
Experiente entrevistador de escritores, músicos e outros artistas, o documentarista Jorge Brennand Jr. traça um retrato íntimo de Tom Zé em novo documentário (foto: Rodrigo Palazzo)
Leia a edição de Janeiro/26 da Revista E na íntegra.
POR VANESSA D´AMARO
Quem é o homem por trás das canções, da poesia e da experimentação? Essa é a pergunta que move o diretor Jorge Brennand Jr. no documentário Todos os olhos, realizado pelo SescTV, com estreia prevista para 2026. Além de revisitar a trajetória de Tom Zé – um dos maiores e mais originais nomes da música brasileira –, Brennand captura as inquietações, afetos e visão de mundo do baiano de Irará, por meio de depoimentos de familiares, amigos e parceiros da música. O resultado é uma coletânea de histórias e bastidores que, sob diferentes prismas, revelam a mente criativa de um artista prestes a completar 90 anos – tão inovador e inventivo quanto sempre foi. “Tom Zé não é um homem muito preocupado com registros. O negócio dele é música ao vivo. Ele acha que vai morrer em cima do palco”, revela o documentarista.
Aos 73 anos, e com mais de 35 de carreira, Brennand percorreu um caminho profissional pouco convencional, mas sempre orbitou o universo das artes. Antes de se dedicar ao audiovisual, trabalhou em uma empresa de auditoria, estudou violão clássico, compôs trilhas sonoras e já foi mentor de dois jovens da Lapa, bairro boêmio da capital fluminense, que resolveram fazer rap juntos. Eram Skunk (1967-1994) e Marcelo D2, criadores do Planet Hemp. O episódio virou, inclusive, história de cinema: Brennand é interpretado pelo ator argentino Ernesto Alterio em Legalize já – Amizade nunca morre (2017), longa-metragem que conta a trajetória da dupla.
Seu interesse pelo audiovisual começou naquela época, final dos anos 1980, enquanto registrava os bastidores dos shows dos amigos. Não demorou para o hobby virar profissão. Em meados da década de 1990, ele assumiu a direção do programa de televisão Encontro marcado com a arte (exibido pelo canal da TV a cabo Bravo Brasil), entrevistando escritores, músicos, atores e outras personalidades brasileiras. Foram 125 vídeos que moldaram seu estilo de trabalho: registros íntimos, câmera fechada e parada. Adotou este mesmo método em Todos os olhos.
Neste Depoimento, o documentarista reflete sobre os bastidores das filmagens, discute a obra e a originalidade de Tom Zé e a paixão pela entrevista e pelo registro de histórias de vida.
take 1
Sou documentarista há 35 anos, mas acabei no audiovisual por acaso. No início dos anos 1990, eu era muito amigo do Skunk (1967-1994) e do Marcelo D2. Na época, nós todos morávamos na Lapa [bairro da cidade do Rio de Janeiro]. Eu era mais velho do que eles. Dizem que fui um mentor do Planet Hemp porque aconselhava muito os dois. Sempre gostei de câmeras e de vídeo. Comecei a gravar os shows do grupo. Algum tempo depois, conheci a empresa que promovia o Encontro marcado com a arte, com o jornalista Araken Távora (1934-1991). Ele entrevistava escritores, atores e músicos em vídeo. Em 1995, assumi esse trabalho, mas sugeri um formato documental. Fazia perguntas curtas, filosóficas e incisivas – e eles respondiam livremente. Gosto muito de trabalhar com depoimentos. Mais tarde, levei o programa para a TV a cabo. Entrevistei mais de 125 pessoas: João Ubaldo Ribeiro (1941-2014), Ariano Suassuna (1927-2014), Regina Casé, Sandra Kogut, Dercy Gonçalves (1907- -2008). Continuei trabalhando com projetos documentais. Criei outros dois: um sobre jornalistas e a mídia; outro sobre profissionais do audiovisual – sempre explorando esse formato.
humano
Eu me identifico muito com o que disse Sandra Kogut quando a entrevistei em 1997: “o ser humano é a melhor paisagem”. Acho isso muito bonito. O humano é, ao mesmo tempo, familiar e misterioso. Isso me emociona. Não existem dois seres iguais, e essas diferenças ficam sempre evidentes para mim. Acho que é por isso que acabo amando todas as pessoas que entrevisto.
tom
Sou músico, estudei violão clássico. Me apaixonei pelo Tom Zé muito jovem. Me lembro de ir à loja de discos, nos anos 1970, e ficar ouvindo os vinis dele. Eu era fascinado pelo trabalho dele – sempre foi meu ídolo na música popular. Eu o conheci pessoalmente em 1998, quando nos deu uma entrevista no Encontro marcado com a arte. Encontrei o Tom em outras ocasiões depois disso. Com o tempo, a figura humana começou a me instigar muito mais do que o músico.
