exemplo, que a globalização econômica data, ao menos, do século 19, podemos lidar melhor com as atuais condenações do fenômeno (como se ele tivesse surgido apenas nas últimas décadas), percebendo os propósitos e alcances de tais críticas.

Também singular no período que nos apresenta Diego Olstein tem sido a disseminação de um novo entendimento de soberania política, não mais fundada em entidades metafísicas, divinas, mas no próprio ser humano. Elementar para o entendimento da trajetória dos Estados Nacionais e das democracias que surgem a partir do século 19, tal concepção de liberdade política não atravessou, porém, os últimos dois séculos sem ser desafiada, por exemplo, pelas desigualdades socioeconômicas, nacional e internacionalmente, dinâmica que ganha destaque no livro.

Outras forças que também travam debate com as novas formas de organizar a sociedade são as inovações tecnológicas informáticas e as mudanças climáticas. Elas aparecem como novidade na reflexão costurada por Olstein quando comparada a obras clássicas de síntese da história contemporânea, como nos trabalhos ainda muito referenciados no Brasil de Eric Hobsbawm.

Constituindo-se como uma fase da Revolução Industrial, Olstein nos apresenta a nova onda de inovações como moldada por rupturas, mas também por permanências. Suas novas manifestações (inteligência artificial, computação quântica e robótica, para nomear apenas algumas) tornam-se tanto uma força transformadora e desafiadora para as sociedades políticas em uma escala global, quanto fenômeno cujas fases de inovação precedente deixaram ensinamentos importantes.

Talvez a reflexão mais premente a ser considerada nesta obra sobre a história do mundo contemporâneo seja a das relações da trajetória humana com o planeta, com seus recursos naturais e seus ecossistemas. Quando levadas em consideração, elas transformam nosso entendimento sobre a história social, cultural, econômica e política, mas também a compreensão de que seus efeitos sobre o agora alcançam absolutamente todos, ainda que haja responsabilidades diferentes pela sua degradação ou ainda desiguais meios de resistir às catástrofes que têm surgido.

No livro, a globalização econômica, as forças hegemônicas mundiais, a liberdade política, as desigualdades socioeconômicas, as inovações tecnológicas e as questões climáticas são apresentadas por Olstein como “processos”. Categoria meta-histórica-chave no pensar e escrever sobre o passado, seu emprego nos permite perceber que a cronologia natural, a linha do tempo, apenas nos ilude quando tentamos acessar e entender o tempo pregresso. Nesse exercício, passamos a perceber que a compreensão do passado demanda não somente boas perguntas, mas um certo instrumental para vencermos as barreiras da complexidade quase infinita da experiência humana acumulada ao longo da história.

Ao atravessarem tais processos, diante de nós, as seis seções do livro (para além da Introdução e da Conclusão) constroem uma obra em dois níveis. O principal objetivo não constitui apenas expor as diferentes durações e dinâmicas das grandes forças que forjam nosso presente, mas também as relações entre si e em como constroem o futuro em diferentes etapas. Fugimos, portanto, de uma explicação monocausal do nosso agora, restrita a apenas alguns espaços no mundo.

Nas linhas iniciais do primeiro capítulo, intitulado “Éramos todos britânicos (1851-1914)”, Olstein lança mão de um momento muito caro aos brasileiros: a final da Copa do Mundo realizada no Maracanã, em 2014. Sem mencionar a eliminação da seleção canarinho naquela competição, para nosso alívio, o autor deseja nos lembrar não somente de que futebol é história, mas também de que a contínua manifestação global desse esporte segue como demonstração da força que um poder hegemônico pode concentrar, com continuidades para muito além do momento de seu declínio. Aliada à derrocada do sistema Ásia-Pacífico entre os séculos 18 e 19, a ascensão da hegemonia britânica foi resultado da forma como sua sociedade soube articular os frutos da Revolução Industrial, a forma imperial e o potencial instigador do projeto de liberdade política, em um tempo em que a modernização lançava seus imperativos de desenvolvimento sem preocupações ambientais, o que marcaria os duzentos anos seguintes. Privilegiando o centro do poder metropolitano, nas ilhas europeias, e exercendo a força mundo afora sempre que o poder sedutor de seus valores e de sua cultura não bastasse, a obra nos relembra como tal império hegemônico transformou a economia mundial por meio de uma singular onda de globalização.

O que se consolidou durante mais de meio século como poder incontornável no mundo conheceu um declínio acelerado em pouco mais de três décadas. O segundo capítulo do livro, intitulado “Até o Grande Brexit (1914-1945)”, assim nos apresenta a forma como os britânicos deixaram o protagonismo na cena mundial ao evocar a expressão que marcou sua saída da fundamental estrutura regional da União Europeia um século depois. Em um intrincado, competitivo e violento processo, a Alemanha, os Estados Unidos e a União Soviética acabaram não somente desafiando o alcance da força e dos interesses britânicos, mas geraram seu enfraquecimento e a perda de sua capacidade de influência.

