Orquestrar diferenças

02/03/2026

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Descubra as características e singularidades de orquestras que se apresentam em concertos de música erudita (foto: Pedro Castro)

Leia a edição de Março/26 da Revista E na íntegra

POR RACHEL SCIRÉ

No universo da música erudita, existem diferentes tipos de orquestras, como sinfônica, barroca e de câmara. Em geral, essa variedade está associada ao formato das composições que serão tocadas, dos instrumentos utilizados e da quantidade de músicos presentes. “Há repertórios que preveem um número menor ou maior de instrumentos, de acordo com a época histórica da composição”, exemplifica Emmanuele Baldini, spalla (primeiro violino) da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) e regente da Orquestra Sinfônica do Conservatório Dramático e Musical Dr. Carlos de Campos, de Tatuí (SP).

Para Baldini, apesar das particularidades de cada formato, a essência é a mesma: tocar em conjunto. “O trabalho de ensaio de um quarteto de cordas é exatamente o mesmo de uma orquestra, envolve estabelecer prioridades e criar diálogos”, diz. Mais do que conseguir tocar, os músicos precisam saber escutar, ou seja, “tocar a sua parte, saber que outro instrumento pode falar uma coisa bem diferente, inclusive contrastante daquela que você está tocando, e no final tudo convive. É quase uma aula de tolerância e convivência civil”, complementa. Neste Almanaque, conheça as características de cinco tipos de orquestras.

Orquestra de Música de Câmara
O nome faz referência aos aposentos ou compartimentos de residências da aristocracia, onde o repertório era tocado na época do Classicismo, entre a segunda metade dos anos 1700 e a primeira metade dos 1800. No período, as orquestras eram menores porque não utilizavam certos instrumentos. “A primeira vez em que um trombone entrou em uma sinfonia foi com Beethoven (1770-1827). Não se encontra trombone em nenhuma das 41 sinfonias de Mozart (1756-1791). Hoje, toda orquestra sinfônica tem trombone, tuba, mas Mozart nunca escreveu nada para tuba”, explica Baldini. Assim, as orquestras tinham até 50 músicos. De acordo com o maestro, a música de câmara vai desde o duo, com dois violinos ou um violino e piano, passando pelo quarteto de cordas, sexteto, orquestra de cordas, até chegar a um número maior de instrumentistas que formam a orquestra de câmara. A Orpheus Chamber Orchestra, dos Estados Unidos, por exemplo, tem um corpo artístico de cerca de 40 músicos. Apesar de haver muita música de câmara produzida durante o Classicismo, ela não é exclusiva do período. Desde o século 19, como uma reação ao Romantismo, quando se escrevia para orquestras cada vez maiores — como é o caso das grandes sinfonias de Mahler (1860-1911) —, os compositores voltaram a criar para orquestras reduzidas. 

Quarteto Carlos Gomes, no Festival Sesc de Música de Câmara, no Sesc Sorocaba (foto: Eduardo Valentim).

Orquestra sinfônica
O nome deriva de sinfonia, forma de composição musical erudita que, em geral, possui quatro movimentos distintos e exige um grande número de músicos para ser executada. As orquestras contam com a família das cordas (violinos, violas, violoncelos e contrabaixos), das madeiras (flautas, oboés, clarinetes e fagotes), dos metais (trompas, trombones, trompetes, tuba) e a percussão, que pode incluir o tímpano, a caixa clara, o prato sinfônico, entre outros instrumentos. De acordo com Baldini, dificilmente uma orquestra sinfônica terá menos do que 80 elementos – a Osesp, hoje em dia, está com 106. Mas os músicos não tocam o tempo todo juntos, há revezamento e a presença de cada um depende da obra que será executada. “Todos os instrumentos de sopro têm a sua parte individual, então se estão presentes dois oboés ou quatro clarinetes é porque o compositor escreveu partes diferentes para cada um desses instrumentos”, explica. Além disso, outros músicos podem ser convidados a integrar a orquestra, conforme a apresentação.

Orquestras sinfônicas, como a Osesp, contam com a família das cordas, das madeiras, dos metais e a percussão (foto: Íris Zanetti).

Orquestra filarmônica
A diferença entre uma orquestra sinfônica e uma filarmônica é fundamentalmente histórica e envolve o tipo de financiamento. No passado, as orquestras não existiam como instituições. Um compositor escrevia uma ópera ou sinfonia, os músicos da cidade eram contratados para aquela produção e depois dispensados. Na segunda metade do século 19, uma estrutura que funcionava com músicos fixos, que recebiam salário, passou a ser criada. As orquestras sinfônicas eram financiadas pelo Estado e as filarmônicas, por grupos privados, instituições de amantes da música, espécie de mecenas ou filantropos que desejavam destinar parte dos seus recursos para a manutenção de uma orquestra. “As orquestras filarmônicas que nasceram como orquestras privadas, como a Filarmônica de Viena ou Filarmônica de Berlim, mantiveram o nome por tradição”, afirma Baldini. Hoje em dia, há múltiplas formas de financiamento para orquestras, que algumas vezes se combinam, como nas parcerias público-privadas, caso da Osesp.

Orquestras barrocas, como o Florilegium, conjunto inglês dedicado à música antiga, se caracterizam pela presença do cravo (foto: Evelson de Freitas).

Orquestra de Música Barroca ou de Música Antiga
Existem algumas orquestras que se especializam e limitam seu repertório ao período Barroco, do final dos anos 1600 até a primeira metade dos 1700, dedicando-se a compositores como Vivaldi (1678–1741). Chamadas de orquestra de música barroca ou música antiga, são reduzidas, com um número entre doze a catorze músicos, e utilizam instrumentos característicos que levam, por exemplo, cordas feitas de tripas de animais, ou instrumentos que são réplicas de peças antigas e seguem afinações específicas. “Essas orquestras sempre têm no centro a presença do cravo, instrumento indispensável, responsável por fazer o ‘baixo contínuo’ [tipo de acompanhamento tradicional da música barroca]”, diz Baldini. 

Orquestras como a Brasil Jazz Sinfônica são especializadas em repertório de jazz ou música popular (foto: Nadja Kouchi).

Orquestra Jazz Sinfônica 
É a orquestra especializada no repertório de jazz ou música popular, embora as orquestras sinfônicas atualmente também executem muito repertório popular, seguindo uma tendência para ampliar o diálogo com a sociedade. “Além do repertório característico, a orquestra jazz sinfônica conta com a seção rítmica que não está presente em uma orquestra sinfônica, como a bateria, e, eventualmente, outros instrumentos ligados à música popular, como o saxofone”, explica Baldini. É importante também não confundir a orquestra jazz sinfônica com a banda jazz sinfônica: a primeira, como uma orquestra, pressupõe a presença de instrumentos de cordas (a não ser que se trate de uma orquestra de sopros). “Bandas não têm cordas porque derivam das antigas bandas populares. Nos vilarejos, era sempre mais fácil e acessível encontrar uma flauta do que um violino, um violoncelo”, diz.

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