personagem
A ideia original era fazer um documentário que discutisse a inquietação, a juventude, a força de trabalho e a criatividade do Tom Zé. Entrei em contato com o SescTV, que abraçou a ideia imediatamente. Em 2022, começamos a gravar em São Paulo e no Rio de Janeiro. Quando assisti aos três primeiros depoimentos, percebi que os entrevistados falavam muito sobre “o homem” Tom Zé, não apenas sobre “o artista”. Quando a gente faz um documentário, sempre pensa: “quando é que vai aparecer o personagem?”. E ele surgiu ali, nessas primeiras gravações. Achei muito mais bonito do que tinha imaginado. Então, escolhi o nome Todos os olhos, que é uma canção em que ele diz: “De vez em quando / Todos os olhos se voltam pra mim / De lá de dentro da escuridão / Esperando e querendo / Que eu seja um herói / Mas eu sou inocente”. Criamos um retrato da pessoa Tom Zé, a partir das pessoas mais próximas dele: família, como a esposa, filhos e netos, além de artistas que trabalharam diretamente com ele. Nós não tratamos da carreira, dos prêmios, do sucesso, do reconhecimento. Tratamos do humano.
entrevista
Não adianta ficar fazendo muitas perguntas: Tom Zé só vai dizer aquilo que tem vontade. Washington Olivetto, inclusive, comenta isso no documentário: “Ele faz o que quer fazer e não faz concessões”. Gravamos com Tom Zé durante dois dias. O primeiro, foi no apartamento onde vive, e o segundo, no lugar onde trabalha. Ele já começou a entrevista dizendo que não é de falar porque, na verdade, se preparou a vida toda para o palco. Daí nos conta tudo: lembra o quanto aprendeu com os mais velhos em Irará (BA), sua cidade natal. Apesar de vir de uma família simples, teve a oportunidade de estudar, cursou música na Universidade Federal da Bahia (UFBA), em Salvador, onde viveu um momento de vanguarda artística naquela época. Ele tem uma sede de saber incrível. Leonardo Lichote [jornalista e crítico musical] comenta que ele tinha a vivência do sertanejo e a formação de vanguarda – e conseguiu cruzar esses dois aspectos em sua obra.

versatilidade
Para mim, na música do Tom Zé cabe tudo. E essa é a grande qualidade dela. Do ruído branco às passagens bíblicas, tudo tem espaço ali. Ele experimenta para prender a atenção das pessoas, mas também cria composições mais tradicionais – como “Se o caso é chorar” ou “O riso e a faca”. Ele é um músico fantástico, que estudou com os melhores professores. Quando saiu da Bahia e chegou a São Paulo, viu que tudo era gigante. Compreendeu que havia espaço para se fazer qualquer coisa. Acho que ele sentiu: “esse aqui é o meu lugar”. No documentário, Lichote comenta que Caetano Veloso demorou para compreender a cidade – chamou tudo de “mau gosto”, como diz a música [“Sampa”]. Mas não o Tom Zé. Ele entendeu São Paulo assim que desceu do ônibus. Olhou para os arranha-céus, viu negros, nordestinos, japoneses na rua… viu gente rica, pobre e de classe média ocupando os mesmos lugares. Ele se entregou e se integrou à cidade. Tanto que escreveu “São, São Paulo” como uma homenagem.
juventude
Não me impressiona esse fascínio dos jovens pelo Tom Zé. Isso acontece porque ele está sempre ligado no agora. Às vezes, é a juventude quem chancela o que ele cria. E ele é inquieto: quando percebe que um trabalho está prestes a terminar, já começa a pensar no próximo. Considero o Tom Zé um artista eternamente contemporâneo. Isa Grinspum Ferraz [socióloga e documentarista] diz no documentário: “ele é sempre novo, de novo”. Nós entrevistamos Mallu Magalhães, Fernanda Takai, João Marcelo Bôscoli, Marcus Preto e Marcelo Segreto. Todos relatam suas experiências com ele. Acho interessante que o Tom Zé não tem pose. Ele não impõe obstáculos para o jovem chegar perto. Não adota aquela postura de “sou mais experiente”. É tão anárquico que, quando o jovem se aproxima, tímido, para conversar, acaba se sentindo à vontade rapidamente.
lições
Eu gosto muito da entrevista com o filho Everton Pontes Martins, que é médico oncologista. Acho muito tocante o depoimento dele sobre o pai – e gosto também do que os netos dizem. É lindo quando a Neusa [esposa e empresária de Tom Zé] fala que o que mais valoriza nele é o caráter. A maneira como ele fala da Neusa também é muito especial. Ele a consulta em tudo o que cria: tudo passa por ela. Se ela não gosta, diz: “isso não está à sua altura”, e ele acata. Ele comenta que é uma maravilha quando alguém tem a coragem de dizer: “não perca tempo com isso”. Ugo Giorgetti [cineasta que trabalhou com o compositor no filme Sábado (1994)] também diz algo muito significativo sobre a maneira como encara o envelhecimento. Para Ugo, Tom Zé enfrenta o tempo de forma altiva – algo que todos nós deveríamos imitar. /
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