
Novo livro de Claudio Jorge Oliveira investiga como gravadoras, artistas e Estado ajudaram a transformar o Brasil em um dos maiores mercados de discos do mundo durante a ditadura militar
Quem ouviu discos produzidos no Brasil entre as décadas de 1960 e 1980 provavelmente se deparou com uma inscrição estampada na contracapa: “Disco é cultura”. A frase, que parecia apenas uma afirmação sobre o valor da música, tinha uma história por trás. Em 1969, uma lei criada pelo governo militar permitiu que as gravadoras abatessem integralmente o ICM na produção de álbuns de artistas brasileiros, criando condições para o fortalecimento da indústria fonográfica nacional.
Publicado pelas Edições Sesc São Paulo em coedição com a Garota FM Books, Disco é cultura: música, gravadoras e ditadura militar no Brasil, de Claudio Jorge Oliveira, oferece um panorama da formação e da consolidação da indústria fonográfica brasileira. Resultado de uma pesquisa de doutorado em História, o livro investiga as relações entre gravadoras, artistas, mercado e Estado, com atenção especial ao período da ditadura militar, quando o Brasil se tornou um dos maiores mercados de discos do mundo.
O autor acompanha a atuação das gravadoras, as disputas em torno dos direitos autorais, as relações entre empresários, músicos e poder público, além das transformações que moldaram o mercado fonográfico brasileiro. Entre os episódios abordados estão a greve dos músicos de 1941, as discussões em torno da chamada Lei Humberto Teixeira, nos anos 1950, e a intensa mobilização do setor em defesa da redução da carga tributária sobre os discos.
Embora percorra diferentes períodos, o livro dedica atenção especial aos anos da ditadura militar. Foi justamente durante esse período que o mercado brasileiro de discos viveu uma expansão sem precedentes, chegando a ocupar posição de destaque no cenário internacional. O paradoxo é um dos aspectos centrais da pesquisa: enquanto a censura atingia artistas e obras, a indústria fonográfica experimentava forte crescimento econômico, impulsionada por mudanças tecnológicas, estratégias comerciais e políticas públicas.
Com prefácio de Silvio Essinger e texto de orelha assinado por Charles Gavin, a publicação reúne ainda entrevistas com personagens fundamentais da história da música brasileira, entre eles André Midani, Jards Macalé, Roberto Menescal e Wilson Souto Jr. Os depoimentos ajudam a compreender as dinâmicas de um setor que influenciou profundamente a produção, circulação e o consumo de música no país.
Ao reconstruir a trajetória das gravadoras e suas relações com o Estado brasileiro, Claudio Jorge Oliveira mostra que a história da música não pode ser separada das transformações sociais, políticas e econômicas do país. Mais do que revisitar artistas e discos consagrados, Disco é cultura desloca o olhar para a estrutura que sustentou a produção musical brasileira, revelando o papel das gravadoras, dos empresários e das políticas públicas na construção de um dos maiores mercados de discos do mundo.
:: Trecho do livro
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