Os dois capítulos seguintes, “Quando nos tornamos americanos (1946-1973)” e “Ou então… (1946-1973)”, nos apresentam os distintos desejos e projetos que tentaram dominar o poder hegemônico global após a era britânica. No terceiro capítulo, entendemos como o modelo de dominação americano consistiu em permanências e rupturas quanto ao britânico. Enquanto a aceleração de inovações nas áreas da economia, da cultura, da tecnologia e da política permitiu uma acumulação de poder, uma renovação de manifestações imperiais atravessou as décadas em que os Estados Unidos passaram a exercer uma influência sem precedentes sobre o mundo. Na verdade, faz-se importante ressaltar, sobre apenas parte do mundo, como passa a nos lembrar o capítulo seguinte. A renovação da força da liberdade política, do internacionalismo liberal e do multilateralismo aliada à trajetória de desenvolvimento soviética e de sua participação na vitória sobre a Alemanha nazifascista, mas, sobretudo, sobre o projeto de sociedade corporativista, criou oportunidades e ações tanto para uma projeção do socialismo real sobre o mundo quanto para o não alinhamento.

No quinto capítulo, “Agora todo mundo junto: tornando-se cidadãos globais (1968-2003)”, Olstein defende o renascimento da globalização em um processo pleno de contradições. Tratou-se, segundo o autor, de uma fase da história atravessada por guerras, revoltas, reformas, choques energéticos e inovações tecnológicas ainda mais aceleradas, como por meio das comunicações por satélite e da internet. Ao nos lembrar de que espaços no mundo como a América Latina conheceram um recuo dos regimes democráticos no pós-guerra, com a região tendo pouquíssimos países “pacificamente democráticos”, como a Costa Rica e a Venezuela, até os anos finais da década de 1970, mas também de que, entre 1974 e 1991, mais de sessenta países ao redor do planeta transformaram-se em democracias, Olstein ressalta os paradoxos, expondo um tempo de retrocesso e posterior expansão dos regimes democráticos. As contradições seguiram-se abrindo espaço para uma expansão do progresso material, mas também para uma ainda mais significativa degradação dos recursos naturais e para a expansão de projetos neoliberais que pretendiam reinventar o mundo.

Finalmente, o sexto capítulo, “Caindo aos pedaços. De volta ao nacionalismo (2003-2020)”, exibe o último elo de conexão do agora com seu passado constitutivo. Definido inicialmente pelo que representou, para a democracia e para a hegemonia dos Estados Unidos, a invasão americana do Iraque, em 2003, o período apresenta-se como fundamentalmente marcado pelos efeitos da crise econômica ocorrida entre 2007 e 2009, seguido por um balanço do que eram as formas imperantes na organização política e econômica do mundo.

O que o livro nos auxilia a entender, completado esse percurso, é que estamos em uma fase de fortes efeitos deletérios atravessando os ainda vivos processos históricos que estruturam o nosso agora. Trata-se de um momento de crise da globalização econômica, da hegemonia mundial, da democracia, da distribuição de renda, das inovações tecnológicas e das questões ambientais. Apesar do incessante sentimento de carência de tempo, curiosamente, tudo nos leva a um entendimento do presente do qual queremos fugir, em que predomina um desejo ferrenho de futuro (para alguns ainda, de passado). Olstein, assim, nos ajuda a caçar anacronismos, a dizer se o que é percebido em nosso presente como novo é realmente novo, ou mais antigo do que acreditamos, e se o que é considerado velho não é de fato radicalmente novo porque é profundamente diferente de seu precedente histórico.

Nem todas as respostas para nossas atuais angústias e curiosidades, claro, encontraremos neste livro. A própria história de um meio ambiente em degradação no contato com as sociedades ditas modernas está para ser escrita de uma forma ainda mais compreensiva e abrangente, sem mencionar o nosso desconhecimento sobre as rupturas que a nova fase de desenvolvimento da inteligência artificial irá criar em nosso futuro próximo. Entendemos, entretanto, que o mundo passa agora a enfrentar o desafio do retorno das forças hegemônicas do sistema Ásia-Pacífico, impondo transformações que diretamente afetarão o Brasil e sua sociedade. Aprendemos, sobretudo, que o agora não é inovador em termos de transformações e rupturas e que agir no presente é agir historicamente.

* Professor de História das Relações Internacionais da Universidade de São Paulo.


Veja também:

:: Trecho do livro

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