
Foto: Fernanda Luz
Como a dança pode dar testemunho e acompanhar lutas marcadas pela invisibilidade e pelo silêncio?
Creio na força da dança por sua aptidão para com/mover-nos, expressando compaixão (cuja etimologia remete ao sofrimento compartilhado). Essa arte-testemunha acompanha lutas e fala de um lugar distinto do relato histórico. Em Occupation 2, marcas do corpo viram matéria para retratar o apagamento de Tabaco, povoado afro-colombiano desalojado pela mina El Cerrejón. Há 25 anos sem moradia, a comunidade encontra no espetáculo memória e escuta, rompendo o silêncio contra a violência extrativista.
Como surgiu o tema e como ele evoluiu de Occupation 1 para Occupation 2?
Occupation 1 (2023) investigava a ocupação dos corpos, territórios e imaginação. Vivendo em Cuba, me interessava compreender o que acontece com um corpo que vive sob uma estrutura de controle e quais gestos surgem para resistir. Já Occupation 2 nasceu da necessidade de territorializar essa pesquisa na história concreta de Tabaco. Criada na Colômbia com artistas locais, a obra incorpora arquivos documentais, testemunhos, gestos cotidianos, música e ficção. É uma resposta às feridas abertas da primeira obra, uma tentativa de compreendê-las e transformá-las coletivamente.

Pode nos contar mais sobre o ritmo vallenato?
É uma expressão musical do Caribe colombiano que funciona como crônica oral para narrar histórias, transmitir notícias e preservar a memória comunitária. Suas canções relatam viagens, amores, conflitos, deslocamentos e acontecimentos que atravessam a vida coletiva.
Lázaro Benítez é dramaturgo e coreógrafo de Occupation 2.
Em agosto de 2001, a mineradora anglo-suíça Glencore desalojou à força a comunidade afrodescendente Wayuu da aldeia de Tabaco, em La Guajira, Colômbia. Passadas mais de duas décadas, com as famílias expulsas ainda à espera de reassentamento, Lázaro Benítez convidou cinco artistas locais para investigarem como a dança pode testemunhar e acompanhar lutas que emergem de cenários de invisibilidade, violência e silêncio. A partir de materiais de arquivo e do compasso rítmico do vallenato – gênero musical da costa caribenha –, a obra transita entre a ficção e o documentário, criando um espaço de memória no qual o elenco reconstrói e cura sua relação com o território.
O espetáculo Occupation 2 foi apresentado no dia 11/09 às 21h nos Arcos do Valongo, em Santos.
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